sexta-feira, 30 de abril de 2010
Lula como líder sindical já se destacava, em 1978
Vox Populi - Lula (1978) [parte 1]
Vox Populi - Lula (1978) [parte 2]
Eles têm mais é que aplaudir

Como é patética a direita brasileira, não? Foi questão de minutos, desde o momento em que saiu a notícia de que o presidente Lula encabeça a lista da revista Time das cem pessoas mais influentes do mundo, para que o portal G1 tentasse minimizar o fato com uma versão idiota de que não era bem assim, de que o presidente não tinha sido considerado a pessoa mais influente do mundo, mas, “apenas”, tinha sido colocado no topo de uma lista contendo 25 dos cem nomes.
Detalhe: a lista não foi feita em ordem alfabética.
A versão burra da Globo para “explicar” por que o político que ela não pára de tentar ridicularizar, insultar e acusar mereceu tamanha honraria justamente dos EUA foi a de que, “Segundo o setor de Relações Públicas da revista [Time], a decisão de colocar Lula como ‘número um’ se deu meramente por ‘razões editoriais’. ‘Os editores da revista consideraram que seria mais interessante colocar o texto de Michael Moore sobre Lula como o primeiro, o que não significa que exista um ranqueamento’ ”.
Ora, pode até não existir “ranqueamento” – supondo-se que realmente tenha existido essa declaração do “setor de relações públicas” –, mas isso só torna mais importante os editores da revista Time terem achado que Lula é que deveria encabeçar uma lista que não foi feita em ordem alfabética, pois, assim, a única posição de relevo naquela lista é a de quem foi escolhido para encabeçá-la.
E o mais espantoso foi a matéria ter dito que não foi Lula o escolhido para encabeçar a lista, mas “o texto de Michael Moore”.
Também tentaram desqualificar o fato de o presidente brasileiro ter sido colocado no primeiro lugar da lista da publicação americana insinuando, de forma ainda mais burra, que tal fato se deveu ao texto homenageando Lula ter sido escrito pelo cineasta Michael Moore, tido como esquerdista. Burros. Ele não escolheu nosso presidente, apenas escreveu o texto de homenagem. Quem escolheu Lula foi a revista.
Foi ridículo ver todos os outros portais de internet correrem atrás dessa babaquice do G1 para como que exclamarem “Ufa! Graças a Deus! Pelo menos Lula ‘apenas’ figura entre as 25 pessoas mais influentes em um planeta habitado por 6 bilhões de pessoas”.
Mas, assim mesmo, a direita ficou desesperada. Os cães dos barões da mídia apressaram-se em buscar algum osso para levarem para os donos. O Esgoto da Veja se pôs a insultar Lula e a repercutir a teoria insólita do G1, e o principal blogueiro da Globo tentou fazer piada dizendo que José Serra, inimigo político de Lula, o cumprimentou “primeiro” pela honraria e que Dilma, aliada do presidente, não cumprimentou.
Mas Serra teve que aplaudir Lula. E não foi só ele. Sergio Guerra, presidente do PSDB, também foi obrigado a fazer o mesmo. Só que o verdadeiro sentimento da oposição não era esse e ficou bem expresso nas palavras dos aliados desses dois tucanos que tiveram que se render à dimensão do presidente da República, líder reconhecido e amado por cerca de oitenta por cento de seu povo e pela comunidade internacional.
Segundo a Folha Online, a oposição criticou a revista Time por ter escolhido Lula para encabeçar sua lista das cem personalidades mais influentes do mundo enquanto ficava dizendo para si mesma que a honraria não iria ajudar o presidente a influir ainda mais na própria sucessão do que já influi graças ao apoio esmagador que tem de seu povo e da comunidade internacional.
Para um bagrinho pefelê do clã Bornhausen, por exemplo, a Time teria “ficado louca” porque o presidente “não fez nada para merecer” a homenagem. Provavelmente, deve achar que subornou a revista. Mas não teve jeito. Tiveram que viver para serem obrigados a ficar de pé para aplaudir o estadista Luis Inácio Lula da Silva por ter tirado do chão o país que essa gente afundou.
domingo, 25 de abril de 2010
Cidadania
Como se tornar cidadão
Criei este blog em fevereiro de 2006, ano da última sucessão presidencial. Escolhi o nome “cidadania” para um blog de política porque pretendia estimular as pessoas a agirem como cidadãs através do meio mais legítimo e representativo que entendia – e que continuo entendendo – existir, que é fazendo escolhas políticas e lutando por elas.Justamente porque entendera que a afasia política do brasileiro estava na raiz de nosso subdesenvolvimento, pois finalmente me dera conta de que a aristocracia étnico-econômico-regional brasileira trabalhava duro, através de seus meios de comunicação, para afastar a sociedade da política para que as escolhas que cabiam a todos lhes fossem delegadas por omissão de uma maioria ignara.
Pouco me importa se alguém não acreditar: afirmo que criei este blog com a finalidade de dar bons exemplos de conduta como cidadão e como ser humano porque entendo que há fartura de maus exemplos sendo continuamente veiculados pelo que se convencionou chamar de “mídia”, raiz da idéia insensata que infesta esta sociedade de que “não adianta se importar com a política porque todos os políticos são iguais”.
Para ser compreendido, terei que lhes contar mais sobre a minha vida. Começando pela adolescência, que irrompeu durante a fase mais dura do regime militar. Então, eu pertencia a uma família abastada e centenária da capital paulista e, talvez por isso, tinha uma mentalidade da qual hoje me envergonho e a qual sinto que devo confessar.
Era um playboyzinho inconseqüente que só sabia torrar dinheiro e ridicularizar outros da minha idade que se envolveram com política e até tombaram por seus ideais. Gosto de acreditar, porém, que eu era assim devido a problemas familiares.
Meus avós terminaram de me criar porque meu pai se casou com a minha mãe para tentar dar um “golpe do baú”. Não obtendo sucesso, abandonou a família quando eu tinha cinco anos, enquanto que aquela que me pôs no mundo faleceu quando eu tinha onze.
Só fui começar a “acordar” para a vida porque torrei minha herança na farra e, como se não bastasse, casei–me muito cedo. Constituí família porque, como já não tinha mais família de origem além de minha avó, que já era uma anciã, queria construir uma família só minha, pois me sentia só no mundo. Desta maneira, eu e minha Cristina nos casamos sem que eu jamais tivesse trabalhado na vida, tendo, até então, só estudado.
Como se pode imaginar, comemos o pão que o diabo amassou. Eu era orgulhoso e não aceitava nada da família dela. Eu, que fui criado nos salões das elites paulistanas, que estudara nas melhores escolas da capital, tais como Dante Aligheri, São Luis e São Bento, agora, aos 22 anos, tinha ido viver em um cortiço com mulher e filha e trabalhava como estoquista, de macacão, em uma distribuidora de autopeças.
Talvez por isso eu tenha passado de filhinho de papai mimado e irresponsável a alguém que passou a perseguir a cidadania como quem caça um tesouro e que nunca mais soube o que era ser irresponsável, tendo constituído uma família maravilhosa, com mulher, quatro filhos, dois genros, uma neta e um cachorro.
Porém, nunca, nesta vida, fiquei desempregado. E nunca parei de estudar. Não tinha mais condições financeiras de prosseguir com os estudos, depois que me casei, porque ganhava nem dois salários mínimos e a minha mulher, que para poder trabalhar deixava a nossa filha primogênita – que ainda era um bebê – com a mãe, ganhava outro tanto.
Então passei a me auto-instruir. Pegava livros emprestados e os copiava na copiadora da empresa em que trabalhava. Todos os dias, ao fim do expediente, lia, avidamente – às vezes até tarde, antes de ir para casa – aquele exemplar do Estadão que os patrões jogavam fora.
Aliás, faço uma digressão para destacar que ler o Estadão era um costume de família que adotei aos 13 anos. Ou seja: quando eu era aquele “playboyzinho irresponsável”, meu “crime” era mais grave porque sabia o que acontecia no país, que era oprimido por uma ditadura. E, apesar de saber que o que estavam fazendo com o país era errado, achava que não me dizia respeito.
Mas eu sabia o que era ser cidadão. Comecei a ler pensadores ainda na infância. Minha mãe – mulher de grande cultura, socióloga, advogada e fluente em sete idiomas – me fez ler todos os mais importantes clássicos da literatura infanto-juvenil entre os seis e os sete anos – Conde de Monte Cristo, Moby Dick, A Ilha do Tesouro, As Viagens de Gulliver etc. Aos sete anos, eu desenhava histórias em quadrinhos de super-heróis, com legendas e enredo.
O resultado foi o de que dez anos depois eu era empresário. Lembro-me da primeira vez em que estive em Paris, depois de participar de uma feira do meu segmento (autopeças) em Frankfurt. Lá do alto da Torre Eiffel, contemplava a Cidade Luz e me espantava com a forma como conseguira mudar minha vida em uma única década: através do autodidatismo.
Contudo, por não ser “doutor”, achava que aquela gana por dar à sociedade o que eu negara na juventude jamais teria conseqüência, pois não tinha a formação formal necessária. Enfim, não podia fazer nada por um país que a ditadura tornara ainda mais injusto, egoísta e incivilizado, sendo, então, um dos mais desiguais do mundo.
Tudo começou a mudar a partir de 1989, quando passei a conhecer melhor aquele líder sindical que surgira havia alguns anos e que provocara efervescência social e um ímpeto libertário no país com as greves que desencadeou e comandou no ABC paulista.
Até o segundo turno da primeira eleição presidencial depois de duas décadas de ditadura, porém, deixara-me engabelar por essa imprensa que está aí. Tinha uma mentalidade muito mais conservadora, formatada por aquele vírus de conformismo que jornais, revistas, tevês e rádios disseminavam.
Julgava Lula um “radical”. Contudo, quando Fernando Collor de Mello surgiu no cenário e ameaçou se eleger, trazendo consigo as forças políticas que haviam compactuado com os ditadores, e quando vi o meu jornal e o resto da imprensa compactuarem com aquilo, percebi que ser radical era bom, num país como o Brasil.
Votei em Lula em 1989, então, e nunca mais parei. Até que ele se elegesse presidente, porém, achava que, por não ter títulos, eu jamais seria ouvido ou levado a sério, apesar de saber muito bem o que se passava no país.
Mas tudo mudou com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Foi-me uma inspiração. Um homem que tivera uma vida muito mais dura do que a minha, que superara barreiras – sobretudo de preconceito, a maior barreira de todas – que eu, apesar de tudo que sofrera, nem sequer podia imaginar, tornara-se o primeiro mandatário da República.
Lula me fez acreditar que um homem comum, que qualquer cidadão, mesmo sem títulos, sem maiores credenciais, pode, sim, mudar os rumos da nação. É por isso, portanto, que criei este blog. É por isso que acredito que posso ajudar a mudar a realidade brasileira, que posso influir em qualquer coisa tanto quanto qualquer um de vocês que me lêem. E é por isso que escrevi este texto.
Qualquer um pode fazer o que tenho feito com outros que pensam como eu, pois vimos fazendo apenas com idéias na cabeça e teclados de computador nas mãos. Se mais brasileiros se tornarem cidadãos, elite nenhuma, nem com todas os seus jornais, tevês, rádios e portais de internet poderá impedir que este país se torne justo para todos.
Este texto pretende mostrar que qualquer um pode se tornar cidadão porque todos têm os meios. Seja com blogs, seja difundindo cidadania, bons exemplos de solidariedade e de humanismo. Jamais se acomodando e dizendo sim quando é imperativo dizer não, jamais cedendo a esse vírus comodista com que as elites infectaram a nação.
Escrito por Eduardo Guimarães às 13h16 do dia 25 de abril de 2010.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
ESTALEIROS DO RIO ESTÃO CHEIOS DE PEDIDOS
Só não enxerga quem não quer, ou é fanático demais para analisar os fatos de forma clara e racional.
Quando o presidente Lula assumiu o governo, os estaleiros do Rio de Janeiro estavam praticamente parados. Milhares de trabalhadores haviam perdido seus empregos e não havia sinais no horizonte de que isso fosse melhorar. As plataformas P-51 e P-52 seriam construídas no exterior.
O discurso do presidente Lula, em Itajaí, em 2003, é o primeiro ato efetivo de que as coisas estavam começando a mudar.
Discurso do Presidente Lula: lançamento do Navio N/T Metaltanque VI
Itajaí - SC, 24 de julho de 2003
Meu caro Luiz Henrique da Silveira, governador do estado de Santa Catarina e sua esposa Ivete Appel da Silveira. Minha queria companheira Marisa. Meu caro Frank Wlasek, presidente do Grupo Metalnave. Meu caro companheiro Fritsch, secretário especial da Pesca. Meu caro Ronei Morastoni, presidente da Assembléia Legislativa. Minha cara senadora. Meu caro senador. Deputados. Prefeitos. Trabalhadores, e, para minha agradável surpresa, mulheres soldadoras do estaleiro. Empresários que participam deste maravilhoso evento.
Na verdade, nenhum de nós precisaria fazer discurso. Era só ficar, durante alguns segundos, contemplando este navio para nos darmos conta do potencial e da competência que o nosso país tem e que, portanto, não deveria estar na situação em que está.
É uma grande satisfação estar na cidade de Itajaí - mais importante porto pesqueiro do país - para o lançamento de um navio de bandeira verde-amarela. Quando um casco brasileiro sai da terra e desce ao mar, como nesta cerimônia, uma fatia importante da engrenagem produtiva nacional se movimenta com ele. Na verdade, começa a navegar até muito antes.
A construção de um navio é uma gigantesca operação econômica. É quase como pôr em funcionamento uma nova fábrica. A encomenda de uma embarcação agita as águas do emprego, acelera o desenvolvimento tecnológico e fortalece a engenharia local.
Mais do que isso. Quando um navio nacional corta os mares ou opera na cabotagem brasileira, ele substitui barcos estrangeiros fretados para o transporte de nossas mercadorias e diminui, e muito, a vulnerabilidade externa.
O Brasil gasta 5 bilhões e 800 milhões de dólares anuais em fretamentos internacionais. Apenas 3,8% desse total são conduzidos sob bandeira nacional. Se retirarmos daí os navios da Petrobrás, o índice de transporte próprio cai a menos de 2% do total do transporte marítimo. Essa proporção já foi de 30% nos anos 70.
Houve, portanto, um deslocamento brutal de carga para bandeiras estrangeiras que levou, junto, milhares de empregos subtraídos da economia nacional. Não é pouco o que se perde nessa baldeação. A cada vaga aberta num estaleiro pode se gerar quatro outros empregos indiretos. Cada dólar empregado na marinha mercante acrescenta 3 dólares e 80 centavos à roda da economia.
Em meados dos anos 70 existiam 40 mil empregos na indústria naval. Um longo hiato se abriu desde então, com progressivo abandono do planejamento e do investimento em setores estratégicos. Hoje, o nível de emprego nos estaleiros resume-se a 12 mil vagas.
A abertura do mercado à concorrência externa é saudável, desde que permita expandir a base produtiva do país, introduzindo ganhos de escala que reduzam nossos custos e elevem nossa competitividade.
A destruição da estrutura econômica nacional, porém, não pode ser confundida com eficiência. Ela gera perdas tão ou mais explosivas que o protecionismo cego - e não apenas na esfera financeira, mas principalmente na delicada contabilidade social.
A embarcação de que a minha esposa será madrinha e que estamos batizando aqui era o único navio - notem bem - o único navio de longo curso em construção, em todo o país, neste momento.
Não dá para confundir isso com desenvolvimento. Tampouco com modernidade. Mas esse quadro pode e vai mudar. O que estamos vendo neste estaleiro é a prova concreta de que é viável manter, no país, os recursos e os empregos que mandamos para fora.
Lembro-me que durante a campanha de 2002 dizia-se que o Brasil não teria condições de competir na construção de plataformas marítimas de petróleo. E, hoje, está provado que é possível e vantajoso.
Eu quero lembrar a grande celeuma criada pela imprensa nacional na campanha de 2002, quando, visitando os estaleiros no Rio de Janeiro, assumimos o compromisso de que não era possível o Brasil mandar a P-51 e a P-52 para serem construídas em outro país. Alguns logo inventaram que estávamos quebrando contratos - e nem contrato existia, porque não tinha nem havido concorrência ainda. Outros diziam que os nossos estaleiros e a nossa indústria naval não estavam preparados para produzir plataformas.
Fizemos, governador, algumas reuniões. Reuniões com engenheiros especialistas da Petrobrás, reuniões com praticamente toda a indústria naval brasileira, com todos os especialistas. E ficou provado que a indústria naval brasileira tinha condições de fazer as plataformas aqui, no Brasil.
E, hoje, eu posso vir aqui, nesta Itajaí, em que surgiu a idéia de se criar o Ministério da Pesca - foi aqui, num seminário dos pescadores, que me convenceram da importância de se criar uma Secretaria Nacional da Pesca - nesta Itajaí eu posso dizer, meu caro governador, meu caro Frank, pelo menos 65% de toda a plataforma da P-51 e da P-52 serão construídos nos estaleiros brasileiros, aqui, no nosso país. E outras plataformas - já não serão mais nem 65%, mas 75% ou mais - serão construídas aqui, no Brasil.
Recentemente, eu almocei com o primeiro-ministro da Noruega e fiquei muito feliz quando ele me disse: "presidente Lula, um estaleiro da Noruega acaba de comprar um estaleiro no Rio de Janeiro e vamos vir aqui, no Brasil, competir para produzir as plataformas". É isso que nós queremos e era isso que nós queríamos: que fossem produzidas aqui, independentemente de ser empresa nacional ou empresa estrangeira. O que importa é que gere trabalho e renda para os milhões de brasileiros que precisam de trabalho e renda neste país. E isso nós já conseguimos.
Mas para que isso aconteça, é preciso ter um governo comprometido de fato com os interesses do nosso país. É necessário financiamento público. São indispensáveis, sobretudo, vontade e disposição política. Vontade e determinação que demonstrei, ao assegurar a liberação de 1 bilhão e 500 milhões de reais para a renovação da frota pesqueira brasileira. Esses recursos serão destinados tanto ao pequeno pescador artesanal quanto aos empreendimentos da pesca oceânica.
Na verdade, se fôssemos reduzir a agenda de uma nação a fatalismos, o Brasil ainda seria um imenso canavial. Jamais teria montado sua indústria. Não teria implantado o seu parque siderúrgico nacional - que hoje se destaca no mercado mundial, gerando empregos e receitas.
Vamos devolver à bandeira verde-amarela uma parte importante do frete mercantil. Só a renovação da frota da Petrobrás, por exemplo, vai exigir nos próximos anos a construção de várias embarcações de grande porte. Ouçam bem: pelo menos 12 embarcações serão compradas pela Petrobrás até o ano de 2007.
O avanço da prospecção em águas profundas demandará mais plataformas, barcos de apoio e grandes navios de transporte de óleo para cabotagem e longo curso. É uma oportunidade ímpar para que os estaleiros se capitalizem e consigam reverter o declínio observado nas últimas décadas.
O Fundo da Marinha Mercante e o BNDES têm recursos para apoiar esse processo através de novas parcerias entre o Estado e a iniciativa privada. Significa dizer que o investimento público não ficará congelado neste governo. A infra-estrutura nacional não será comprometida. O "apagão" que aconteceu com o setor elétrico não se repetirá.
Não dispor de uma frota condizente - e não construir navios - é um paradoxo inaceitável num país com mais de 10 mil quilômetros de vias navegáveis, somando-se a costa marítima e as águas internas. Esse desperdício não serve a ninguém. É fruto de uma lógica financeira tão estreita que dentro dela não cabe uma nação - não cabem seus anseios, suas potencialidades, seu povo e seus parceiros internacionais.
A verdade é que certos critérios de contingenciamento recomendados por organismos internacionais inviabilizam a própria consistência macroeconômica que tanto se persegue.
Por isso, vamos percorrer novos rumos em estreita parceria entre o Estado e a iniciativa privada. Vamos expandir nossa base produtiva, viabilizar um novo ciclo de crescimento sustentável e gerar os empregos de que o país tanto precisa.
Que esse batismo no estaleiro Itajaí simbolize o bom augúrio de uma nova etapa de desenvolvimento para o nosso parque naval - e para a qual o setor público não se omitirá.
Navegar é preciso e nós vamos continuar a fazê-lo na direção certa: a direção de um Brasil mais justo e generoso, de um Brasil solidário, de um Brasil com crescimento econômico e de um Brasil que gere empregos e renda para toda a nossa gente.
Muito obrigado.
Agora vejamos o que diz o jornal Valor Econômico, no dia 01/04/2010:
Clique o mouse sobre a figura abaixo, para ter uma melhor visualização.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
A China foi nosso principal parceiro econômico em 2009
Com a consolidação dos números do ano, a corrente de comércio (soma das exportações e importações) Brasil-China aumentou de US$ US$ 35,8 bilhões para US$ US$ 36,1 bilhões. Os números com os Estados Unidos permaneceram inalterados, em US$ 35,9 bilhões.
Os ajustes ocorreram em função da depuração de informações relativas a registros de exportação e importação e não alteram os resultados globais da balança comercial, já divulgados.
Intercâmbio
Os dados do intercâmbio comercial brasileiro, por país e por bloco econômico, foram disponibilizados hoje (14/1) no site do MDIC e também no sistema de análise das informações de comércio exterior via internet (Aliceweb), no link http://aliceweb.desenvolvimento.gov.br/.
Clique o mouse sobre a figura para visualizá-la em tamanho maior.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
A TERRÍVEL HERANÇA NEOLIBERAL
Tributação desigual e miséria, saldos da hegemonia neoliberal
Sistemas tributários favoráveis aos ricos são herança da fase de hegemonia neoliberal no mundo, consolidada a partir do final dos anos 1970. Houve ampliação do fosso entre ricos e pobres e aumentou a miséria e a fome no mundo, em pleno século XXI, quando a humanidade dispõe de meios técnicos e recursos para erradicá-las definitivamente. É o mundo do "capitalismo puro", forjado pelo neoliberalismo em ação. O artigo é de Hideyo Saito.
Hideyo Saito
Apesar de aplaudir os avanços no combate à pobreza e à fome no Brasil desde o início do governo Lula, em 2002, recente relatório da ONU apontou para a necessidade de um sistema tributário progressivo, para que o país possa se livrar dessas mazelas de forma definitiva. O diagnóstico foi elaborado pelo relator especial das Nações Unidas contra a Fome, Olivier De Schutter, que se declarou impressionado pelo grau de compromisso e pela diversidade dos esforços realizados para melhorar a situação. Mas o fulcro da questão, segundo analisou, é que os problemas sociais brasileiros estão sendo enfrentados com recursos obtidos principalmente das camadas mais pobres da sociedade, justamente por causa da tributação desigual.
De acordo com a visão expressa no relatório da ONU, uma reforma tributária progressista é tão imprescindível quanto outras transformações estruturais que incidem sobre a concentração da riqueza e da terra no país. Citando dados do próprio governo, lembra que famílias com receita até dois salários mínimos pagam aproximadamente 46% a título de impostos indiretos (isto é, embutidos nos preços de bens e de alguns serviços), enquanto as que têm renda superior a 30 salários mínimos arcam com apenas 16%. Apesar da vergonhosa concentração da terra agricultável – apenas 47 mil grandes propriedades ocupam 43% de todo o espaço disponível, enquanto 2,4 milhões ficam com apenas 2,5% - o Imposto Territorial Rural arrecada apenas 0,01% do PIB. "O sistema tributário regressivo limita seriamente o impacto redistributivo desses programas [sociais]”, sublinha o relatório da ONU.
A desigualdade tributária em favor dos ricos é um dos saldos da fase de hegemonia neoliberal no mundo, imposta a partir do final dos anos 1970. Não é casual que os próceres dessa corrente, como entre nós o ex-ministro e ex-senador Roberto Campos, por exemplo, pregaram incansavelmente contra a tributação da renda e do capital. O país só poderia crescer se conseguisse atrair capital, oferecendo-lhe mais vantagens numa competição sem quartel com outros países subdesenvolvidos. Seguindo essa política de leilão ao contrário, o governo FHC derrubou tributos para investimento estrangeiro na bolsa de valores, eliminou quaisquer diferenças no tratamento dado ao capital externo, em relação ao capital nacional, e congelou a aprovação do Imposto sobre Grandes Fortunas, que ele mesmo havia proposto quando senador. É verdade que nessa gestão a carga tributária teve enorme crescimento, mas sempre reforçando unicamente os tributos indiretos. Trata-se de assunto pouco grato à mídia oligopólica, mas que se torna cada vez mais visível como fator fundamental para que, naquele período de “pensamento único”, aumentasse a brecha entre países ricos e países pobres, bem como a desigualdade social dentro de cada um. Exatamente ao contrário do que prometia a cartilha do fundamentalismo de mercado.
Como a tributação regressiva minou as finanças gregas
De fato, um aspecto dos mais relevantes (e mais ignorados) da crise de dívida pública da Grécia é que seu sistema tributário é bastante regressivo e que, além disso, a sonegação dos setores mais abastados é muito elevada, como mostraram artigos recentes do Le Monde Diplomatique. Segundo o ministério das Finanças, em 2008 os profissionais liberais gregos declararam ao fisco uma renda anual média de pouco mais de € 10 mil, enquanto empresários e comerciantes admitiram receita de € 13 mil. Em contraste, os trabalhadores e aposentados informaram recebimento de € 16 mil. A evasão fiscal provoca um rombo de € 20 bilhões anuais na receita pública, sem considerar a renúncia fiscal representada pela regressividade do sistema (1). O resultado é que, para financiar suas atividades, o Estado é obrigado a apelar para que credores privados adquiram títulos do tesouro. Ora, os que vêm a ser credores são justamente os cidadãos das classes mais abastadas, que cobram juro para emprestar ao governo o dinheiro que este deixou de recolher por causa da sonegação e de um sistema tributário exageradamente benevolente em relação ao rico!
Esses mesmos setores dominantes, não satisfeitos, empenham agora seu poder em impor ao governo do Pasok (movimento socialista pan-helênico) a adoção de um pacote de ajuste fiscal ao gosto do neoliberalismo, com redução de salários do funcionalismo e de aposentadorias e pensões, além de cortes drásticos em políticas sociais e nos investimentos públicos. Tudo isso certamente agravará a recessão e a situação dos trabalhadores do setor privado, que já sofrem um desemprego da ordem de 10,6% (índice oficial) ou 18%, conforme outras fontes. Evidentemente, eles se contrapõem ao aumento da tributação direta sobre a renda, o patrimônio e a herança, que seria parte de um programa “natural” de solução, conforme preconizam os economistas franceses Laurent Cordonnier e Frédéric Lordon. Para o primeiro, isso “equivaleria a suprimir essa espécie de direito censitário da era neoliberal, que consiste em deixar às classes mais abastadas a livre escolha de como aplicar o excedente de ganhos não consumíveis: destinar esses fundos ao pagamento de impostos ou aplicá-los no mercado financeiro, para financiar a dívida pública”. Segundo Cordonnier, a elevação da carga tributária para os mais ricos seria como exigir deles o pagamento de impostos atrasados, de que ficaram livres há pelo menos 20 anos, período em que ainda receberam juros do governo sobre o dinheiro assim poupado (2).
Maior fosso entre ricos e pobres da história dos EUA
Outra manifestação no mesmo sentido teve como pano de fundo a realidade dos Estados Unidos, onde os números também indicam a existência de regressividade tributária. Segundo o jornalista Les Leopold, do Huffington Post, a carga marginal de impostos incidente sobre rendimentos a partir de US$ 3 milhões anuais caiu de 91% nos anos 1950 para apenas 28% nos 90 (3). Max Castro, do Progreso Semanal, menciona números recém divulgados pelo Internal Revenue Service (a Receita Federal dos EUA), segundo os quais os 400 estadunidenses mais ricos, que tiveram receita média de US$ 345 milhões em 2007, pagaram apenas 16,6% de impostos. Foi a tributação real mais baixa desde 1962. Em conseqüência, a receita desses bilionários aumentou 31% naquele ano, em comparação com 2006 (4). Leopold acrescenta que os altos executivos do setor financeiro receberam aproximadamente US$ 150 bilhões em bônus, “como se fossem uma recompensa por quebrarem a economia”. Em 1970, a diferença de ganho de 100 presidentes (CEOs) de grandes corporações em relação ao trabalhador médio foi de 45 para um. Em 2008 havia subido para 1.071 para um. “O fosso entre ricos e pobres é maior hoje do que em qualquer momento da história dos EUA”, assegura o jornalista.
Os sucessivos cortes de impostos desde o final da década de 1970 foram apresentados como indispensáveis para que houvesse mais investimentos produtivos, mais empregos e mais prosperidade no país. Mas a renúncia fiscal – sublinha o jornalista – transformou-se em especulação em Wall Street, gerando sucessivas “bolhas” financeiras. Os ganhos do setor financeiro, que correspondiam a cerca de 15% do total dos lucros gerados na economia dos EUA em 1960, passaram a representar quase 40% em 2008 (antes do desastre). Em resumo, “o setor financeiro quebrou [e quebrou o país] como resultado direto da redução de impostos para os super-ricos e a desregulamentação de Wall Street”, denuncia. Agora, trata-se de fazer o trajeto contrário, não apenas impondo uma regulação do setor financeiro de interesse da sociedade, mas também um sistema progressivo de tributos, que seja capaz de promover uma redistribuição da renda e da riqueza.
Panorama semelhante é traçado pelo jornalista do The Wall Street Journal, Robert Frank, em um livro que conta como vivem os multimilionários estadunidenses, cujo número cresceu exponencialmente a partir dos anos 1990. Ele diz que a política tributária teve papel importante nesse boom, ao se tornar cada vez mais favorável aos ricos. “A alíquota máxima do imposto de renda federal caiu de 91% em 1963 para 35% em 2007. A taxa máxima do imposto sobre ganhos de capital de longo prazo – lucros com ações, títulos e outros direitos financeiros – caiu de 20 para 15% nos últimos cinco anos. Atualmente, o imposto máximo sobre a maior parte dos dividendos é de 15%, quando em 2002 era de 38,6%”, escreve. De acordo com Frank, o Centro de Política Tributária do já mencionado IRS calcula que 80% da renúncia fiscal do governo Busch beneficiou os 10% mais ricos da população, sendo que quase um quinto foi colhido por um décimo do 1%, que constitui o universo dos multimilionários (5).
Apesar de tão clara situação, qualquer política redistributiva continua a ser um anátema nos Estados Unidos. Leopold lembra que o assuntou rendeu muitas críticas a Barack Obama durante a campanha eleitoral, quando foi acusado de querer “punir o sucesso”, ao defender um sistema tributário progressivo. Da mesma forma, a recente reforma do setor da saúde rendeu uma fortíssima campanha contra Obama, que chegou a ser acusado de querer arrastar o país ao comunismo, porque, entre outras coisas, aumentou em 0,09% o imposto de contribuintes com renda superior a US$ 250 mil para financiar o Medicare (assistência médica) (6). Enquanto isso, um grupo de trabalho criado pelo governo dos Estados Unidos para estudar uma estratégia de segurança nacional para o país, conhecido como “Seminar 11”, concluiu que o ponto mais vulnerável do país é a economia, que está caminhando para o desastre. Seu relatório, divulgado em março último, considerou alarmantes o déficit público próximo de US$ 1 trilhão e a perspectiva de que a dívida pública mais que dobre até 2020. Mesmo assim, as recomendações do grupo incluem, sobretudo, corte de benefícios sociais, especialmente os ligados à previdência e ao Medicare.
A outra face da moeda: aumenta a fome no mundo
Ampliando o foco, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), assumidos no ano 2000 pelos países-membros da ONU para reduzir a pobreza extrema e a fome no mundo até 2015, estão prestes a fracassar, segundo reconheceu o informe apresentado à Assembléia-Geral da organização pelo secretário-geral, Ban Ki-Moon. O documento diz que a pobreza extrema (pessoa que vive com menos de um dólar por dia) caiu de 1,8 bilhão de vítimas em 1990, para 1,4 bilhão em 2005, mas a maior parte da redução se registrou na China. Quando se desconsidera esse país, a pobreza extrema no mundo aumentou, com o aparecimento de 36 milhões de novos miseráveis no mesmo período. O número de pessoas que passam fome cresceu de 842 milhões em 1990 para 1,02 bilhão em 2009, resultado, em boa parte, da alta dos preços dos alimentos nos últimos três anos e da crise financeira e econômica do capitalismo (7). Desses, 642 milhões vivem na Ásia e no Pacífico; 256 milhões na África subsaariana; 53 milhões na América Latina e no Caribe; 42 milhões no Oriente Médio e norte da África; e 15 milhões nos países ricos (8).
Um estudo produzido por especialistas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e do Programa Mundial de Alimentação (PMA), também da ONU, mostra que a fome se expandiu de forma significativa entre 2004 e 2007. Nada menos que 31 países e 195 milhões de crianças padecem de fome crônica. A perspectiva é de piora desse cenário catastrófico, com novas quedas de safras e consequente aumento de preços no mercado internacional, como resultado do aquecimento global. As classes dominantes mundiais continuam insensíveis ao assunto, como mostra a ausência de representantes graduados do G8 e dos demais países desenvolvidos na Reunião sobre Segurança Alimentar, realizada em Roma de 16 a 18 de novembro último. Estiveram presentes cerca de 60 chefes de estado de países do terceiro mundo (9). No final do encontro foi divulgado um melancólico comunicado que manifesta o compromisso dos governos de lutar para que não aumente o número de famintos e de miseráveis no mundo.
Dois dias antes da reunião, antevendo seu fracasso, o diretor geral da FAO, Jacques Diouf, começou um jejum para alertar para a urgência de se adotar medidas “para dar um fim à vergonha da fome”, mais intolerável do que nunca, porque a humanidade conta com meios técnicos e com recursos para eliminá-la definitivamente. Por fim, uma pesquisa efetuada em 2009 por especialistas das universidades de Stanford e de Washington sustenta que, sem uma sistemática redistribuição dos resultados econômicos, o final do século XXI verá a metade da população mundial sofrendo os efeitos da crise alimentar, que será agravada por problemas resultantes do efeito do aquecimento global sobre as regiões tropicais e subtropicais do mundo (10).
Um último lembrete cabível é que o mundo que não consegue acabar com a fome, ou sequer reduzi-la de forma consistente em pleno século XXI, é o mundo do "capitalismo puro", forjado pelo neoliberalismo.
(*) Hideyo Saito é jornalista
(1) Niels Kadritzke. A Grécia é a bola da vez. Le Monde Diplomatique Brasil, março/2010.
(2) Laurent Cordonnier. Banco Central Europeu – Rumo à falência. Le Monde Diplomatique Brasil, março/2010; Frédéric Lordon. A urgência do contrachoque. Le Monde Diplomatique, março/2010.
(3) Les Leopold. Por que estamos com medo de taxar os super-ricos? Huffington Post, 12/03/2010. http://www.huffingtonpost.com/les-leopold/why-are-we-afraid-to-tax_b_496302.html
(4) Max J. Castro. Debemos retornar de la plutocracia a la democracia. Progreso Semanal, 24/02/2010. http://progreso-semanal.com/4/index.php?option=com_content&view=article&id=1939:debemos-retornar-de-la-plutocracia-a-la-democracia&catid=4:en-cuba&Itemid=3.
(5) Robert Frank. Riquistão. Tradução Alessandra Mussi. Manole: Barueri (SP), 2008, pp. 42-43.
(6) Walter Pincus (The Washington Post). Segurança dos EUA começa na economia. O Estado de S. Paulo, 14/04/2010.
(7) Víctor M. Carriba (Prensa Latina).Objetivos del Milenio: el fracaso. Contralínea, 04/04/2010. http://contralinea.info/archivo-revista/index.php/2010/04/04/objetivos-del-milenio-el-fracaso/.
(8) Katia Monteagudo (Prensa Latina). Un mundo de hambre. Contralínea, 28/03/2010. http://contralinea.info/archivo-revista/index.php/2010/03/28/un-mundo-de-hambre/.
(9) Ernesto Montero Acuña (Prensa Latina). Alarma por el hambre. Contralínea, 13/12/2009. http://contralinea.info/archivo-revista/index.php/2009/12/13/alarma-por-el-hambre/.
(10) Ernesto Montero Acuña (Prensa Latina). Siglo de explosión demográfica y hambruna mundial. Contralínea, 21/02/2010.
sexta-feira, 16 de abril de 2010

Aconteceu rapidamente......
Eu entrei no metrô e ela estava em pé, próxima à porta, lendo mensagens no celular. Rosto fino, bonito, cabelos crespos, compridos, tingidos de vermelho e presos em rabo de cavalo. Corpo perfeito, de bermuda, pernas bem torneadas, pés nem muito grandes nem muito pequenos, proporcionais, uma blusa curta, deixando antever uma pequena parte de uma barriguinha na medida certa....e a essa altura da minha rápida avaliação, em apenas duas passadas de olhos, comecei a sentir o efeito da sua presença. Senti-me como uma agulha de bússula apontando loucamente para um imã colocado perto. É automático e inevitável, embora algumas mulheres acreditem que não, é como uma mosca capturada na teia de uma aranha. Comecei a ter uma sensação muito boa e ao mesmo tempo dolorosa, embora sem dor. Uma pressão no peito, uma vontade......e a cada olhada que eu dava essa sensação aumentava e não me deixava pensar em mais nada. A quantida de feromônios que exalavam dela devia ser inexoravelmente intensa. Depois, chegou o momento de descer e foi como se um campo magnético tentasse me manter ali, ficar eternamente ali.
Mas, como nada dura para sempre e a vida continua, eu desci e, aos poucos, a sensação foi se acalmando. E, enquanto andava, dei asas ao meu pensamento . Havia sido submetido a uma das mais fortes leis da natureza: o instinto de preservação da espécie. Essa atração sexual intensa era a grande arma para manter a espécie humana viva na face da Terra, uma força impressionante. Foi bom, muito bom.... E se ela se interessasse por mim? Seria paixão à primeira vista, uma loucura cujo risco, para pessoas sentimentais como eu, seria enorme. Eu me envolveria total e irremediavelmente, até que se esgotasse toda a energia, todo o fascínio. É assim que muitos se enganam e não percebem que estão sendo vítimas de uma armadilha da natureza. Acreditam terem sido ungidos pelo verdadeiro e eterno amor, a paixão, e depois, quando o desejo foi saciado, a novidade vira rotina, a atração quase não existe mais e é dificil entender porquê tudo mudou. Niguém é culpado de nada, é apenas um jogo da natureza no qual somos meros figurantes. Como diz o velho ditado, o melhor é relaxar e gozar. Como dizia Vinicius, "..que seja bom enquanto dure...". Não que eu não acredite no amor mas, sei que não é dessa forma que ele pode durar. O que me aconteceu foi puro instinto animal, não houve qualquer vestígio de razão. Eu acredito no amor sim, mas de outra forma. E como já passei por algumas experiências, acredito ter encontrado a fórmula certa para alcançá-lo, se é que isso é possível. É importante que haja um interesse mútuo original, um misto de atração física com identificação emocional. Uma admiração de um pelo outro, um respeito mútuo, uma aceitação dos espaços, dos gostos, como uma dança ritual, em que cada um avalia o outro. É necessário que um certo mistério se mantenha, que cada um tenha o direito de conservar uma parte do seu mundo só para si e que reserve a outra parte para compartilhar.
Isso provocará um aumento na intensidade do sentimento de os une. Mas atenção: nada de ir com muita sede ao pote, querer usufruir de tudo até o limite máximo, porquê isso poderá causar um desgaste exagerado e com isso, o fim. É preciso saber dosar, usar aquela paciência que era ensinada por Confúcio. Saborear cada momento, cada beijo, cada pedacinho de pele acariciada, sentir a energia que é trocada no contato entre os corpos, não ter pressa, compartilhar cada por do sol, cada manhã radiante, cada alegria, cada tristeza, enfim, viver cada momento como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. Talvez não seja fácil de conseguir, talvez nem seja possível, mas vale a pena tentar.
terça-feira, 13 de abril de 2010
CULTURA
Do site da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, transcrevo abaixo um artigo excelente, abordando o cinema de Hollywood nos anos 80. O artigo é uma colaboração de Ricardo Cota para o site Cultura.RJ
Hollywood dos anos 80: O futuro repete o passado
Para o crítico de cinema e Subsecretário de Comunicação Social, Ricardo Cota, a década de 80 foi marcada pela reciclagem de gêneros cinematográficos.
É possível definir o cinema dos anos 80 em um termo? Sim. Pós-modernismo. A década destacou-se pela reciclagem de gêneros cinematográficos conhecidos promovendo a releitura inventiva que consagrou definitivamente nomes como Martin Scorsese, Steven Spielberg, George Lucas, Brian de Palma, Lawrence Kasdan e Francis Ford Coppola, entre muitos outros.
A ficção-científica foi o gênero mais cultuado e ganhou status pop graças a filmes que se tornaram paradigmas, como as sequências de Guerra nas Estrelas, O Império Contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983), um passo então inédito em termos de efeitos especiais, e sobretudo Blade Runner, de Ridley Scott. Este filme, estrelado pelo ator-ícone do período, Harrison Ford, é a obra-prima pós-moderna.
Em um original ambiente futurista, em que tecnologia e massificação se sobrepõem, Ridley Scott, a partir do romance de Philip K. Dick, recicla os estereótipos do filme noir num thriller eletrizante que mostra ser possível filosofar em filme de ação. É, sem dúvida, o maior clássico da década, um filme obrigatório.
Os anos 80 também consagraram as sagas. Além de Guerra nas Estrelas, outras trilogias marcaram época, como Indiana Jones e De Volta para o Futuro, por sinal um título que expressa bem o clima dos 80. Spielberg merece um capítulo à parte. Além de reciclar os antigos seriados das matinês com Os Caçadores da Arca Perdida (1981), Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984) e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), dirigiu outro clássico da década, um filme absolutamente encantador, que impulsionou uma série hoje comum de filmes infantis feitos para encantar os marmanjos. Bom, só quem foi abduzido nos 80 não viu E.T. - O Extra-Terrestre (1982) e o seu revés em forma de sátira Gremlins (1984), dirigido por Joe Dante e roteirizado por Chris Columbus, que em 1986 dirigiria o divertido Os Goonies.
Outros gêneros passaram pelo processo de reciclagem pós-modernista. Coppola voltou-se para para a rebeldia sem causa, típica dos anos 50 e 60, e promoveu ao estrelato uma geração inteira em Outsiders - Vidas sem Rumo (1983). Só para lembrar: Matt Dillon, Ralph Macchio, Patrick Swayze, Rob Lowe, Emilio Estevez e Tom Cruise. Coppola viajaria ainda literalmente no tempo no delicioso Peggy Sue - Seu Passado a Espera (1986), seu filme mais leve, que se encaixa na linha "de volta para o futuro". Brian De Palma aprofundou seu mergulho hitchcockiano em Vestida Para Matar (1980) e Dublê de Corpo (1984), mas marcou ponto mesmo com a reinvenção do filme de gangster Os Intocáveis (1987), seu filme mais ambicioso.
Lawrence Kasdan também buscou reinventar gêneros como o western, em Silverado (1985), mas fora melhor sucedido alguns anos antes quanto botou William Hurt e Kathleen Turner para suar em Corpos Ardentes (1981), sem dúvida a mais inventiva reciclagem do noir, inserindo-se hoje como um dos clássicos do gênero. Kasdam é autor de um filme original, que fez história nos 80 e calou fundo nos espectadores da época: O Reencontro (1983).
Mas em termos de reciclagem, nenhum chegou perto do originalíssimo Robocop (1987), dirigido por Paul Verhoeven. Aqui o liquidificador tritura ficção-cientícia, quadrinhos e história policial numa narrativa eletrizante que acompanha o processo de desumanização do policial Alex Murphy, transformado num complexo homem-máquina, uma espécie de caveirão ambulante que elimina vilões sem piedade e muito menos sentimento de culpa. O filme é uma abordagem corajosa da violência e de seus efeitos sobre a sociedade. Tudo em clima pop, sem maiores delongas.
A onda hoje sedimentada de projetos inspirados em histórias em quadrinhos foi promovida na década, com destaque para Superman, cuja tetralogia teve três de seus filmes rodados em 80 - Superman II - A Aventura Continua (1980), Superman III (1983) e Superman IV - Em Busca da Paz (1987) - e, é claro, o Batman (1989), de Tim Burton, hoje uma franquia para lá de consolidada.
Mas enquanto o triturador pós-modernista passava o rodo nas bilheterias, um diretor, bem original, dedicou-se a radiografar a época com um olhar próprio, sem o filtro dos gêneros reciclados. Seu nome: John Hughes. Nada mais anos 80 do que o escapista, e hoje elevado a cult, Curtindo a Vida Adoidado (1986). Em seus filmes, a adolescência oitentista ganha um brilho especial, uma vivacidade irresistível, sendo tratada com inteligência e respeito, bem diferente dos infantilizados moleques da franquia American Pie. Além de Curtindo a Vida Adoidado, Hughes, morto precocemente no ano passado, deixou o adorável A Garota de Rosa Shocking (1986), promovendo Molly Ringwald a namoradinha da América.
Adrian Lyne, diretor que costuma provocar arrepio nos críticos, foi o responsável pelas imagens mais fortes dos 80. As cambalhotas de Jenifer Beals no musical Flashdance (1983), os jogos sensuais à luz de uma geladeira de 9 e 1/2 Semanas de Amor (1986), com o então galã Mickey Rourke, e a corrida de faca em punho da psicótica Glenn Close no thriller adúltero Atração Fatal (1987) são inesquecíveis. Egresso da publicidade, Lyne pode não ser um grande realizador, mas soube como ninguém impactar e provocar polêmica na década.
Dois brucutus também marcaram presença decisiva na década: Stallone e Schwarzeneger. O primeiro protagonizou três sequências pavorosas da franquia Rocky Balboa e inventou um dos mais odiosos promotores da guerra: Rambo, visto em três filmes. Já Schwarznegger, bem antes de trocar os pés pelas mãos na política, seguiu um caminho mais original, apostando em roteiros inteligentes, como o do inventivo O Exterminador do Futuro (1984), que mais tarde também viraria franquia. Hasta la vista, baby é 80 em estado bruto.
O gênero horror lançou duas franquias de sucesso. Sexta-Feira 13 teve oito partes filmadas nos anos 80. Mais interessante, mas não menos apelativo, o drama dos insones de A Hora do Pesadelo teve 5 sequências. Goste-se ou não, Freddy Krueger e Jason Voorhees fazem parte do escrete hollywoodiano da década. Acompanha-os a menininha mediúnica da menos bem-sucedida franquia Poltergeist - O Fenômeno (1982), com duas sequências, e o insuperável Chucky, de Brinquedo Assassino (1988).
Assim foram os anos 80. De um lado o doce e perseguido ET, do outro o frenético e persecutor Chucky. E, no meio dessa esquizofrenia toda, a gente.
Brasil Bye Bye Embrafilme
Em pleno processo de abertura, lenta e gradual, o cinema brasileiro viveu uma de suas décadas mais difíceis. Pode-se dizer que os anos 80 acompanharam a agonia e morte da Embrafilme, que sofreria a estocada final no início dos 90 com a canetada oficial do Presidente Collor, que extinguiu a estatal. Embora fosse alvo de críticas da classe cinematográfica, a Embrafilme não foi confrontada com alternativas concretas de produção, que só surgiriam em meados da década de 90, com a chamada retomada do cinema brasileiro.
A única transformação real que se pode notar no cinema brasileiro do período é o surgimento de um novo filão comercial. A pornochanchada sai definitivamente de plano, os filmes de conteúdo politico perdem espaço, embora o documentário ganhe, sobretudo a partir de Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, força. Jango (1984), de Sílvio Tendler, transforma-se no documentário de maior bilheteria da história do cinema brasileiro. Já na ficção, uma revisão da cultura popular, a base de muito humor, afirma Fernanda Torres como a estrela do cinema brasileiro da década. A Marvada Carne (1986) foi realizado entre o encontro poético de Walter Lima Jr com Humberto Mauro, Inocência (1983), e o verborrágico insight psicanalítico Eu Sei Que Vou te Amar (1986), de Arnaldo Jabor, que deu a Fernandinha o prêmio de melhor atriz em Cannes. Três filmes completamente diferentes, três desempenhos absolutamente distintos de uma atriz que projetava ali a diversidade temática que iria marcar o futuro do cinema brasileiro.
Ao lado de Fernanda Torres, lutando corpo a corpo em termos de presença e diversidade no cinema brasileiro: Carla Camurati. Além de estrear na direção com o curta A Mulher do Atirador de Facas (1984), Carla marcou presença em Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez (1984), último suspiro das inocentes pornochanchadas, Cidade Oculta (1986), de Chico Botelho, o mais pós-moderno dos filmes brasileiros do período, e o biográfico Eternamente Pagu (1988).
Mas o novo filão comercial do cinema brasileiro não tinha nada que ver com documentários, discussões existenciais, classicismo, pós-modernismo e comédia. O novo filão tinha como alvo o público adolescente, a geração que não estava nem aí para os milicos e queria mais era curtir a vida adoidado, sem grilos, com muita música, praia, sol e suco (a censura não permitia outros aditivos). Que o Havaí fosse aqui. E o resultado foi um cinema que já vinha com data de validade vencida.
Flertando com o videoclipe e a linguagem televisiva, os avós de Malhação foram pipocando nas telas. Tudo começou com Menino do Rio (1981) embalado pelo bordão do novato Lulu Santos, que se tornou uma espécie de hino da galera: "Garota eu vou pra Califórnia, viver a vida sobre as ondas, ou ser artista de cinema, o meu destino é ser star". Precisa dizer mais? Com a indústria fonográfica bombando, a explosiva combinação canção e imagem, LP e ingresso, gerou futos lucrativos enriquecendo seus stars. E vieram Garota Dourada (1984), Bete Balanço (1984) e Rock Estrela (1986). O terrível flagelo da AIDS iria acabar com a festa, tirando de cena expoentes dessa geração, como Lauro Corona e o cineasta Lael Rodrigues. Vistos hoje, esses filmes guardam pouco interesse. Nada mais datado. Porém servem como tratado arqueológico, fundamentais para conhecer os anos 80 no Brasil.
O que se pode dizer? Foi bom enquanto durou.
Voltando ao Twitter




Há algum tempo atrás fui iniciado na arte de "twittar". Mas durou pouco, a novidade não foi assimilada por mim com muita facilidade. Deixei de lado uns tempos e, de repente, eis que, de tanto ouvir falar no dito cujo, resolvi tentar de novo. Claro que agora eu pude contar com a assessoria técnica da minha amiga Kay, que me apresentou o Echofon, que facilita as coisas. Depois de algumas orientações básicas, estou começando a "tatear" no twitter. Me aguardem porque, quando eu pegar o jeito da coisa, ninguém me segura. Não resta dúvida que é um potente meio de comunicação. E pelo visto será bastante utilizado este ano, com fins políticos. Salve-se quem puder! O grande problema que eu sei que terei será a falta de tempo. É que quando você senta e começa a navegar, o tempo voa e quando percebe já passou da hora de dormir. E aí, no dia seguinte, a sonolência é garantida. Só não pode ter palestra, reunião ou qualquer outra coisa semelhante. Aliás, a telinha do computador é danada para deixar quem dormiu pouco com mais sonolência ainda. E por falar nisso, vou me retirar e cair na cama.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Rir um pouco é sempre bom
O pensamento de FHC analisado por Millôr Fernandes
LIÇÃO PRIMEIRA
De uma coisa ninguém podia me acusar — de ter perdido meu tempo lendo FhC (superlativo de PhD). Achava meu tempo melhor aproveitado lendo o Almanaque da Saúde da Mulher. Mas quando o homem se tornou vosso Presidente, achei que devia ler o Mein Kampf (Minha Luta, em tradução literal) dele, quando lutava bravamente, no Chile, em sua Mercedes (“A mais linda Mercedes azul que vi na minha vida”, segundo o companheiro Weffort, na tevê, quando ainda não sabia que ia ser Ministro), e nós ficávamos aqui, numa boa, papeando descontraidamente com a amável rapaziada do Dops-DOI-CODI.
Quando, afinal, arranjei o tal Opus Magno — Dependência e Desenvolvimento na América Latina — tive que dar a mão à palmatória. O livro é muito melhor do que eu esperava. De deixar o imortal Sir Ney morrer de inveja. Sem qualquerpartipri, e sem poder supervalorizar a obra, transcrevo um trecho, apanhado no mais absoluto acaso, para que os leitores babem por si:
“É evidente que a explicação técnica das estruturas de dominação, no caso dos países latino-americanos, implica estabelecer conexões que se dão entre os determinantes internos e externos, mas essas vinculações, em que qualquer hipótese, não devem ser entendidas em termos de uma relação “casual-analítica”, nem muito menos em termos de uma determinação mecânica e imediata do interno pelo externo. Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empíricas em função do modo de conexão entre os componentes estruturais internos e externos. Mas o externo, nessa perspectiva, expressa-se também como um modo particular de relação entre grupos e classes sociais de âmbito das nações subdesenvolvidas. É precisamente por isso que tem validez centrar a análise de dependência em sua manifestação interna, posto que o conceito de dependência utiliza-se como um tipo específico de “causal-significante’ — implicações determinadas por um modo de relação historicamente dado e não como conceito meramente “mecânico-causal”, que enfatiza a determinação externa, anterior, que posteriormente produziria ‘conseqüências internas’.”
Concurso – E-mail:
Qualquer leitor que conseguir sintetizar, em duas ou três linhas (210 toques), o que o ociólogo preferido por 9 entre 10 estrelas da ociologia da Sorbonne quis dizer com isso, ganhará um exemplar do outro clássico, já comentado na primeira parte desta obra: Brejal dos Guajas — de José Sarney.
LIÇÃO SEGUNDA
Como sei que todos os leitores ficaram flabbergasted (não sabem o que quer dizer? Dumbfounded, pô!) com a Lição primeira sobre Dependência e Desenvolvimento da América Latina, boto aqui outro trecho — também escolhidoabsolutamente ao acaso — do Opus Magno de gênio da “profilática hermenêutica consubstancial da infra-estrutura casuística”, perdão, pegou-me o estilo. Se não acreditam que o trecho foi escolhido ao acaso, leiam o livro todo. Vão ver o que é bom!
Estrutura e Processo: Determinações Recíprocas
“Para a análise global do desenvolvimento não é suficiente, entretanto, agregar ao conhecimento das condicionantes estruturais a compreensão dos ‘fatores sociais’, entendidos estes como novas variáveis de tipo estrutural. Para adquirir significação, tal análise requer um duplo esforço de redefinição de perspectivas: por um lado, considerar em sua totalidade as ‘condições históricas particulares’ — econômicas e sociais — subjacentes aos processos de desenvolvimento no plano nacional e no plano externo; por outro, compreender, nas situações estruturais dadas, os objetivos e interesses que dão sentido, orientam ou animam o conflito entre os grupos e classes e os movimentos sociais que ‘põem em marcha’ nas sociedades em desenvolvimento. Requer-se, portanto, e isso é fundamental, uma perspectiva que, ao realçar as mencionadas condições concretas — que são de caráter estrutural — e ao destacar os móveis dos movimentos sociais — objetivos, valores, ideologias —, analise aquelas e estes em suas relações e determinações recíprocas. (…) Isso supõe que a análise ultrapasse a abordagem que se pode chamar de enfoque estrutural, reintegrando-a em uma interpretação feita em termos de ‘processo histórico’ (1). Tal interpretação não significa aceitar o ponto de vista ingênuo, que assinala a importância da seqüência temporal para a explicação científica — origem e desenvolvimento de cada situação social — mas que o devir histórico só se explica por categorias que atribuam significação aos fatos e que, em conseqüência, sejam historicamente referidas.
(1) Ver, especialmente, W. W. Rostow, The Stages of Economic Growth, A Non-Communist Manifest, Cambridge, Cambridge University Press, 1962; Wilbert Moore, Economy and Society, Nova York, Doubleday Co., 1955; Kerr, Dunlop e outros, Industrialism and Industrial Man, Londres, Heinemann, 1962.”
Comentário do Millôr, intimidado:
A todo momento, conhecendo nossa precária capacitação para entender o objetivo e desenvolvimento do seu, de qualquer forma, inalcançável saber, o professor FhC faz uma nota de pata de página. Só uma objeçãozinha, professor. Comprei o seu livro para que o senhor me explicasse sociologia. Se não entendo o que diz, em português tão cristalino, como me remete a esses livros todos? Em inglês! Que o senhor não informa onde estão, como encontrar. E outra coisa, professor, paguei uma nota preta pelo seu tratado, sou um estudante pobre, não tenho mais dinheiro. Além do que, confesso com vergonha, não sei inglês. Olha, não vá se ofender, me dá até a impressão, sem qualquer malícia, que o senhor imita um velho amigo meu, padre que servia na Paróquia de Vigário-Geral, no Rio. Sábio, ele achava inútil tentar explicar melhor os altos desígnios de Deus pra plebe ignara do pequeno burgo e ensinava usando parábolas, epístolas, salmos e encíclicas. E me dizia: “Millôr, meu filho, em Roma, eu como os romanos. Sendo vigário em Vigário-Geral, tenho que ensinar com vigarice”.
LIÇÃO TERCEIRA
Há vezes, e não são poucas, em que FhC atinge níveis insuperáveis. Vejam, pra terminar esta pequena explanação, este pequeno trecho ainda escolhido ao acaso. Eu sei, eu sei — os defensores de FhC, a máfia de beca, dirão que o acaso está contra ele. Mas leiam:
“É oportuno assinalar aqui que a influência dos livros como o de Talcot Parsons, The Social System, Glencoe, The Free Press, 1951, ou o de Roberto K. Merton, Social Theory and Social Structure, Glencoe, The Free press, 1949, desempenharam um papel decisivo na formulação desse tipo de análise do desenvolvimento. Em outros autores enfatizaram-se mais os aspectos psicossociais da passagem do tradicionalismo para o modernismo, como em Everett Hagen, On the Theory of Social Change, Homewood, Dorsey Press, 1962, e David MacClelland, The Achieving Society, Princeton, Van Nostrand, 1961. Por outro lado, Daniel Lemer, em The Passing of Traditional Society: Modernizing the Middle East, Glencoe, The Free Press, 1958, formulou em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento, o enfoque do tradicionalismo e do modernismo como análise dos processos de mudança social”.
Amigos, não é genial? Vou até repetir pra vocês gozarem (no bom sentido) melhor: “formulou (em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento) o enfoque (do tradicionalismo e do modernismo) como análise (dos processos de mudança social)”.
Formulou o enfoque como análise!
É demais! É demais! E sei que o vosso sábio governando, nosso FhC, espécie de Sarney barroco-rococó, poderia ir ainda mais longe.
Poderia analisar a fórmula como enfoque.
Ou enfocar a análise como fórmula.
É evidente que só não o fez em respeito à simplicidade de estilo.
Tópico avulso sobre imodéstia e pequenos disparates do eremita preferido dos Mamonas Assassinas.
Vaidade todos vocês têm, não é mesmo? Mas há vaidades doentias, como as das pessoas capazes de acordar às três da manhã para falar dois minutos num programa de tevê visto por exatamente mais ou menos ninguém. Há vaidades patológicas, como as de Madonas e Reis do Roque, só possíveis em sociedades que criaram multidões patológicas.
Mas há vaidades indescritíveis. Vaidade em estado puro, sem retoque nem disfarce, tão vaidade que o vaidoso nem percebe que tem, pois tudo que infla sua vaidade é para ele coisa absolutamente natural. Quem é supremamente vaidoso, se acha sempre supremamente modesto. Esse ser existe materializado em FhC (superlativo de PhD). Um umbigo delirante.
O que me impressiona é que esse homem, que escreve mal — se aquilo é escrever bem o meu poodle é bicicleta — e fala pessimamente — seu falar é absolutamente vazio, as frases se contradizem entre si, quando uma frase não se contradiz nela mesma, é considerado o maior sociólogo brasileiro.
Nunca vi nada que ele fizesse (Dependência e Desenvolvimento na América Latina, livro que o elevou à glória, é apenas um Brejal dos Guajas, mais acadêmico) e dissesse que não fosse tolice primária. “Também tenho um pé na cozinha”, “(os brasileiros) são todos caipiras”, “(os aposentados) são uns vagabundos”, “(o Congresso) precisa de uma assepsia”, “Ser rico é muito chato”, “Todos os trabalhadores deviam fazer checape”, “Não vou transformar isso (a moratória de Itamar) num fato político”. “Isso (a violência, chamada de Poder Paralelo) é uma anomia”. E por aí vai. Pra não lembrar o vergonhoso passado, quando sentou na cadeira da prefeitura de São Paulo, antes de ser derrotado por Jânio Quadros, segundo ele “um fantasma que não mete mais medo a ninguém”.
Eleito prefeito, no dia seguinte Jânio Quadros desinfetou a cadeira com uma bomba de Flit.
E, sempre que aproxima mais o país do abismo no qual, segundo a retórica política, o Brasil vive, esse FhC (superlativo de PhD) corre à televisão e deita a fala do trono, com a convicção de que, mais do que nunca, foi ele, the king of the black sweetmeat made of coconuts (o rei da cocada preta), quem conduziu o Brasil à salvação definitiva e à glória eterna. E que todos querem ouvi-lo mais uma vez no Hosana e na Aleluia. Haja!
Millôr Fernandes
domingo, 11 de abril de 2010
A Ficha falsa da Dilma
Transcrevo abaixo artigo do blog "Amigos da Presidente Dilma", com o discurso que ela fez no ABC. É um discurso claro, objetivo, honesto, democrático, enfim, um discurso digno de alguém que tem moral para se candidatar a presidente do Brasil. Só os radicais cegos não conseguem enxergar. Enquanto o Serra contratou uma equipe para difamar, caluniar, mentir, tentando desesperadamente desmerecê-la aos olhos do eleitor, ela se preocupa apenas em falar de seus planos e de seus projetos.
É impossível não se identificar com seus ideais. Da mesma forma, é impossivel não sentir revolta e indignação quando os contratados e jornalistas de sua tropa se dedicam a tão vil atividade. É a eterna fábula da raposa e as uvas: como não pode alcançar as uvas então desdenha e diz que estão verdes e por isso não merecem ser colhidas.A íntegra do discurso de Dilma Rousseff no ABC
10 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
O smart power dos EUA em ação na América Latina
O intervencionismo dos EUA na América Latina incorporou, em nossos dias, inovações como o uso de novas tecnologias de informação, do poder da mídia dominante e de recursos de marketing para impor sua visão de mundo e mobilizar a juventude do país alvo em causas que interessam a Washington.
Hideyo Saito
O intervencionismo atual dos EUA na América Latina é resultante do aperfeiçoamento da estratégia de “guerra psicológica” formulada na década de 1940 com o objetivo de conter o comunismo no mundo. Incorporou, em nossos dias, inovações como o uso de novas tecnologias de informação, do poder da mídia dominante e de recursos de marketing para impor sua visão de mundo e mobilizar a juventude do país alvo em causas que interessam a Washington. A súbita emergência de um organizado movimento estudantil que contesta o governo venezuelano não é mera coincidência, como mostram precedentes nos países do leste europeu.
Essa política começou a ganhar forma logo após o final da Segunda Guerra, com a criação da CIA, conforme relatou a jornalista britânica Frances Stonor Souders com base em documentos da própria organização (2). A estratégia foi explicada, na época, pelo presidente estadunidense Dwight Eisenhower, da seguinte forma: “Nosso objetivo não é a conquista de territórios nem a subjugação pela força (...) É mais sutil, mais penetrante e mais completo (...) A ‘guerra psicológica’ é a luta pela mente e pela vontade dos homens” (3). Com essa filosofia, a CIA patrocinou, durante décadas, mais de 20 revistas culturais e controlou entidades de fachada em 35 países, promovendo exposições, concursos literários e artísticos, conferências internacionais e outras atividades de grande repercussão. Envolveu intelectuais de renome, de preferência progressistas (desde que não fossem marxistas e, muito menos, simpatizantes da União Soviética), considerados os únicos com credibilidade para destruir a “mitologia comunista”. O que interessava era fomentar um clima internacional favorável aos valores do capitalismo liberal, desacreditando os relacionados ao socialismo.
A América Latina foi contemplada com a revista cultural Mundo Nuevo, editada em Paris com recursos da CIA. Segundo lembrou o jornalista Argemiro Ferreira em seu blog, era uma publicação sofisticada e atraente, que estampava entrevistas e textos de estrelas ascendentes como Gabriel García Marquez, Carlos Fuentes, Cabrera Infante e outros do mesmo calibre. Ferreira cita uma dissertação acadêmica que estudou o papel exercido pela revista, escrita pelo estadunidense Russell St. Clair Cobb, da Universidade do Texas: “Mundo Nuevo, a revolução cubana e a política da liberdade cultural”. Cobb sustenta que a publicação foi criada para combater a revolução cubana, usando uma “retórica de literatura descomprometida e cosmopolita, para se contrapor ao modelo revolucionário da literatura engajada” (4). A “guerra psicológica”, contudo, era apenas parte de uma política muito mais abrangente, que compreendia desde sutis iniciativas para impor uma visão anticomunista de mundo, até brutais ações de assassinato de líderes e de derrubada de governos considerados indesejáveis.
A atual estratégia de propaganda ideológica dos EUA continua marcada pelo mesmo pragmatismo e flexibilidade. Para organizá-la Washington criou, na década de 80, a National Endowment for Democracy (NED), que vem fazendo (mais ou menos) abertamente o que a CIA praticava de forma clandestina. Apresentando-se como órgão dedicado a apoiar os direitos humanos e a democracia, a NED acumula um respeitável histórico de intromissões na política interna de cerca de 90 países da África, América Latina, Ásia e Europa Oriental (5). Ela age em parceria com a Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), o Instituto Nacional Democrata (do Partido Democrata), o Instituto Internacional Republicano (Partido Republicano), além de think tanks (centros de pesquisa) e organizações não-governamentais como Albert Einstein Institution, Freedom House, Ford Foundation, Cato Institute e Open Society Institute (este, do especulador George Soros). Seu braço propagandístico por excelência é a Voz da América (VOA), serviço de radiodifusão internacional do governo estadunidense.
Criada em 1942 como parte do esforço dos aliados para conter o expansionismo nazista, a VOA foi reciclada no imediato pós-guerra para participar do combate ao comunismo no mundo. Continua ativíssima em pleno século XXI, agora com as antenas principais voltadas para a América Latina, especialmente os países mais importantes da Aliança Bolivariana dos Povos da Nossa América (Alba): Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua (6). São mais de 1.250 horas semanais de transmissões radiofônicas (programas culturais, educacionais e noticiários) em 45 idiomas, para uma audiência mundial de 134 milhões de pessoas, segundo apregoa a própria emissora. A VOA conta ainda com 319 emissoras de rádio afiliadas na América Latina, sendo 199 na Bolívia, 77 na Colômbia, sete no Equador e igual número no Peru. As demais estão na Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Costa Rica, México, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras e Panamá. No campo da televisão, em que transmite em 24 idiomas, as estações afiliadas somam 95 na América Latina, 23 delas na Colômbia. Todas recebem, gratuitamente, farto material de áudio e de vídeo para suas programações. Finalmente, a emissora estadunidense oferece cursos de capacitação a jornalistas e estudantes de jornalismo latino-americanos (7).
No leste europeu, sustentação a líderes e movimentos alinhados
No governo Barack Obama, como foi explicado pela secretária de Estado, Hillary Clinton, durante sabatina no Senado para a sua confirmação no cargo, a política externa passou a trabalhar como conceito de smart power, que prevê o emprego tanto do hard power (invasão militar, imposição de governos locais e tutela bruta), como do soft power (diplomacia, influência econômica, guerra psicológica e cultural e campanhas de mídia), de acordo com a situação (8). Mas essa política começou a ser testada nos países do leste europeu, envolvendo campanhas de marketing e de mídia, para fortalecer políticas, ideias e lideranças fiéis aos interesses dos EUA. Lá, além das notórias “consultorias” prestadas por economistas neoliberais para a transição à economia de mercado (cujos resultados estão à mostra em nossos dias, com a virtual bancarrota de todos eles), as intervenções encabeçadas pela NED serviram para colocar dirigentes cooptados por Washington no poder, como foi o caso de Vojislav Kostunica na Sérvia. Promoveram também a Revolução Laranja, na Ucrânia, e a Revolução Rosa, na Geórgia.
Em cada caso, consultores especializados analisaram a realidade política local para escolher um movimento considerado promissor (Otpor, na Sérvia, Porá, na Ucrânia...), assim como possíveis partidos políticos e lideranças que passariam a ser objeto de apoio, além de idealizar e ajudar a executar um plano de ação indicado para a situação. Houve um processo de “profissionalização” e fortalecimento do movimento social escolhido, que foi dotado de uma identidade claramente reconhecível e de slogans e materiais propagandísticos de alta qualidade. Jovens passaram por cursos de capacitação como militantes, enquanto mídias e personalidades “independentes” foram alinhadas à campanha. A bola da vez tem sido a Moldávia, onde um trabalho similar ao descrito resultou no aparecimento, em abril de 2009, de um movimento juvenil que se declarou distante de partidos tradicionais e sem ligações com o passado, em suma, “anti-ideológico e puro” – mas que recebeu entusiástico apoio de entidades como a Rádio Free Europe (braço da citada VOA) e o Atlantic Council...
As maiores vitórias dessa política, alardeadas pela própria NED, foram o apoio a Lech Walesa e ao movimento Solidariedade, que acabaram tirando o Partido Comunista Polonês do poder em 1989, e ao grupo Carta dos 77, que levou Vaclav Ravel à presidência da então Checoslováquia, um ano mais tarde. A infiltração estadunidense na Polônia teve início em 1984, através de ajuda financeira para a criação de sindicatos, grupos de defesa de direitos humanos e jornais “independentes”, os quais recebiam ampla divulgação internacional (9). A mesma receita é aplicada em Cuba desde aquela época, com farto financiamento e apoio a potenciais dissidentes, jornalistas “independentes”, defensores de direitos humanos e campeões da liberdade de expressão como a blogueira Yoaní Sánchez, mas sem grande êxito até o momento.
O surgimento do movimento estudantil de direita na Venezuela
Qualquer semelhança desses fatos com acontecimentos recentes na Venezuela não é mera coincidência. Sabe-se que consultores da Penn, Schoen and Berland Associates, de Washington, que foram presença constante no leste europeu, também andaram dando o ar de sua graça em Caracas antes dos pleitos de 2004 (referendo sobre a continuidade do mandato de Hugo Chávez) e de 2006, segundo as fontes citadas na nota 6. O quadro fica mais claro quando se observa a movimentação de lideranças universitárias que emergiram subitamente como força nova na política venezuelana em 2007, como Yon Goicochea (que recebeu, no ano seguinte, o Prêmio Liberdade Milton Friedman, coincidentemente conferido pelo Cato Institute, aqui também seguindo o mesmo roteiro aplicado no leste europeu e em Cuba).
Sabe-se, por exemplo, que Goicochea é assíduo em atividades patrocinadas pelo Departamento de Estado, como a reunião da Aliança de Movimentos Juvenis, realizada entre 14 e 16 de outubro de 2009 na Cidade do México. O encontro foi aberto por ninguém menos que Hillary Clinton (via internet) e contou com diversas organizações venezuelanas, como Primeiro Justiça (que se transformou em partido político), Venezuela Primeiro e a Fundação Futuro Presente, todas resultantes do ativismo desse ex-universitário (10). A reunião na capital mexicana teve a presença ainda de nomes como Marc Wachtenheim, do Cuba Development Initiative, Maryra Cedeño Proaño, do Fórum da Juventude de Guayaquil, no Equador, Eduardo Ávila, de Voces Bolivianas. Segundo a advogada estadunidense Eva Golinger, que tem denunciado ingerências de Washington na política venezuelana a partir de documentos oficiais do governo dos EUA, todas essas entidades são patrocinadas pela Usaid.
Dentre os palestrantes do evento figuraram desde expoentes de organizações que atuam como apêndices da já citada NED, como o Freedom House e o Instituto Republicano, até jovens criadores de ferramentas de tecnologia de informação, como Twitter, Facebook, Google, Meetup e Youtube. Para Golinger, reuniões como essas revelam as novas facetas que o smart power vem adotando, com a mobilização de jovens e de novas tecnologias para apoiar a dominação política e cultural estadunidense.
Os oligopólios da comunicação e seu papel no smart power
A outra face visível do smart power nos países integrantes da Alba tem sido desempenhada pela respectiva mídia dominante, tendo a Voz da América como protagonista muitas vezes oculta (11). Em todos, os oligopólios da comunicação procuram, em uníssono, fomentar as respectivas oposições internas, denunciando os governos locais de promoverem uma suposta escalada autoritária, com ameaças à liberdade de imprensa, aos direitos humanos e à própria democracia (12). Na Venezuela já chegaram à fase de difundir rumores sobre uma iminente revogação do pátrio poder pelo governo Hugo Chávez, para que as crianças venezuelanas fiquem sob controle do Estado para serem submetidas à “doutrinação comunista” (13).
A revolução bolivariana tem enfrentado essa barreira de propaganda aplicando com rigor a legislação, como quando a Comissão Nacional de Telecomunicações resolveu não renovar a concessão da RCTV, em 2007, e, sobretudo, com a democratização do processo de concessão de direitos de transmissão (14). Até 1998, início do governo Chávez, simplesmente não havia canais comunitários de rádio e TV em funcionamento no país. Hoje, estão no ar 245 rádios FM e 37 emissoras de televisão, operadas por entidades sociais, sindicais e de bairro. Há ainda 82 estações públicas de rádio e 12 de televisão. O setor privado comercial dispõe de 471 emissoras de rádio FM e 65 de televisão. Para completar, floresce em todo o país a produção independente de conteúdos audiovisuais para essas emissoras, graças à abertura dada por dispositivos da Lei de Responsabilidade Social no Rádio e Televisão. Essa lei foi aprovada pelo legislativo venezuelano em dezembro de 2005, após mais de um ano de debates e audiências públicas realizadas em todas as regiões do país.
É fácil ver que não existe, na Venezuela, nada parecido com concentração da mídia nas mãos do governo, como denuncia a imprensa hegemônica. O que há, isso sim, é a progressiva quebra do poder virtualmente monopólico dessa mídia no país, que tem de enfrentar a crescente concorrência de órgãos de comunicação públicos e comunitários. A referida Lei de Responsabilidade não apenas assegura a mais completa e irrestrita liberdade de expressão, como também o direito à informação objetiva e fidedigna por parte da sociedade (Curiosamente, o código anterior, vigente desde 1984, previa expressamente a censura prévia) (15). A virulência da grande imprensa venezuelana no combate ao presidente Hugo Chávez confirma essa realidade.
Mídias alternativas na pauta das forças democráticas
Na Bolívia, o presidente Evo Morales denunciou publicamente a atividade, no país, de organizações não-governamentais financiadas pela Usaid e de uma rede informal de rádios que atuam organizadamente para desestabilizar o seu governo, com apoio da Voz da América (16). A emissora estadunidense, como vimos, mantém grande número de retransmissoras na Bolívia. As estações de alcance nacional e as regionais do Oriente (Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca) se converteram em repetidoras da linha editorial emanada da VOA. Para a jornalista Inés Hayes, há uma reedição do trabalho de propaganda contrarrevolucionária que operou durante os governos nacionalistas de 1952 e de 1969-1970. As disputas ideológicas foram travadas principalmente pelo rádio, ainda hoje o meio de comunicação de maior penetração no país. As emissoras radiofônicas de mineiros e de camponeses de Oruro, Cochabamba e La Paz surgiram desses embates. Hoje elas se somam às 80 estações comunitárias concedidas pelo governo de Evo Morales, para se posicionar como uma rede alternativa às emissoras comerciais privadas, sob a liderança da Rádio Pátria Nueva, do setor público.
A Nicarágua e o Equador também têm sido alvos do poder de fogo da Voz da América. Com a volta do sandinista Daniel Ortega ao poder em Manágua, a VOA se apressou em reforçar suas transmissões para aquele país, com novos investimentos em instalações e equipamentos. A emissora se tornou a principal fonte de denúncias de supostas fraudes nas eleições municipais de 2008, que em seguida foram amplificadas pelo mundo afora. No Equador, durante as manifestações de protesto contra o governo de Rafael Correa, lideradas pela Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie) em 2009, a mídia dominante deu inédito respaldo a esses setores até hoje marginalizados, ao mesmo tempo em que divulgou seguidas pesquisas de opinião que mostravam queda na popularidade do governo.
Não é casual, portanto, que o combate aos oligopólios da comunicação esteja na pauta das forças democráticas da América Latina. A Alba decidiu, na reunião de cúpula de outubro de 2009, realizada em Cochabamba, na Bolívia, criar uma rede regional de mídia para contrabalançar a avalanche de propaganda estadunidense. Outros países da região, que contam com governos de orientação progressista, também despertaram para a necessidade de aprovar ou fazer valer legislações que imponham limite à oligopolização dos meios de radiodifusão, sobretudo rádio e televisão, e sua “propriedade cruzada” (controle simultâneo de diversos tipos de mídia por um mesmo grupo econômico).
Essas iniciativas, já adotadas ou em curso na Venezuela, na Bolívia, na Argentina, no Equador e no Uruguai – e defendidas no Brasil pela 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) – são denunciadas com estardalhaço e cinismo pelos próprios oligopólios da comunicação, como ameaças à liberdade de imprensa e à democracia. Eles transformam em interesse da sociedade a defesa de um privilégio que amesquinha a democracia e impede a circulação de ideias e propostas alternativas, quando contrárias às das camadas dominantes. A verdade, portanto, é que sem o controle desses oligopólios pela sociedade, dificilmente teremos liberdade de expressão e democracia efetivas na região.
NOTAS
1. Hideyo Saito é jornalista.
2. Saunders, Frances Stonor. Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura. Tradução de Vera Ribeiro. Record, Rio de Janeiro: 2008.
3. Saunders (Op. cit., p. 167).
4. Blog de Argemiro Ferreira. Ver post de 19/01/2010, em http://argemiroferreira.wordpress.com/.
5. Hernando Calvo Ospina. A mão (quase) invisível de Washington. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, jun/2007; Ian Traynor. US campaign behind the turmoil in Kiev. The Guardian, Londres, 26/11/2004; Joan Roelofs. Las ONG y el uso imperial de la filantropía. IAR-Noticias, 16/07/2007 (http://www.iarnoticias.com/secciones_2007/autores/0017_joan_roelofs_14en07.html, acesso em 22/10/2007,); e Thierry Meyssan. Las redes de la injerencia “democrática”. Voltairenet, 21/11/2004 (http://www.voltairenet.org/article122880.html#article122880, acesso em 12/02/2008).
6. Ver Juan O. Tamayo. La Voz de las Américas expande penetración en América Latina. El Nuevo Herald, 29/10/2009. A Alba é composta ainda por Dominica, São Vicente e Granadinas, Equador e Antígua e Barbuda. A ditadura que derrubou o presidente Manuel Zelaya, em junho de 2009, retirou Honduras da organização.
7. Como o caso de Cuba foi considerado mais grave pelos estrategistas estadunidenses, o país foi contemplado com emissoras próprias: a Rádio Martí, criada em 1986, e a TV Martí, na década seguinte. São emissoras pertencentes ao governo estadunidense, que transmitem propaganda anticubana diretamente ao território de Cuba, ao arrepio do regulamento da União Internacional de Telecomunicações, órgão especializado da ONU. A maioria dos chamados dissidentes cubanos, travestidos em "jornalistas independentes", costuma passar reportes e informações para uso dessas estações.
8. O acordo entre Colômbia e Estados Unidos, assinado em 30 de outubro de 2009, que autorizou o uso, pelo exército estadunidense, de sete bases militares em território colombiano, prevê também a livre atuação, com plena imunidade, de agentes de mais de 30 empresas privadas terceirizadas, para executar missões de inteligência, espionagem e operações exploratórias e de defesa na América Latina, segundo documentos oficiais de Washington. Dentre as contratadas está a tristemente famosa empresa de mercenários Blackwater. Esses fatos, somados à reativação da IV Frota Naval dos EUA, indicam que o país se prepara para eventuais conflitos militares na América Latina. Ver Eva Golinger. Blackwater na Colômbia. Portal Vermelho, 16/03/2010. http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=125822&id_secao=7.
9. Calvo Ospina e Meyssan (Ver nota 6). Os financiamentos da NED, diretos ou por meio de entidades como CIPE, IRI, NDI ou AFL-CIO, são divulgados em http://www.ned.org/about/nedTimeline.html.
10. Eva Golinger . «Revolução Twitter» na Venezuela http://www.telesurtv.net/noticias/opinion/1385/goicochea-y-clinton-planifican-la-revolucion-twitter-en-venezuela
11. Inés Hayes. Voz de América: de la Guerra Fría al combate frontal contra el Alba. Alainet, 04/02/2010. http://alainet.org/active/35978 (acesso em 25/02/2010).
12. No Brasil, o mesmo roteiro é seguido cotidianamente por porta-vozes da mídia dominante, tendo se expressado sem meias palavras no recente seminário promovido pelo Instituto Millenium. Ver Bia Barbosa. Grande mídia organiza campanha contra candidatura Dilma. Carta Maior, 02/03/2010; e Gilberto Maringoni. O rosnar golpista do Instituto Millenium. Carta Maior, 06/03/2010.
13. Essa abjeta campanha de atemorização teve lugar também na União Soviética e em Cuba.
14. Mário Augusto Jakobskind. Venezuela: Sobre o que a imprensa conservadora silencia. Carta Maior (do Observatório da Imprensa), 28/02/2010.
15. http://www.portalfio.org/inicio/repositorio//CUADERNOS/CUADERNO-2/LA_NUEVA_LEY_VENEZOLANA_DE_RESPONSABILIDAD_SOCIAL_EN_RADIO_Y_TELEVISION.pdf.
16. Em agosto de 2008, Morales expulsou do país o embaixador dos EUA, Philip Goldberg, assim como representantes da Usaid e da Dea, acusando-os de intervenção nos assuntos internos bolivianos.
Hideyo Saito é jornalista.


