
Aconteceu rapidamente......
Eu entrei no metrô e ela estava em pé, próxima à porta, lendo mensagens no celular. Rosto fino, bonito, cabelos crespos, compridos, tingidos de vermelho e presos em rabo de cavalo. Corpo perfeito, de bermuda, pernas bem torneadas, pés nem muito grandes nem muito pequenos, proporcionais, uma blusa curta, deixando antever uma pequena parte de uma barriguinha na medida certa....e a essa altura da minha rápida avaliação, em apenas duas passadas de olhos, comecei a sentir o efeito da sua presença. Senti-me como uma agulha de bússula apontando loucamente para um imã colocado perto. É automático e inevitável, embora algumas mulheres acreditem que não, é como uma mosca capturada na teia de uma aranha. Comecei a ter uma sensação muito boa e ao mesmo tempo dolorosa, embora sem dor. Uma pressão no peito, uma vontade......e a cada olhada que eu dava essa sensação aumentava e não me deixava pensar em mais nada. A quantida de feromônios que exalavam dela devia ser inexoravelmente intensa. Depois, chegou o momento de descer e foi como se um campo magnético tentasse me manter ali, ficar eternamente ali.
Mas, como nada dura para sempre e a vida continua, eu desci e, aos poucos, a sensação foi se acalmando. E, enquanto andava, dei asas ao meu pensamento . Havia sido submetido a uma das mais fortes leis da natureza: o instinto de preservação da espécie. Essa atração sexual intensa era a grande arma para manter a espécie humana viva na face da Terra, uma força impressionante. Foi bom, muito bom.... E se ela se interessasse por mim? Seria paixão à primeira vista, uma loucura cujo risco, para pessoas sentimentais como eu, seria enorme. Eu me envolveria total e irremediavelmente, até que se esgotasse toda a energia, todo o fascínio. É assim que muitos se enganam e não percebem que estão sendo vítimas de uma armadilha da natureza. Acreditam terem sido ungidos pelo verdadeiro e eterno amor, a paixão, e depois, quando o desejo foi saciado, a novidade vira rotina, a atração quase não existe mais e é dificil entender porquê tudo mudou. Niguém é culpado de nada, é apenas um jogo da natureza no qual somos meros figurantes. Como diz o velho ditado, o melhor é relaxar e gozar. Como dizia Vinicius, "..que seja bom enquanto dure...". Não que eu não acredite no amor mas, sei que não é dessa forma que ele pode durar. O que me aconteceu foi puro instinto animal, não houve qualquer vestígio de razão. Eu acredito no amor sim, mas de outra forma. E como já passei por algumas experiências, acredito ter encontrado a fórmula certa para alcançá-lo, se é que isso é possível. É importante que haja um interesse mútuo original, um misto de atração física com identificação emocional. Uma admiração de um pelo outro, um respeito mútuo, uma aceitação dos espaços, dos gostos, como uma dança ritual, em que cada um avalia o outro. É necessário que um certo mistério se mantenha, que cada um tenha o direito de conservar uma parte do seu mundo só para si e que reserve a outra parte para compartilhar.
Isso provocará um aumento na intensidade do sentimento de os une. Mas atenção: nada de ir com muita sede ao pote, querer usufruir de tudo até o limite máximo, porquê isso poderá causar um desgaste exagerado e com isso, o fim. É preciso saber dosar, usar aquela paciência que era ensinada por Confúcio. Saborear cada momento, cada beijo, cada pedacinho de pele acariciada, sentir a energia que é trocada no contato entre os corpos, não ter pressa, compartilhar cada por do sol, cada manhã radiante, cada alegria, cada tristeza, enfim, viver cada momento como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. Talvez não seja fácil de conseguir, talvez nem seja possível, mas vale a pena tentar.
