segunda-feira, 29 de março de 2010

Excelente artigo, de Washington Araújo, copiado do sítio (ou site, como preferirem) "Observatório da Imprensa".


BIG BROTHER BRASIL
A quintessência da frivolidade

Por Washington Araújo em 23/3/2010

Nos últimos dez anos, o canal de maior audiência da TV aberta no Brasil exibiu durante 900 noites seguidas a atração Big Brother Brasil. Em outras palavras, a TV Globo passou mais de dois anos transmitindo, de forma ininterrupta, o programa que segue o formato criado em 1994 pelos holandeses Joop van den Ende e John de Mol, nomes que deságuam na ora famosa marca Endemol.

No conjunto, são dois anos e meio falando de prêmio de dinheiro graúdo. R$ 500 mil, R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão. E também de anjo, monstro, liderança, paredão, eliminação. E tome Pedro Bial pontificando, filosofando, misturando superego, mito do herói, arquétipo e inconsciente coletivo, Brecht e Paulo Coelho, Maiakovski e Paulo Leminski, Renato Russo e Bob Dylan, arrematando tudo com a manjada moral da história extraída possivelmente dos contos da lavra dos irmãos Grimm.

O BBB é mais atração que programa. Programa tem algum tipo de encadeamento, de estrutura enquanto atração: tem pouco de previsibilidade, a "coisa em si" é o que capta os sentidos da audiência. Há a ilusão da imprevisibilidade. Apenas ilusão, porque o que vale mesmo é a realidade fabricada ali na mesa de edição; é ali que se constroem os mocinhos e os bandidos, os "cabeças" e os iletrados, o éticos e os aéticos.

Contrariando a máxima de que homem algum é uma ilha, o BBB termina sendo a própria ilha a ter como mar suas paredes e o tempo todo é desperdiçado com conversa, namoro, intriga, ginástica, bebedeira. No entretempo, os super-heróis do Bial se digladiam para eliminar os outros e vencer. E é o vale-tudo: fazem alianças, traem, simulam, dissimulam, enfim, tentam se aproximar do Santo Graal, aquele objeto de desejo agora representado pelo cheque de R$ 1,5 milhão.

Quem está ali se depara com o dilema da modernidade: se tornará celebridade instantânea ou retornará ao anonimato. Ser celebridade, mesmo que por poucos dias, parece conceder um sentido à vida desses participantes; e renunciar aos holofotes deve, em sua estima, equivaler simbolicamente à própria morte.

Em volta da piscina

Concordo com o ótimo poeta brasiliense Gustavo Dourado. E, de sua autoria, compartilho os bem-humorados versos:

"É um joguete da mídia:/ De lucro comercial.../ Os bobos no telefone:/ Escravidão digital.../ A mando do Grande Irmão:/ Que acumula o vil metal.../// Loteria de milhões:/ Os bundões em evidência.../ Decadente baixaria:/ Em busca de audiência.../ Programinha indecente:/ Que está na repetência..."

É aquele desfile de corpos sarados – na maioria dos casos – com mentes vazias. Gigantes materiais e pigmeus éticos. Muita futilidade, caras e bocas, mau caratismo explícito, atentados ao pudor e à língua pátria, preconceitos raciais e sociais de todos os matizes. O voyeurismo estimulado pela atração supera e muito o interesse e curiosidade com que visitantes param em um zôo para observar a jaguaritaca, o filhote de anta e o urso polar, a girafa ou o flamingo.

O programa de maior audiência da televisão brasileira é a versão moderna de um zoológico, onde em vez de observar animais observamos do que são capazes semelhantes nossos trancafiados em uma jaula com aparência de casa, com jeito de casa. Ninguém joga pipoca nem banana, mas a atenção é concentrada: em determinada noite da semana se contabilizam formidáveis dezenas de milhões de ligações telefônicas jogadas na jaula em forma de casa com o nobilíssimo intuito de sensibilizar os administradores do zôo para que expulsem da casa – em forma de jaula doméstica – este ou aquele participante.

Em pleno verão carioca, sempre no período de janeiro a março, sabemos na edição noturna os que ficaram papeando na piscina ou desmaiados em volta desta, sempre em trajes sumários, sumaríssimos. E os instintos estarão, quase sempre, à flor da pele. E isso me faz lembrar os jacarés do papo amarelo, aquela espécie de jacaré que habitava rios, lagos e brejos próximos ao mar, desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul e na bacia do Rio Paraná, chegando até o Pantanal. É que ali já estiveram trancafiados gente de quase todos os estados brasileiros. Largados em volta da piscina colocando em dia seus papos amarelos. E põe amarelos nisso.

A verdadeira natureza

Todos parecem desfrutar do mesmo DNA do Pedro Bial: belos, sarados e afinados com essa cultura de frivolidades de que a atração é seu fruto mais maduro e consumido. Quando Bial surge na tela com seus jargões pomposos – meus heróis, meus ídolos, tripulantes de minha nave, habitantes da casa mais vigiada do Brasil, meus mais-mais – os participantes dão uma última retocada no visual, uma nova cruzada de pernas, e como integrantes de bem ensaiado coral capricham no sorriso e retribuem o desejo de boa noite.

Bial não consegue disfarçar seu encantamento com aqueles espécimes humanos, fala como se Oráculo fosse e tem a plena convicção que jamais – jamais! – será contraditado ou contrariado por quaisquer deles – e não importa quão infamante seja seu gracejo ou quão estúpidas as observações a ser proferidas em tom ora solene ora galhofeiro. E todos sabem que agradar o Bial é o mesmo que aparecer bem nas casas de milhões de telespectadores.

Mas nem tudo está perdido. O Big Brother Brasil está a merecer estudo sociológico. A casa-jaula assemelha-se também a uma gaiola de hamsters (aqueles pequenos roedores brincalhões). São 80-90 dias de cativeiro, privados de intimidade, alvos de simpatia e da antipatia de uns e de outros, do ciúme e da inveja de uns e de outros, com tanto tempo ocioso e pouco afeitos à atividade de pensar, talvez acreditando piamente que pensar enlouquece.

Como hamsters, têm acesso à roda gigante: festas no sábado, gincanas premiando o vencedor com carros 0 km, esforço físico colossal para fixar na mente dos telespectadores a marca do detergente que pode limpar tudo menos os lugares vazios, muito vazios de ideais e de sentido para a vida.

Do ponto de vista financeiro a atração é uma mina de ouro. Muito merchandising, pouco investimento. Assim como é fácil de tratar o hamster e de o mesmo não necessitar de alimentação dispendiosa, a manutenção da casa do BBB é relativamente econômica. Eles mesmos são quem fazem a comida e esta precisa ser conquistada vencendo obstáculos. E agora o formato da Endemol inclui a existência da Casa Grande & Senzala – ou, como chamam seus participantes, a casa de luxo e o puxadinho.

Hamsters levam a vantagem de rapidamente conquistar a nossa simpatia com seu comportamento amistoso ao contrário dos heróis do Bial, que na maioria das vezes apenas revelam sua verdadeira natureza com o passar do tempo em cativeiro.

A maior tragédia

Nesta décima edição houve recorde de votos para eliminação de um participante: 92 milhões. Pausa para alguns rápidos cálculos. Neste paredão recorde, caso 100% dos votos tenha sido transmitido por ligação telefônica, podemos calcular que as ligações renderam R$ 27,6 milhões – considerando o preço da ligação a R$ 0,30.

Agora... sim, sempre tem um agora. Agora, vamos imaginar que a Rede Globo tenha feito um contrato "50% por 50%", ou melhor, "meio a meio" com uma operadora de telefonia. Então, nesse único paredão a emissora carioca teria embolsado nada desprezíveis R$ 13,8 milhões. Toda essa dinheirama em um único paredão. Acontece que em três meses a quantidade de paredões varia de 14 a 16. Portanto, seguindo certa mentalidade de nossos meios de comunicação, ante tamanho volume de dinheiro, algum desses empresários pensaria duas vezes antes de riscar de sua grade conteúdos que favoreçam e cultura e cidadania do povo brasileiro?

Outra constatação é que pensamentos egoístas e imagens preconceituosas dominam o programa ou, ao menos, a quase totalidade da edição do programa. Os que se sentem acima da média – que, aliás, é muito baixa – avocam para si o atributo de serem elas mesmas, de serem sinceras em suas opiniões, de não estarem jogando pra platéia e que "dinheiro não é tudo na vida". Para estes, os outros apenas vêm confirmar o pensamento de Jean-Paul Sartre de ser, os outros, o próprio inferno.

O Big Brother Brasil é autoexplicativo. Mesmo quem diz que nunca assistiu consegue rapidamente formular opinião sobre o programa. Até porque é de longe fonte primária para o jornalismo de frivolidades – também conhecido como de entretenimento –, crítica de televisão e, na verdade, reedita o velho colunismo social dos jornais impressos. Só que bem mais ao gosto dos dias atravessados que vivemos, com direito a pergunta em rede nacional em horário nobre tão instrutiva e recatada quanto: "Você é ativo, passivo ou ambos?" E a resposta de supetão: "Nessa idade, eu sou tudo".

À sua maneira, os participantes se põem a conversar sobre tudo e todos, sobre tudo e nada. É uma pena que não consigam elaborar em 90 dias perguntas que façam a vida valer a pena. Penso em busca de respostas para questões essenciais: todo mundo é corrupto ou depende das circunstâncias? Você toparia tudo – mas tudo mesmo! – por dinheiro? Todo mundo mente, faz intriga, é fofoqueiro, traíra ou X9? Existe algum ser humano que seja confiável quando há muito dinheiro em jogo? Por que tenho medo de lhe dizer o que eu sou?

É que ainda não entendemos que a pior tragédia na vida de um homem é aquilo que morre dentro dele enquanto ele ainda está vivo. Não preciso escrever mais nada, né?


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Pena que nem todos tenham acesso ou conheçam os blogs que merecem ser visitados. O blog "VI O MUNDO", do Azenha é um exemplo de jornalismo criativo, ético, honesto, uma real fonte de informação.
Conforme venho fazendo, por enquanto, estou colocando abaixo um artigo copiado, desta vez do blog "Vi O Mundo". Trata-se de uma visão sobre o que está acontecendo neste momento no Oriente, mais especificamente no Afeganistão e as ações políticas que estão em curso, contrariando os interesses dos Estados Unidos. Um artigo desses jamais sairia no PIG, essa mídia sem ética e sem qualquer resquício de honestidade e qualidade. Obrigado ao Azenha, por nos proporcionar a oportunidade de conhecer melhor o que se passa do outro lado.



29 de março de 2010 às 15:14

Flerte entre Karzai e a China assusta Obama

30/3/2010

por M K Bhadrakumar, Asia Times Online

Grandes momentos na cronologia diplomática podem ser quase imperceptíveis quando os atores são entidades opacas, inescrutáveis. A visita do presidente Hamid Karzai do Afeganistão à China e ao Irã, semana passada, fez soar alarmes em Washington que chegaram ao Salão Oval da Casa Branca.

Os dois dias de encontros de Karzai em Pequim foram agendados para acontecer exatamente ao mesmo tempo em que acontecia o diálogo estratégico de alto nível entre EUA e Paquistão em Washington.

Karzai desafiou friamente a campanha diplomática do presidente Barack Obama, que exigia movimento para “isolar” o Irã na região – e desafiou-a não uma, mas duas vezes, na última quinzena. Antes, Karzai já havia recebido com visível simpatia, em Cabul, a visita do presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, no momento em que o secretário de Defesa dos EUA Robert Gates estava em visita ao Afeganistão.

Washington não perdeu tempo para mostrar desagrado. Obama voou sem qualquer anúncio ou aviso para Cabul no domingo, para ouvir explicações presenciais e imediatas de Karzai.

James Jones, conselheiro de segurança nacional dos EUA disse, em reunião com os jornalistas da Casa Branca, que Obama esperava ajudar Karzai a compreender que “no segundo mandato há coisas que [Karzai] tem de fazer, como presidente de seu país, para enfrentar questões às quais praticamente ninguém deu qualquer atenção desde o primeiro dia”.

O comentário surpreendentemente incisivo de Jones faz eco ao que o New York Times escreveu, de Cabul: que Obama “apresentou sua crítica firme pessoalmente ao presidente afegão”, e crítica que manifestava “crescente desagrado”.

O jornal comentou: “A visita do presidente Obama ao Afeganistão veio num cenário de tensão entre o presidente Karzai e os norte-americanos.” Citou um diplomata europeu em Cabul, que teria dito que “ele [Karzai] está afastando-se do ocidente”. E lembrou também que o presidente afegão “recebeu calorosamente em Cabul um dos mais eloquentes e ‘falantes’ adversários dos EUA” e, depois , novamente se encontrou com ele no fim-de-semana em Teerã”, além de ter visitado a China, país que está fazendo investimentos econômicos no Afeganistão, e “colhendo vantagens dos caros e difíceis esforços para garantir a segurança, em que se empenharam os EUA e outras nações ocidentais”.

Parece que Karzai acabava de chegar de volta a Cabul, vindo de Teerã, quando o US Air Force One que transportava Obama pousou na base aérea de Bagram, ao norte da capital afegã. Obama convidou Karzai a visitá-lo em Washington dia 12 de maio.

A primavera está no ar

Muito evidentemente, os americanos estão furiosos por Karzai estar claramente escapando das garras dos EUA e buscando a simpatia da China e do Irã. A falsa cordialidade aumenta à medida que Washington sente o chão escapar-lhe sob os pés.

Curiosamente, dois dias depois de voltar de Pequim para Cabul, na 3ª.-feira, Karzai voou para Teerã, para participar das celebrações do Nowruz. Ao celebrar o renascimento da primavera num excepcional encontro regional de países que língua persa, em Teerã, Karzai chamou a atenção do mundo para a múltipla identidade do Afeganistão, sociedade plural com longa história pré-islâmica.

Mas em termos políticos, foi movimento ostensivo de autonomia em relação aos controles norte-americanos. Em Teerã, Karzai visitou o Líder Supremo aiatolá Ali Khamenei.

Se a diplomacia de Karzai para o Irã foi rica em simbolismos políticos, sua visita à China foi politicamente substantiva. Karzai fez-se acompanhar dos ministros afegãos de Relações Internacionais e da Defesa. A agência chinesa de notícias Xinhua noticiou, de Pequim, que a visita de Karzai “atraiu muita atenção, em momento em que as grandes potências especulam sobre se a China se engajará em esforços mais profundos para reconstruir – e possivelmente dará também assistência militar – ao Afeganistão destruído pela guerra.”

A agência Xinhua neutralizou qualquer possível especulação sobre o papel da China na guerra:

“Desde o início de 2008, funcionários afegãos e soldados da OTAN têm repetidamente pedido à China que abra a fronteira no extremo leste do corredor Vakhan, para facilitar o combate aos terroristas no Afeganistão. A China tem rejeitado o apelo, para não se deixar arrastar para uma guerra ao terror. (…) O ministro chinês do Exterior Yang Jiechi declarou no início desse mês que não se alcançará solução fundamental para a questão afegã por meios militares.

Zhang Xiaodong, deputado-presidente da Associação Chinesa de Estudos do Oriente Médio, também foi citado: “a China definitivamente não participará de negócios internos do Afeganistão no quadro da OTAN”.

Zhang desafiou a conclamação do secretário-geral da OTAN Anders Fogh para reforçar os laços da aliança com países asiáticos como China, Índia e Paquistão, além da Rússia, que têm interesse na estabilidade do Afeganistão. Para Zhang “o engajamento desequilibrado desses atores [asiáticos] só gerará mais problemas.”

Zhang acrescentou que “o Afeganistão deve por fim à dependência em relação aos EUA. No momento atual, Washington está muito profundamente envolvida, o que gera nervosismo entre os vizinhos. Agora, Karzai espera encontrar mais apoio de outros grandes países e encontrar posição diplomática mais equilibrada.”

Apesar disso, em encontro com o m

inistro da Defesa afegão Abdul Rahim Wardak, o ministro chinês da Defesa Liang Guanglie falou de cooperação bilateral. “Os militares chineses continuarão a dar assistência ao Exército Nacional Afegão, para ampliar sua capacidade para proteger a soberania nacional, a integridade do território e a estabilidade doméstica”, disse Liang. E destacou que a cooperação militar avança suave mas firmemente na direção de oferecer suprimentos militares e treinamento de soldados, e que a assistência chinesa é “incondicional”.

Crítica demolidora contra a política do Af-Pak, no China Daily

Na 4ª.-feira, antes de Karzai encontrar-se com o presidente da China Hu Jintao, o jornal estatal China Daily publicou crítica arrasadora contra a política dos EUA para o Af-Pak, em artigo intitulado “O Afeganistão reflete a auto-obsessão dos EUA” [ing. "Afghanistan reflects US' self-obsession", http://www.china.org.cn/opinion/2010-03/24/content_19674414.htm].

Lá se lê:

“É claro que os EUA querem manter a influência sobre o Afeganistão mesmo depois da retirada das tropas, não importa o que aconteça. É o mesmo que dizer que os EUA não aceitarão que poderes regionais, como a China, desempenhem papel maior nos negócios afegãos. Em vez disso, a única coisa que interessa aos EUA partilhar com países como a China é o encargo da reconstrução econômica.”

O comentário insiste na tecla das diferen

ças nas “instâncias básicas” entre China e EUA. Primeiro, os EUA adotaram abordagem diferenciada em relação ao terrorismo, porque seu foco é evitar que os Talibã ou a al-Qaeda ameacem a segurança dos EUA ou em território nacional ou em instalações dos EUA pelo mundo. Diferente disso, “a China, como vizinha do Afeganistão, também precisa lidar com ameaças não-tradicionais à segurança, como tráfico de drogas, contrabando de armas e outros crimes de fronteira” – disse o China Daily.

Em segundo lugar, a “consolidação” da presença militar dos EUA no sul da Ásia, “que usa a guerra do Afeganistão como pretexto”, implica pressão extra contra os interesses de defesa e da segurança da China”.

Terceiro, há conflito entre os interesses econômicos

de China e EUA. “Os EUA têm prioridade na seleção de projetos (…) E seu input econômico visa a conseguir pagar as operações militares”, o que força as empresas a enfrentar concorrência desigual nos contratos de seguros, além de expô-las a ameaças à segurança.

Quarto, os EUA são sempre prescritivos e “têm tentado impor seu modelo político ao Afeganistão, considerado país atrasado. A China, por outro lado, crê que os afegãos (com todos seus grupos étnicos e partidos políticos) devem poder decidir sobre a forma de governo que desejam, baseados em sua cultura, em sua tradição e em suas condições domésticas”.

Quinto, o jornal China Daily diz que EUA e China visam a “objetivos geopolíticos” opostos. Os EUA têm uma “estratégia ofensiva de contraterrorismo, na qual o Afeganistão é usado como peão, para preservar a dominação global e conter a concorrência. A China, ao contrário disso, trabalha por uma política defensiva de defesa nacional e deseja manter

boas relações, como país vizinho do Afeganistão”.

Em prospectiva, diz o comentário chinês:

“O caos provocado pela guerra no Afeganistão ameaça a segurança da região noroeste da China. Um governo fraco em Cabul implicaria fronteiras mal geridas, o que, por sua vez, facilitaria o tráfico de drogas e o contrabando de armas e levaria os separatistas “do Turcomenistão Leste” a buscar abrigo no Afeganistão, o que geraria dificuldades na Região Autônoma Uigur de Xinjiang.

A China trabalha para reunir mais países interessados em resolver o problema afegão (…). A SCO [ing. Shanghai Cooperation Organization] pode desempenhar papel mais ativo, porque cinco dos seis vizinhos do Afeganistão participam daquela organização como membros ou como observadores (…). Mas, dada a atual situação no Afeganistão, qualquer proposta de reconciliação e reconstrução liderada pela SCO é proposta irrealista. Assim sendo, [a China] só pode oferecer e prover ajuda ao Afeganistão por canais multilaterais.

Sinais de apoio a Karzai

Na véspera de partir para Pequim, Karzai recebeu uma delegação do grupo oposicionista Hizb-i-Islami liderado por Gulbuddin Hekmatyar. Washington é ambivalente em relação a Hekmatyar; mas, em declaração conjunta emitida depois da visita de Karzai, Pequim manifestou-se favorável à reconciliação e ao processo de reintegração no Afeganistão; e afirmou “respeito pela escolha do povo afegão, que optou pela estrada do desenvolvimento mais adequada às suas condições nacionais”.

Os encontros que Ahmadinejad manteve em Cabul, seguidos da visita de Karzai a Islamabad, e, agora, a visita de Karzai a Pequim e Teerã – a rápida sucessão de contatos de alto nível sugere um padrão.

O que provavelmente mais alarmou Washington é que a posição dos chineses em relação à reconciliação nacional no Afeganistão integra-se bem à agenda e aos acordos políticos de Karzai e, também, com as preocupações e interesses do Irã.

A declaração conjunta de China e Afeganistão afirma que Pequim está pronta a expandir a cooperação econômica, o comércio e investimentos, ao mesmo tempo em que destaca o princípio do “respeito pela escolha do povo afegão, que optou pela estrada do desenvolvimento mais adequada às suas condições nacionais”.

Washington vê aí o risco de a capacidade financeira da China reduzir a dependência de Karzai da prodigalidade ocidental, ao mesmo tempo em que poderá encorajar o líder afegão a resistir às tentativas ocidentais para dominá-lo.

Washington evidentemente sabe que Pequim e Teerã têm preocupações similares em relação a praticamente todas as questões-chave da situação afegã.

Dentre essas semelhanças, está o que os dois países pensam sobre a “agenda oculta” dos EUA na guerra do Afeganistão e, portanto, sobre a urgência de estabilizar-se o Afeganistão; sobre os dois pesos que Washington manobra na luta contra o terrorismo; sobre a abordagem hegemonista em relação ao Afeganistão; sobre a imperiosa necessidade de “Afeganistização”, inclusive de reconciliação nacional conduzida pelo próprio Afeganistão e, sobretudo, sobre se seria desejável uma cooperação entre países cujos interesses e objetivos coincidam na Região, com vistas a um acordo para pacificar o Afeganistão.

Pequim, por sua vez, deve preocupar-se com a situação crítica da segurança no Afeganistão; e o fato de haver interesses comuns entre Pequim e Teerã, bem pode servir como catalisador para firmar ainda mais a posição de Pequim em relação à questão nuclear do Irã.

E a perspectiva de que se firmem laços estratégicos de longo prazo entre EUA e o Paquistão? Será que preocupa a China?

Um alto conselheiro do ex-primeiro ministro do Paquistão Nawaz Sharif escreveu recentemente: “relações estratégicas com os EUA podem bem influenciar outros laços vitais. Dois, sobretudo, são críticos. Os EUA estão decididos a construir uma ‘mudança de regime’ no Irã. E o que estarão pensando, para o Paquistão? E temos de examinar o risco de qualquer cooperação entre Islamabad e os EUA atrapalhar nossas relações com a China.”

Até agora, os comentários chineses parecem manter certo distanciamento. Tendem a ver o projeto de parceria EUA-Paquistão como estratégia de longo prazo, e movimento pragmático dos dois lados – nascido do fato de Washington precisar da ajuda do Paquistão para estabilizar o Afeganistão e, por outro lado, do fato de que Islamabad precisa dos EUA para ressuscitar a economia e manter um equilíbrio estratégico em relação à Índia.

Mas Pequim não pode esquecer a estratégia regional subjacente dos EUA, que visa a impedir que a China consiga vias de acesso até a região do Golfo Persa via Ásia Central, contornando o Estreito de Malacca, efetivamente controlado pelos EUA. A estratégia dos EUA não funcionará, a menos que consigam alinhar o Paquistão.

O show de apoio a Karzai, oferecido por Pequim (e Teerã) vem num momento em que as relações de Karzai com EUA e com o Paquistão estão abaladas… para dizer o mínimo.