sábado, 12 de dezembro de 2009


12/12/2009

Lula, personalidade do ano do jornal espanhol "El País"


O homem que assombra o mundo

Por JOSÉ LUIS RODRIGUEZ ZAPATERO *



10/12/2009



Tradução de Eduardo Guimarães



É um homem cabal e tenaz, pelo qual sinto uma profunda admiração. Conheci-o em setembro de 2004 por ocasião da incorporação da Espanha na aliança contra a fome que ele liderava em uma reunião de cúpula organizada pelas Nações Unidas em Nova Iorque. Não poderia ter sido em uma ocasião melhor.

Luiz Inácio Lula da Silva é o sétimo de oito filhos de um casal de lavradores analfabetos que viveram a fome e a miséria na zona mais pobre do Estado Nordestino brasileiro de Pernambuco.

Teve que intercalar seus estudos com o desempenho dos mais variados trabalhos e se viu obrigado a deixar a escola com apenas 14 anos para trabalhar em uma metalúrgica que se dedicava à produção de parafusos. Em 1968, em plena ditadura militar, deu um passo que marcou sua vida: filiou-se ao sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.

Da mão deste homem, seguindo o atalho aberto por seu predecessor na Presidência Fernando Henrique Cardoso, o Brasil, em apenas 16 anos, deixou de ser o país do futuro que nunca chegava para se converter em uma formidável realidade com um brilhante porvir e uma projeção global e regional cada vez mais relevante. Por fim, o mundo se deu conta de que o Brasil é muito mais do que Carnaval, futebol e praias. É um dos países emergentes que conta com uma democracia consolidada e está sendo chamado a desempenhar, nas décadas seguintes, uma crescente liderança política e econômica no mundo, tal como já vem fazendo na América Latina com notável acerto.

Lula tem o imenso mérito de ter unido a sociedade brasileira em torno de uma reforma tão ambiciosa quanto tranqüila. Está sabendo, sobretudo, afrontar, com determinação e eficácia, os reptos da desigualdade, da pobreza e da violência que tanto macularam a história recente do país. Como conseqüência disso, sua liderança goza hoje no Brasil de respaldo e apreço majoritários, porém ainda mais importante é a irreversível aceitação social de que todos os brasileiros têm direito à dignidade e à auto-estima por meio do trabalho, da educação e da saúde.

Superando adversidades de toda ordem, Lula percorreu com êxito esse longo e difícil caminho que vai do interesse particular, em defesa dos direitos sindicais dos trabalhadores, ao interesse geral do país mais povoado do continente sul-americano. Sem deixar de ser Lula, nessa longa marcha conseguiu, ademais, dar esperanças a muitos milhões de seus concidadãos, em especial àqueles mais humilhados e ofendidos pelo açoite secular da miséria, proporcionando-lhes os meios materiais para começar a escapar das seqüelas daquele círculo vicioso.

Ao mesmo tempo, nos sete anos de sua Presidência o Brasil ganhou a confiança dos mercados financeiros internacionais, os quais valorizam a solvência de sua gestão, sua capacidade crescente de atrair investimentos diretos como os efetuados por várias companhias espanholas, e o rigor com que geriu as contas públicas. O resultado é uma economia que cresce a um ritmo anual de 5%, que resistiu aos embates da recessão mundial e está saindo mais forte da crise.

Depois de se converter no presidente que chegou ao cargo com o maior respaldo eleitoral, em sua quarta tentativa de se eleger, Lula manifestou ser inaceitável uma ordem econômica em que poucos podiam comer cinco vezes ao dia e na qual muitos ficavam sem saber se conseguiriam comer ao menos uma. E concluiu: “Se ao final do meu mandato todos os brasileiros puderem desjejuar, almoçar e jantar todos os dias, então terei realizado a missão de minha vida.

Nessa tentativa continua, esse homem honesto, íntegro, voluntarioso e admirável converteu-se em uma referência inegável para a esquerda do continente americano ao sul do Rio Grande. Tem uma visão do socialismo democrático focalizada na inclusão social e na justiça do meio ambiente para tornar possível uma sociedade mais justa, decente, fraterna e solidária.

Logo o Brasil ocupará um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, está a ponto de se converter em uma potência energética e em 2014 sediará a Copa do Mundo. Quando nos vimos em Copenhague, Lula chorava de felicidade, como uma criança grande, porque a cidade do Rio de Janeiro acabara de ser eleita para organizar os Jogos Olímpicos de 2016. A euforia que o inundava não o impediu de ter a dignidade necessária para vir me consolar porque Madrid não tinha sido eleita e para nos fundirmos em um abraço.

A mim não estranha que esse homem assombre o mundo.



* José Luis Rodriguez Zapatero é primeiro-ministro da Espanha.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Conceição: "O Brasil não pode continuar engolindo dólares"


Artigo do jornal Valor, reproduzido no site "Vi o Mundo", do Azenha, e que transcrevo aqui, porque considero muito bom.


Atualizado em 08 de novembro de 2009 às 15:13 | Publicado em 08 de novembro de 2009 às 15:09

Conceição, a crise e o Brasil

06 de novembro de 2009

No Valor Economico, reproduzido aqui

Maria da Conceição Tavares, pessimista com os Estados Unidos e o mundo, tem crítica menos dura para o Brasil, "que vai bem na crise".

Por Vera Saavedra Durão, do Rio

Fiel ao seu estilo questionador e arrebatado, a economista Maria da Conceição Tavares continua contestando as apostas dos mercados financeiros. "A crise não acabou", alerta a decana dos economistas brasileiros e representante da tradição crítica do pensamento econômico latino-americano, no melhor estilo de Celso Furtado. "Com a subida das bolsas, fica todo mundo no oba-oba e parece que passou. O mau sintoma é justamente a bolsa ter refluído, os bancos terem voltado a ganhar dinheiro. Isso é simplesmente aparência."

Conceição, como é sempre chamada, fala com ceticismo sobre as perspectivas da economia americana. "O Estado está tendo de sustentar como um Hércules todo um sistema falido, mas não consegue fazer as coisas mudarem de rumo, não tem se mostrado ativo. Está fraco e isso é ruim."

A seu ver, o governo Obama não está tendo apoio suficiente para fazer as mudanças necessárias. "Não dá para fazer reforma da saúde porque os laboratórios e os seguros de saúde não querem. Não dá para fazer reforma financeira porque os bancos não querem. Como é uma sociedade de lobby pesado, fica difícil reformar."

Os Estados Unidos não têm, aparentemente, uma "saída boa", diz. Para ela, todas as indicações de estagnação mais longa estão presentes na economia americana, o que coloca a liderança do país sobre a economia mundial em xeque. "Eles não têm mais liderança nenhuma. Têm peso político, diplomático e militar. Mas isso não é liderança. É império. Não têm como resolver seus problemas [financeiros e militares], nem conseguem avançar. São um império congelado."

Conceição se diz pela primeira vez otimista com o Brasil de Lula. "Ele é um gênio político." Mas adverte que o problema básico da economia brasileira, no momento, é o câmbio. "O Brasil não pode continuar engolindo dólares."

Conceição tem 55 anos de Brasil. Chegou em fevereiro de 1954, casada com o engenheiro português Pedro Soares. A filha Laura nasceria meses depois. Naturalizou-se em 1957. Seu segundo marido, Antonio Carlos Macedo, professor de ciências biológicas da UFRJ, é o pai de Bruno, 44 anos. É amistoso seu relacionamento com os ex-maridos.

Portuguesa de Anadia, nascida em 24 de abril de 1930, formada em matemática em Lisboa, Conceição conta que optou pela economia influenciada por três clássicos do pensamento econômico brasileiro: Celso Furtado (1920-2004), Caio Prado Jr. (1907-1990) e Ignácio Rangel (1908-1994) - que a despertou para as questões relacionadas ao capital financeiro. "Eles marcaram profundamente minhas ideias."

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Conceição foi aluna de Octávio Gouvêa de Bulhões (1906-1990) e Roberto Campos (1917-2001). Escreveu centenas de artigos e vários livros, dos quais o clássico dos clássicos é "Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil - Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro", de 1972. O texto original foi escrito no fim dos anos 1960, quando chefiava o escritório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) no Brasil. Na época da ditadura militar, autoexilou-se no Chile, depois de escapar da prisão graças à intervenção de Mario Henrique Simonsen, seu ex-aluno, ministro do governo Geisel.

Teve rápida passagem pelo MDB, então partido de oposição à ditadura militar. Em 1994, foi eleita deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro, ao qual continua filiada. Aposentou-se como catedrática do Instituto de Economia da UFRJ, onde é professora emérita, e da Universidade de Campinas (Unicamp). Mas permanece ativa, dando cursos de economia internacional no Instituto Rio Branco e aulas na pós-graduação da UFRJ.

No momento, Conceição trabalha num ensaio sobre a América do Sul para um livro que José Luís Fiori, também professor na UFRJ, ex-aluno, a quem conhece desde o exílio, pretende lançar em 2010 sobre questões econômicas, financeiras e sociais da região, temas aos quais sempre esteve ligada.

Mesmo com problemas de bronquite por causa do cigarro - quando deputada, operou um nódulo benigno no pulmão - Conceição ainda consome dois maços por dia. Não tem intenção de parar. Diz que morrerá se deixar de fumar. "Para minha idade, estou ótima", avalia a economista de palavra sempre apaixonada, que pretende comemorar seus 80 anos, em 2010, com os dois filhos, dois netos e os muitos amigos e admiradores.


Valor: Quais lições podemos tirar da crise ?

Maria da Conceição Tavares: A crise ainda não passou e não deu as lições . Nos Estados Unidos já tem um pessoal dizendo que o gasto fiscal é muito, que isso acaba dando inflação e tem que parar. Se parar o gasto fiscal, como é a única componente ativa que vem sendo acionada pelo governo Obama, as coisas não vão melhorar. Todos os sintomas estão ainda muito embaralhados. E aí sobe a Bolsa de Valores, porque houve uma pequena bolha e o pessoal já começa a dar vivas . O desemprego também não terminou, e há muita capacidade ociosa. Então, todas as indicações que apontam para uma estagnação mais longa estão lá presentes. Não houve nenhuma mudança estrutural até agora para reverter a crise.


Valor: Como fica, então, o papel do Estado neste momento?

Conceição: O Estado americano está fraco. Não está ativo. E está botando o dinheiro todo em cima dos bancos e também em cima do seguro social, do desemprego que subiu muito. Todo o sistema falido, ele sustentando, feito um Hércules, e não está fazendo essa coisa tomar rumo. É um estado fraco, desse ponto de vista. E isso é ruim, porque denota que o governo americano não tem realmente força. Não tem apoio, nem na sociedade, que é dilapidada pelo neoliberalismo, nem no "establishment". Então, não dá para fazer a reforma da saúde porque os laboratórios e os seguros-saúde não querem. Não dá para fazer reforma financeira porque os bancos não querem. Como é uma sociedade de lobby pesado, não tem como reformar. E não tem mecanismos de demanda efetiva do lado do setor privado para aumentar o emprego. O que não é bom.


Valor: Isso significa que a liderança dos Estados Unidos sobre a economia mundial está em xeque?

Conceição: Está. Não tem mais liderança nenhuma. Eles têm peso político, diplomático e militar. Mas isso não é liderança. É império. Eles têm um poder imperial sustentado num poder militar e financeiro. A iniciativa diplomática e militar só visa manter com mão de ferro o que já conquistaram. Mas não têm como resolver os problemas, nem avançar . Os Estados Unidos não podem tomar iniciativa militar em mais lugar nenhum. Primeiro, quem vai pagar e, depois, quem vai dar o apoio? É o império congelado.


Valor: Essa fraqueza americana pode arrastar o mundo para onde?

Conceição: É uma fraqueza sistêmica. O sistema era todo estruturado por eles. Como estão débeis, o sistema fica com um peso morto muito grande. Só tem possibilidade de sair quem tem dimensão para sair, como os BRICs. O que vão fazer o México, a Argentina, o Chile? São todos atrelados à economia mundial. Quem está puxando o comércio é a Ásia. A Alemanha não está puxando mais nada. Se a Europa e os Estados Unidos puxam para baixo, só sobra a Ásia.


Valor: E a China, especificamente?

Conceição: Os chineses estão tentando substituir os americanos nos investimentos em matérias-primas que eles precisam. Estao investindo em toda parte. Em petróleo, em infraestrutura na África. Aqui na América Latina estão vindo para tudo. Siderurgia, portos. Estão fazendo um movimento de expansão não pelo comércio apenas, mas principalmente via investimento direto. Isso é que é novidade. Sobretudo na África. Coitados dos africanos. Saem de um imperialismo e entram em outro.


Valor: A China teria a liderança?

Conceição: O mundo caminha para uma multipolaridade.


Valor: Então, nesse mundo a China pode vir a ser uma liderança?

Conceição: Aí entra outra questão. Como se resolve o nó do entrelaçamento entre China e Estados Unidos? É uma simbiose. A China tem resolvido não ser agressiva com os Estados Unidos. Do ponto de vista diplomático e militar, tem estado "low profile". Não está dizendo que os Estados Unidos são um "tigre de papel", como na época do Mao. É consenso em Pequim que não é para enfrentar os Estados Unidos. Mas eles têm que resolver esse impasse. O que fazem? Compram ativos dos Estados Unidos? Foi o que o Japão fez e se deu mal. E é claro que eles viram o Japão fazer isso e não vão fazer. Então, estão vindo pela periferia. Que é o correto. O Japão saiu da periferia para investir nos Estados Unidos, disparado. Os chineses não estão fazendo isso. Eles têm participação daqueles fundos soberanos em várias coisas. No Citi, por exemplo. Fazem essas aplicações para sustentar os dólares que têm, para ter alguma aplicação.


Valor: China e Estados Unidos vão se pôr de acordo para garantir uma saída da crise?

Conceição: Difícil. Não vejo nenhuma semelhança de estrutura política e ideológica. São muito dessemelhantes. Se não vão se pôr de acordo, como vai ser? A China abre mão crescentemente do mercado americano e aumenta o mercado no resto do mundo. Ela pode fazer isso. Os Estados Unidos vão fazer o quê? Estão no mundo inteiro, mas são uma potência comercial declinante.


Valor: Vão se voltar para o mercado interno?

Conceição: É o que deveriam fazer, como prometeu Obama, mas aí têm que resolver primeiro a situação da regulação do sistema bancário, das empresas e do desemprego.


Valor: Qual o papel dos BRICs na recuperação da economia global?

Conceição: Vão ter papel importante, porque têm peso específico. Não podem estabelecer uma política comum, porque são estruturas diferentes. Somos uma economia mista, a China é estatal, a Rússia era tudo privado, quebrou tudo, e está em processo de reconstrução pelo Estado. O Brasil não é potência militar, mas tem tomado muitas iniciativas na política externa e vai bem na crise.


Valor: Ben Bernanke, presidente do Fed, anunciou que pode aumentar os juros.

Conceição: Coisa sem pé nem cabeça. A dívida externa e a dívida pública deles, gigantescas, vão ficar caríssimas. Eles estão querendo fazer isso porque estão com medo da inflação. Inflação de demanda não é, porque não tem demanda efetiva. Inflação de custos de matéria-prima também não é, pois não está tendo nenhuma explosão de matéria-prima. Acho que o Bernanke está com medo é de que rejeitem a dívida pública. Ninguém está querendo comprar aqueles papéis [títulos do Tesouro]. Uma forma de atrair investidores seria subir os juros. Mas tudo isso são perfumarias. Não vai para lugar nenhum. A raiz do problema seria a reforma do sistema bancário.


Valor: O que mais, além dessa reforma, o governo americano teria que fazer?

Conceição: Reforçar o papel do Estado e fazer um ajuste global que teria que ser negociado com a China. Os dois países teriam que acertar um acordo na área comercial. Mas não há negociação entre os dois. Os Estados Unidos não têm aparentemente uma saída boa. O Obama está falando no vazio. É por isso que os conservadores prenunciam um golpe.


Valor: Existe esse risco?

Conceição: O primeiro risco que existe é que o matem. Esse é um risco clássico nos Estados Unidos. E existe o risco de ele não se reeleger. Fico com muita pena. Ele seguramente não é o cara. Parecia, mas não é.


Valor: Como as dificuldades vividas pelo Estado americano podem impactar o mundo?

Conceição: Vai depender do resto do mundo. Vamos tentar esquecer um pouco os Estados Unidos. Temos que buscar construir outras lideranças. O ideal é que houvesse um acordo mínimo entre todos os grandes, para aliviar a crise e resolver o problema global. Bastava o G-20, bastavam os 20 se porem de acordo. Mas não há acordo.


Valor: E o dólar?

Conceição: Não dá ainda para tirar o dólar [de seu papel de moeda de reserva internacional]. O dólar está fraco. Os países, em geral, se pudessem, saiam do dólar. Está ruim acumular reservas em dólar. O problema é com os que já estão acumulados, como os BRICs, sobretudo a China.


Valor: O que a China vai fazer com US$ 2 trilhões de reservas?

Conceição: Está empacada. E os títulos americanos que ela detém servem de lastro às reservas. Ela não tem como vendê-los no mercado. Está com um mico na mão. É um patrimônio morto. Não tem o que fazer com as reservas. É como se tivesse no cofre, de um lado, o patrimônio futuro, de fábricas, de realizações etc. e, do outro, um montão de estrume que não pode jogar fora.


Valor: O que pode vir daí ?

Conceição: Prevejo uma coisa arrastada, prolongada, com crises que vêm uma atrás da outra, uma bolha disso, uma bolha daquilo.


Valor: Qual a próxima bolha?

Conceição: A bolsa. Já temos uma aí montada, é a bolsa, que voltou a subir. O pessoal está investindo pesado. Mas isso mostra que o sistema está frágil, ao contrário do que julgam, não é um bom sinal. É um mau sinal. Aqui, no Brasil, por exemplo, na Bovespa, o grosso do dinheiro que está vindo de fora pra cá é pra bolsa. Não é para investimento direto no sentido autêntico da palavra. Direto, vieram US$ 11 bilhões e para a bolsa vieram US$ 17 bilhões, este ano.


Valor: Qual seria a consequência dessa bolha?

Conceição: Volta de novo a afundar. Aí vem nova bolha. Se o mercado de commodities estiver melhor, vão fazer bolha de commodities. Podem fazer outra vez bolha em cima do petróleo. Acho que vamos de bolha em bolha.


Valor: Então, a crise não acabou....

Conceição: É uma falsa euforia. Provavelmente o governo americano vai ter que parar de ajudar o setor privado, pois o déficit fiscal já está em 17% do PIB. Como já socorreram no limite, já gastaram trilhões de dólares, na próxima crise não vão poder socorrer. Foi o que aconteceu no decorrer da crise de 1929. Em 1931 e 1932, nada mudou. Só ocorreu mudança no sistema financeiro depois, quando teve outra crise bancária, em 1933. Na primeira crise ninguém se deu conta, pois despejaram toneladas de dólares em cima dos bancos. Como agora.


Valor: A história pode se repetir?

Conceição: A crise atual começou em 2007 com os empréstimos "subprime". Em 2008 foi o auge. E agora, neste segundo semestre, está com ares de que se vai respirar. Em 2010 pode haver uma recuperação, mas em 2011 ninguém sabe o que pode acontecer.


Valor: Como o Brasil ficaria com uma reforma bancária nos Estados Unidos?

Conceição: O Brasil tem um sistema financeiro público e privado. E os bancos privados não entraram em crise. Já tinham entrado em crise com o Fernando Henrique. Aí limparam e não deixaram de manter o controle. Não temos um sistema financeiro que opera "à la livre". Não existe isso. Temos regulação. Nosso problema básico é o câmbio. Tem que dar um jeito. A coisa cambial vai mudar no próximo governo. Não teremos mais esse presidente no Banco Central, e nem Dilma, nem Serra estão a favor dessa política cambial.


Valor: Obama disse que o cara é o Lula...

Conceição: É. O Lula, um gênio político, mistura de Vargas e JK, uma liderança do povo brasileiro que tem uma sorte danada, ademais de ser muito competente. Tem que ter competência e sorte. As coisas têm que estar a favor.


Valor: Como é sua avaliação do governo Lula?

Conceição: Muito boa. Esta é a minha avaliação e de 70% da população. Na verdade, só a classe média dita ilustrada e a grande imprensa são contra. Contra também não sei o quê. Caiu a inflação. Portanto, mantiveram a política econômica dura que diziam que não iam manter, mas mantiveram. Contra meu ponto de vista. Perdi a parada, mas fico contente que tenha perdido, porque naquela altura ia ser complicado. Como estava tudo fora do lugar, era muito ousado fazer uma política alternativa no início do primeiro mandato. Do ponto de vista da política macro, eles começaram a fazer coisas no segundo mandato. Mas não creio que vão terminar. Fizeram o correto na infraestrutura, contemplando obras nas regiões Norte e Nordeste, como a ferrovia Transnordestina, a Norte-Sul, a transposição do rio São Francisco e portos. O PAC é uma seleção de projetos muito pesada e muito boa, de que não convém desviar. Também acertaram na política social, com o Bolsa Família. O governo Lula está tocando três coisas importantes: crescimento, distribuição de renda e incorporação social. E ainda por cima fez uma política externa independente. Por que acha que ganhamos a Olimpíada? [a escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos, em 2016]. Porque passamos a ter prestígio de fato lá fora.


Valor: Como vê a questão ambiental no mundo e no Brasil, às vésperas da reunião de Copenhague?

Conceição: Para variar, os Estados Unidos não assinam meta nenhuma. O país de Obama, digo, o Departamento de Estado, não assina nada. O problema ambiental está complicado e complexo. No Brasil, independente do desmatamento da Amazônia, a floresta vai sofrer com o aquecimento global. Mas a coisa da Amazônia, no nosso caso, é importante e é difícil. Mas não somos decisivos para o aquecimento global. Decisivos são os Estados Unidos e a China.


Valor: A exploração do petróleo das camadas do pré-sal pode impactar as boas intenções ambientais do Brasil?

Conceição: Começamos com a ideia do verde, o álcool combustível, mas, agora que veio o pré-sal, ninguém fala mais nisso. Agora, tudo vai depender do próximo governo.



sábado, 10 de outubro de 2009

O BLOG QUE EU GOSTARIA DE TER CRIADO


Acidentalmente, navegando pelo blog ABUNDA CANALHA, tomei conhecimento do blog THE CLASSE MEDIA WAY OF LIFE. Fantástico!!! À medida que fui lendo fui ficando cada vez mais entusiasmado. Tudo o que eu penso (ou quase tudo) está lá! Por isso, e como sempre, pois não tenho tido realmente tempo para sentar e escrever artigos só meus, vou colocar abaixo a transcrição de alguns trechos do blog.


Domingo, 4 de Outubro de 2009
dica 032 - Colocar a culpa no Lula
"Culpa do Lula" é um expediente médio-classista que caracteriza qualquer coisa que possa dar errado no Brasil. É um híbrido de "transferência de responsabilidades" com "senso de posição social", dois conceitos interligados que compõem a filosofia de vida da Classe. Logo, para ingressar neste grupo especial da nossa sociedade, será necessário aprender a vincular o nome do ex-metalúrgico a qualquer evento ou constatação negativa que envolva o Brasil. Afinal, não basta ignorar o presidente. A revista, a tevê, o jornal e tudo aquilo em que você acredita urram para que você o odeie. Obedeça.

Um bom estudo de caso consiste na observação das reações e do posicionamento da Classe Média em relação à disputa para sede das Olimpíadas de 2016.Imagine voltar a alguns dias antes da escolha da cidade sede dos Jogos Olímpicos. Como bom membro da Classe Média, você primeiramente duvidaria, com todas as suas forças, da capacidade do governo brasileiro conseguir uma coisa dessas. Culpa do Lula. Um país tão bagunçado assim nunca será capaz de trazer pra cá um evento tão importante, de gente civilizada, uma coisa tão grandiosa e que nos traria tantos benefícios. Nosso presidente é despreparado e a comunidade internacional não o leva a sério. Culpa do Lula de novo.


Com o passar dos dias, a televisão (sua janela límpida e cristalina para a verdade sobre o mundo) lhe informaria que as chances são reais. E se o Rio vencer, não haverá culpa de nada para imputar no Lula. Isto seria capaz de botar em parafuso a cabeça do cidadão, tal qual um software mal programado com erro de sintaxe - um legítimo fatal error. Felizmente o cérebro humano possui mecanismos que impedem esse tipo de conflito: o médio-classista automaticamente começa a reconsiderar sua opinião sobre os Jogos Olímpicos, uma forma de desfazer esse nó nos neurônios.


O Rio está quase ganhando. A partir desse momento, o cidadão de Classe Média já conjectura se ser sede de Olimpíadas é realmente bom para o Brasil. Afinal, somos um país de terceira, violento, corrupto e pobre. Culpa do Lula. Tomara que o Rio perca. Aí, sai o anúncio: o Rio venceu. Agora, o médio-classista tem certeza de que isso é ruim. Além de ser um desrespeito com o Primeiro Mundo, um evento desse porte tem tudo para ser um fracasso em terras brasileiras. Vão desviar esse dinheiro, que deveria ser investido em educação e saúde (finja que você se importa, não interessa se você é usuário de educação e saúde privadas). E o dinheiro dos seus impostos vai pra mão dos políticos, que vão roubar quase tudo. Culpa do Lula (ignore que ele não será o Presidente em 2016).


Conclusão: para ser da Classe Média, a “Culpa do Lula” precisa ser uma entidade tão sagrada para você, que te faça torcer com ardor e sinceridade para que o Brasil perca essa ou qualquer disputa. Pois só assim você poderá pronunciar "culpa do Lula", em tom de palavras mágicas, sentando em seu sofá quentinho e macio, cercado pelas grades do condomínio, tomando seu café e vestido com seu roupão felpudo. Esta será a sua fórmula para dormir tranquilo depois do Fantástico.

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* com a colaboração direta da caixa de comentários, em especial o palpiteiro Roberto.
Postado por Pierre às 11:50 114 palpiteiros
Terça-feira, 29 de Setembro de 2009
dica 031 - Pagar pau pra gringo

Se existe um tipo de pessoa pela qual a Classe Média nutre a mais sincera devoção e idolatria, estes são os gringos. Gringos, para o médio-classista, são como seres de outro mundo, seres iluminados de uma esfera superior, de um planeta onde tudo é ao contrário do Brasil: não há pobres, o trânsito funciona, todo mundo é educado, as ruas são limpas e todo mundo é bonito e veste marcas conhecidas.


Quando um gringo vem ao Brasil, a Classe Média se apressa em fazê-lo se sentir o mais confortável possível. Ele passa a ser o centro das atenções. Se for um intercambista, ficará no melhor quarto da casa do hospedeiro. A comida terá um incremento inédito de qualidade, a limpeza será realizada com o maior apuro possível, e muitas vezes até a decoração terá que mudar, de modo a denotar que os donos da casa, apesar de brasileiros, possuem refino e bom gosto. Se for turista, fará também a alegria dos comerciantes em geral.


Nossa Classe Média mostrará como podemos ser um povo bem hospitaleiro (aliás, esta talvez seja a única situação na qual o médio-classista se incluirá na definição de "povo"). O gringo se surpreenderá com o esforço que as pessoas farão para se comunicar com ele em inglês, ao invés de ele ter que seguir o caminho normal, aprendendo um mínimo do idioma local. O gringo será sempre a companhia mais desejada em público. O status de ser amigo de um estrangeiro, entre a Classe Média, não tem preço. Se você tiver esse privilégio, aprendiz de médio-classista, terá que fazê-lo demonstrando, com o olhar e o sorriso altivo, aquele sentimento de estar um patamar acima dos seus iguais. Enquanto for coadjuvante de gringo, você despertará a inveja e o respeito nos corações da Classe.


Logicamente, para se encaixar na categoria “gringo”, nem todo estrangeiro é permitido. A prioridade, claro, é para estadunidenses e europeus ocidentais. Depois vêm os naturais de países anglófonos “de primeiro mundo”, seguido pelos asiáticos “de primeiro mundo”. Pessoas de países em situação econômica pior que a do Brasil não são facilmente aceitas nesta condição. Neste caso, é bom que seja uma pessoa loira. Mas, na falta de um gringo "tipo A" para esfregar na cara do resto da Classe Média, até argentino está valendo.

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Nota:

A demora na postagem teve motivo. O Classe Média Way of Life foi temporariamente bloqueado pelo Blogger, na suspeita de desrespeito aos Termos de Serviço. Após o pedido de análise, ainda tive que esperar alguns dias antes que o engano fosse constatado. Blog liberado, vamos em frente com a carruagem.
Postado por Pierre às 20:01 51 palpiteiros
Domingo, 20 de Setembro de 2009
dica 030 - Praticar o "cada um por si" no trânsito
Para quem quer se comportar como a Classe Média brasileira, um ótimo ambiente de observação é o trânsito de nossas grandes cidades. Ali podemos estudar, por imersão total e com riqueza de detalhes, os valores deste peculiar grupo social.

O médio-classista encara o trânsito como se fosse uma grande batalha em defesa do seu direito individual prioritário de ir e vir, o que significa que cada indivíduo da Classe, no trânsito, tem prioridade um sobre o outro e vice-versa (numa estranha equação ainda não resolvida pela matemática). E todos têm prioridade sobre os pedestres (este ponto já é bem mais fácil de entender).

Para encarar o trânsito, cada cidadão da Classe deve estar equipado com seu carro. Se uma moradia médio-classista possui, por exemplo, 4 habitantes em idade para serem condutores, o ideal é que ali haja 4 carros. O carro é uma importante propriedade desses cidadãos, e seu interior é seu mundo particular, uma extensão de sua casa sobre rodas. Por isso, o carro para este público precisa ser equipado com "insulfim", equipamento de som, ar-condicionado e lugar para no mínimo cinco passageiros (para levar objetos e peças de vestuário, uma vez que raramente o carro do médio-classista trafega com mais de uma pessoa além do motorista). Tudo isso garante que o que realmente importa (o mundo particular do condutor) esteja muito agradável, a fim de evitar o contato com o mundo exterior, totalmente desprezível. Para este, há um mecanismo de comunicação denominado buzina.

Você, aprendiz de médio-classista, precisa aprender que, para ser da Classe, é necessário se revoltar com as atuais condições do trânsito. Assim, no seu papel de cidadão politizado e pagador de impostos, deve exigir das autoridades que abram espaço na cidade para mais carros. Que desapropriem, botem a cidade abaixo, mas garantam a duplicação das vias até resolver o problema (o que provavelmente será quando a cidade for um grande plano de asfalto). Fique revoltado também pelo fato de o Governo se preocupar mais em, violentamente, coibir seu direito sagrado de ingerir álcool, do que abrir mais acessos pro seu carro trafegar mais rápido.

Também é preciso aprender a se comportar neste ambiente. Se você quiser se parecer realmente com alguém da Classe, ande sempre na frente dos outros. Se alguém sinalizar que quer mudar de faixa e ficar à sua frente, mesmo que você esteja um pouco longe, acelere loucamente para passar à frente dele antes que ele realize a manobra. Logo, sabendo que todos agirão assim, dispense o uso da seta (pode até pedir o mecânico para desativar a sua). Você não tem que dar satisfações sobre pra que lado vai virar ou se quer ou não mudar de faixa.

Portanto, aspirante, o primeiríssimo passo para entrar na Classe é abandonar o transporte coletivo, o metrô e até mesmo a bicicleta (esta somente pode ser usada para lazer, e mesmo assim, deve ser transportada de carro até o local do uso). No transporte coletivo você está num espaço público, sujeito a ficar perto de pobres e nada ali é "só seu". É muito melhor que você trafegue dentro de sua bolha de vidro e metal, "privatizando" (aprenda a adorar esta palavra) cerca de 10m² do espaço público, com uma máquina de 1000kg que queimará petróleo para transportar uma pessoa de 70kg, a fim de garantir seu merecido bem-estar até seu destino. Você tem direito, você é da Classe Média.



terça-feira, 29 de setembro de 2009


Navegando pelo blog "Vi O Mundo", do Azenha, encontrei o artigo abaixo, que reproduzo, porque achei realmente importante divulgar.



A ascensão do Brasil: Mais rápido, mais forte, mais alto


Sediar as Olimpíadas de 2016 seria a cobertura no bolo da nação sul americana, que finalmente está preenchendo seu potencial

por Hugh O'Shaughnessy, no jornal britânico Independent

Sunday, 27 September 2009


Deus pode não ser brasileiro, como muitos dos moradores do Rio de Janeiro orgulhosamente garantem, mas o Todo Poderoso parece mexer as suas asas influentes na direção da Cidade Maravilhosa, a Marvellous City do Atlântico Sul, no momento em que a cidade joga tudo para sediar as Olimpíadas de 2016. Suas três rivais, Tóquio, Madrid e Chicago, parecem perder força enquanto chega O Dia em cinco dias. No dia 2 de outubro a cidade vencedora será anunciada em Copenhague, assistida por um bilhão de telespectadores em todo o mundo.

Na terça-feira, em Brasília, senadores aprovaram legislação para garantir tudo o que se requer para uma proposta vencedora -- de financiamento a regulamentos para evitar que donos de hotéis cobrem acima do preço pelas diárias. O New York Times parece ter desistido da Cidade da Ventania [Chicago] às margens do Lago Superior, na quarta-feira, sugerindo que o presidente brasileiro, Luís Inácio da Silva, que todos chamam de Lula, tinha o trabalho mais fácil do mundo para garantir o prêmio. Lula, o ex-metalúrgico e líder sindicalista que anos atrás perdeu um dedo em uma prensa hidráulica, confessou que tinha a vantagem. Ele será acompanhado em Copenhague pela sua esposa, Marisa, enquanto Michelle Obama estará lá sem o marido. "Será dois contra um", disse Lula com prazer disfarçado.

A votação do próximo mês poderia ser um marco na jornada do Brasil para deixar de ser o eterno país do futuro -- para o qual o futuro nunca chega -- e para se tornar um indisputável poder mundial, com uma presença permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e o dinheiro para alimentar, educar e cuidar de sua população de quase 200 milhões.

Lula, que quando criança suplementava o orçamento da mãe vendendo amendoim em torno do porto de Santos, aproveita de sua nova eminência, de sua liberdade para culpar a atual crise financeira "nos banqueiros de olhos azuis" e do respeito adquirido. O pânico dos banqueiros e o alarme da mídia na City de Londres e em Wall Street nos meses que antecederam sua maciça vitória eleitoral em 2002 são coisas do passado. Hoje o Brasil é um dos BRICs, junto com a Rússia, a Índia e a China e é admirado por banqueiros e economistas. E não apenas o presidente Obama o chama o líder mais popular do mundo mas, depois de um período em que a corrupção governamental parecia a caminho de derrubá-lo, Lula tem uma taxa de aprovação com os eleitores de cerca de 80%.

Não mais um caso clássico de país em luta contra a hiperinflação, o Brasil olha adiante para um tsunami de riquezas que vai tomar conta da Petrobras, a altamente bem sucedida empresa de petróleo controlada publicamente, que atingirá produção total nos enormes campos de águas profundas. Lula faz planos para usar esse novo dinheiro para corrigir abusos que resultaram do golpe militar de 1964, apoiado pelo Ocidente, e dos anos subsequentes de repressão selvagem e tortura, que derrubaram os padrões de vida do próprio Lula e de outros milhões de pobres brasileiros. O Brasil também é um grande exportador de comida -- o que é confortável num momento em que a fome cerca vários lugares.

As últimas semanas demonstraram que Lula está sacando da riqueza futura para ter mais influência internacional hoje. O primeiro chefe de estado a falar no debate da Assembléia Geral das Nações Unidas na quarta-feira, ele entrou na frente do discurso de 90 minutos do coronel Gaddafi, que chateou todos os presentes. Lula aproveitou a oportunidade para atacar as idéias dos poderes ocidentais durante a crise financeira internacional. "O que desabou foram conceitos sociais, políticos e econômicos aceitos como inquestionáveis", ele disse, num forte golpe a políticos e banqueiros que se opunham à regulamentação governamental. Os esforços de Lula ajudaram a esmagar o Grupo dos Oito dos países ricos, que será substituído pelo Grupo dos 20, que inclui países em desenvolvimento que se encontraram na quinta-feira em Pittsburgh para reformar as finanças mundiais.

Na Assembléia Geral Lula também pediu ação contra o golpe em Honduras, onde a embaixada brasileira dá abrigo a Manuel Zelaya, o presidente legítimo derrubado em 28 de junho por um impostor com apoio militar. Lula está pedindo ao Conselho de Segurança ação contra o crescentemente bárbaro novo regime, com ameaça do emprego de toda a força da lei internacional, particularmente se o regime continuar a deixar diplomatas brasileiros e seus hóspedes sem energia, água e comida. A ação brasileira, apoiada de perto pelo governo venezuelano, pegou Washington de surpresa, expondo uma divisão clara entre Obama, que quer ação decidida para restaurar Zelaya, e uma vacilante Hillary Clinton, cujos assessores direitistas tem outras ideias.

Lula é, também, um dos líderes do bloco da União Sul-Americana de Nações. A Unasur resiste à militarização da América do Sul que muitos acreditam que vai acontecer se a Colômbia, um aliado próximo dos Estados Unidos, permitir que o Pentágono estabeleça sete novas bases em suas terras; elas permitiriam que os Estados Unidos despachassem caças para qualquer parte do continente com exceção da Patagônia. Como precaução, Lula está comprando armas da França e da Rússia.

Em suas tentativas de acelerar a unidade latino-americana, Lula tem corrido riscos políticos em casa, enfrentando empresas de energia elétrica poderosas. Para cimentar as relações com seu vizinho pobre, o Paraguai, Lula prometeu um novo acordo para o uso da energia da gigantesca hidrelétrica de Itaipu, que supostamente deveria ser usada igualmente pelos dois países mas que de fato vai quase toda para o Brasil.

Ainda assim, se o Rio vencer na sexta-feira, Lula voltará à tarefa de dar esperança aos despossuídos da cidade -- para garantir que as primeiras Olimpíadas na América do Sul ocorram pacificamente.

Para quem quiser ler o artigo original o link é
http://www.independent.co.uk/news/world/americas/the-rise-and-rise-of-brazil-faster-stronger-higher-1793848.html



domingo, 27 de setembro de 2009



O CÉREBRO HUMANO E O EXCESSO DE INFORMAÇÕES

Tomei a liberdade de transcrever abaixo um artigo publicado no blog AUTOentusiastas, que achei realmente interessante e que merece ser divulgado. 



GPS on, cérebro off

Postado por André Dantas


Desde a popularização do GPS como instrumento-guia para que as pessoas se desloquem de um ponto a outro com precisão, temos ouvido repetidas vezes na imprensa toda uma série de acidentes esdrúxulos, sem o menor senso crítico.

É como se as pessoas ligassem seus GPS e junto desligassem seus cérebros. Os números são assustadores.

Segundo o jornal inglês Mirror, uma pesquisa que levou em conta um universo de 14 milhões de usuários de GPS levantou fatos desconcertantes. Pelas estatísticas, estimou-se que:
- 300.000 motoristas sofreram ou quase sofreram algum tipo de acidente seguindo orientações do GPS;
- 1,5 milhões de motoristas mudaram repentinamente de direção, por indicação do aparelho;
- 5 milhões receberam indicações de conversão na contramão;
- 1 em cada 10 motoristas alega que cometeu infrações ou manobras perigosas seguindo as ordens do aparelho.

Estes números são graves, e indicam um aumento do número de acidentes com o crescimento do uso do GPS.

É difícil para nós compreender como acidentes aparentemente tão sem sentido possam acontecer, causados pelo GPS. Qual seria a origem deste fenômeno?

A resposta, por incrível que pareça, está na estrutura do nosso cérebro.

O cérebro é um órgão que se desenvolveu ao longo de milhões de anos, servindo para orientar o organismo dentro de um ambiente hostil e pouco previsível. Porém, diferente dos computadores a que estamos acostumados, o cérebro não seguiu uma linha lógica de evolução.

Um dos mecanismos-chave de qualquer cérebro de sucesso é a capacidade de resposta rápida a estímulos. Se um animal é atacado de surpresa por um predador, o cérebro não tem tempo para processar muita informação. Há um circuito cerebral elementar (e por isso de resposta muito rápida) que faz o animal dar um salto na direção oposta ao do predador.

Podemos estabelecer uma linha evolutiva do cérebro junto com a evolução das espécies. O cérebro dos peixes é bastante primitivo, reagindo de forma simples ao ambiente que o cerca. Não é um cérebro evoluído que resolva problemas muito complexos, mas que oferece grande diversidade de respostas rápidas a estímulos ambientais.

Já os répteis possuem um cérebro bem mais evoluído, mas que veio originalmente do cérebro dos peixes. A evolução do cérebro dos répteis não criou algo novo, mas adicionou camadas extras ao cérebro dos peixes, e a interação entre as camadas antigas e as mais recentes é complexa. Em algumas situações, os circuitos de resposta rápida da camada mais primitiva foi suprimida em favor de outro circuito na camada mais evoluída. Em outras situações, há dois circuitos, um primitivo e outro mais evoluído, trabalhando em paralelo para oferecer respostas ao mesmo estímulo.

O ser humano, sendo um mamífero, possui camadas sobrepostas ao cérebro de nossos ancestrais longínquos. Assim, temos desde mecanismos primitivos vindos dos peixes, passando pelos de répteis, e com um córtex de mamífero extremamente desenvolvido.
Nosso cérebro é o mais complexo de toda a natureza, e, portanto, o que mais oferece riqueza de respostas a estímulos.

O ser humano evoluiu de espécies de macacos que viviam em bandos. Estes bandos possuem uma estrutura social, e, o que talvez seja surpreendente, muitas estruturas do nosso cérebro são voltadas para facilitar este convívio social. Há vários circuitos de resposta rápida em nossos cérebros para situações sociais.

Podemos ver isto em ação em nossas vidas. Na escola ou no trabalho, nunca se forma um grupo único. Gostamos de formar vários grupos menores (também conhecidos como “panelinhas”).
Torcidas esportivas é um outro tipo de grupo, e grupos dentro da torcida é uma nova divisão dentro de um grupo maior. É assim porque nossa capacidade de formar grupos está impressa em nossos cérebros.

O mesmo mecanismo explica a violência de torcidas. Num bando de predadores, quando um do grupo é atacado, a resposta rápida do cérebro é revidar a agressão contra o agressor, defendendo o membro atacado. Brigas de torcida começam entre poucos elementos, mas o clima de defesa e retaliação se propaga entre duas massas de pessoas que, fora dos estádios, são pacatos e honestos cidadãos. Este comportamento grupal tem paralelo direto no comportamento de matilhas de lobos que nossos cães herdaram.

Dentre estes comportamentos imediatos há um em particular. É a capacidade de seguir ordens de forma imediata e sem questionamentos.

Durante uma caçada, o risco sempre era enorme. Se desse algo errado, o perigo rondava a todos. Num grupo de caçadores, a coesão do grupo e o sincronismo de cada membro era fundamental para uma caçada ser feita com êxito e o mínimo risco. Não havia tempo para pensar ou questionar. Um líder dava as ordens e os demais obedeciam. Circuitos cerebrais de resposta rápida foram estabelecidos favorecendo este aspecto social.

No entanto, como a evolução humana foi muito rápida, estes mecanismos cerebrais não tiveram tempo de serem desarmados ou suprimidos. Ainda somos muito parecidos com nossos ancestrais trogloditas.

GPS possuem sintetizadores de voz com frases previamente gravadas. Elas são pronunciadas de maneira firme e compassada, e em nada carregando a entonação em sincronismo com a situação vivida pelo motorista.

Se o motorista estiver dirigindo “no automático” (usando circuitos cerebrais mais primitivos que guiam suas ações), então muitas de suas atitudes ao volante não passam pelo crivo da parte crítica racional que está no córtex, e interpretar e obedecer de forma imediata a voz do GPS como uma ordem dada por um líder é um passo. Esta é a razão para tantos desatinos ao volante na presença de um GPS-guia.

O uso de computadores tem agravado um aspecto da vida moderna. Há um limite de fluxo de informações com as quais o cérebro é capaz de lidar, e com os computadores esse volume cresceu muito nos últimos anos.

Antigamente, o motorista tinha apenas que dirigir e conversar com os passageiros. Hoje ele tem de dirigir, controlar a velocidade para não ser multado, atender ao celular (e ter de segurar o aparelho junto ao ouvido), seguir as indicações visuais e auditivas do GPS, com a pouca distância dos carros ao lado e o tempo perdido nos congestionamentos, informações do trânsito passadas pelo rádio.
Algumas pessoas não toleram esse volume de informação, e passam a realizar várias destas tarefas no “automático” (usando circuitos cerebrais primitivos e sem senso crítico). O resultado, algumas vezes, é o desastre.

Este fenômeno foi observado pelos militares quando entraram em serviço as aeronaves hoje em operação, como o F-15 e o F-14. A resposta à crescente carga de informações sobre o piloto direcionou muitos dos desenvolvimentos de substitutos, como o F-22 e o F-35, onde funções mais “prosaicas” como pilotar o avião são passadas do piloto para os computadores de bordo, permitindo ao piloto se concentrar na parte mais crítica da missão.

Hoje, a sobrecarga de informações e a resposta instintiva inapropriada a várias delas já vem sendo considerada como doença epidêmica pelos especialistas.

Fica a questão de quanto tempo irá demorar para que os computadores embarcados passem a agir por conta própria para evitar enganos cometidos pelo prodigioso cérebro humano.



sábado, 5 de setembro de 2009

INDIGNAÇÃO

Esta semana, passando por uma banca de jornais, tive o desprazer de ver a capa da revista Veja: fiquei completamente indignado! Que manipulação cínica e descarada. E o pior..... é uma revista lida por uma classe média politicamente cega e surda que a usa, pasmem, como fonte de referência em suas conversar sobre política. Nessa mesma semana eu estava almoçando e não pude deixar de ouvir a conversa de dois típicos exemplares desse grupo pseudo-informado. Falavam alto e portanto era impossível deixar de ouvir, infelizmente. Começaram com um papo consumista e fútil, sobre as maravilhas tecnológicas do último modelo de telefone celular da Nokia. Depois desembestaram a falar de política e aí um deles declarou sua fonte de enformação (é assim mesmo): a dita cuja revista acima mencionada. E aí, com aquele ar de quem sabe o que está falando, porque é bem informado, ele começou a falar de "como a Dilma se queimou com esse escândalo....." e outras baboseiras mais, bla, bla, bla, .....  Eu comecei a acelerar a mastigação, coisa que não gosto de fazer, para poder sair dali logo, pois a conversa idiota estava me deixando enojado. . A cada dia que passa estou ficando mais desanimado com relação às possibilidades de mudança. Estamos cercados de gente desse tipo, por todos os lados, sem nenhuma possibilidade de mudança à vista, pois esse tipo de mídia canalha domina as revistas, jornais, televisão e rádio. Sobra somente a internet mas apenas as pessoas de mente aberta, interessadas em conhecer todas as versões dos fatos, vão em busca de informação nesse meio de comunicação. Quando eu disse sem possibilidade eu exagerei, afinal existe a internet! A salvação da boa informação!

Por mais que eu queira falar de coisas bonitas e agradáveis, não posso deixar de registrar minha revolta e para acrescentar mais conteúdo a esse meu sentimento, transcrevo abaixo o excelente artigo do jornalista Altamiro Borges, no Blog do Miro.


Publicado no Blog do Miro, na sexta-feira, 04/09/2009


MST e as ações criminosas da revista Veja

Os editores da revista Veja são de um cinismo depravado. Na edição desta semana, este panfleto da direita colonizada estampou mais uma capa com ataques ao MST. A manchete provocadora: “Abrimos o cofre do M$T”. A foto montagem: um boné da organização com dólares e reais. A chamada: “Como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra desvia dinheiro público e verbas estrangeiras para cometer seus crimes”. Na “reporcagem” interna, nenhuma entrevista com lideranças dos sem-terra e nenhuma visita às escolas e assentamentos produtivos do MST.

Como arapongas ilegais, ela se jacta de que “teve acesso às movimentações bancárias de quatro entidades ligadas aos sem-terra. Elas revelam como o governo e organizações internacionais acabam financiando as atividades criminosas do movimento”. As quatro entidades – Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária (Concrab), Centro de Formação e Pesquisas Contestado (Cepatec) e Instituto Técnico de Estudos Agrários e Cooperativismo (Itac) – “receberam 43 milhões de reais em convênios com o governo entre 2003 e 2007”, resmunga a revista da Editora Abril, que sempre saqueou os cofres públicos.

Uma “reporcagem” interesseira

O novo ataque ao MST não é gratuito. Ele ocorre poucos dias após a jornada nacional de luta por mais verbas para a reforma agrária e pela atualização dos índices de produtividade, usados como parâmetros legais para a desapropriação de terras. Diante da sinalização do governo Lula de que atenderia as justas reivindicações, a revista Veja resolveu sair em defesa dos latifundiários e dos barões do agronegócio. Não há nenhuma investigação jornalística sobre as premiadas iniciativas educativas e sociais do MST. Apenas opiniões preconceituosas para criminalizar o movimento. Seu objetivo é asfixiar financeiramente o MST, fragilizando a heróica luta pela reforma agrária.

Daí a “reporcagem” esbravejar, num tom fascistóide, que “o MST é movido por dinheiro, muito dinheiro, captado basicamente dos cofres públicos e junto às entidades internacionais. Ao ocupar ministérios, invadir fazendas, patrocinar um confronto com a polícia, o MST o faz com dinheiro de impostos pagos pelos brasileiros e com o auxílio de estrangeiros que não deveriam se imiscuir em assuntos do país”. A matéria também serve de palanque para o tucano José Serra. “Aliados históricos do PT, os sem-terra encontraram no governo Lula uma fonte inesgotável de recursos para subsidiar suas atividades”. E ainda estimula intrigas. “O governo Lula agora experimenta o gosto da chantagem de uma organização bandida que cresceu sob seus auspícios”.

Resposta corajosa do MST

O MST já respondeu com altivez às provocações. “Não há nenhuma novidade na postura política e ideológica desses veículos, que fazem parte da classe dominante e defendem os interesses do capital financeiro, dos bancos, do agronegócio e do latifúndio, virando de costas para os problemas estruturais da sociedade e para as dificuldades do povo brasileiro. Desesperados, tentam requentar velhas teses de que o movimento vive à custa de dinheiro público. Aliás, esses ataques vêm justamente de empresas que vivem de propaganda e de recursos públicos ou que são suspeitas de benefícios em licitações do governo de São Paulo, como a Editora Abril”.

Quanto aos ataques, a nota é elucidativa. “Em relação às entidades que atuam nos assentamentos de reforma agrária, que são centenas trabalhando em todo o país, defendemos a legitimidade dos convênios com os governos federal e estaduais e acreditamos na lisura do trabalho realizado. Essas entidades estão devidamente habilitadas nos órgãos públicos, são fiscalizadas e, inclusive, sofrem perseguições políticas do TCU (Tribunal de Contas da União), controlado atualmente por filiados do PSDB e DEM. Elas desenvolvem projetos de assistência técnica, alfabetização de adultos, capacitação, educação e saúde em assentamentos rurais, que são um direito dos assentados e um dever do Estado, de acordo com a Constituição”.

Um negócio de 719 milhões de reais

Em mais este ataque colérico, a revista Veja prova que é imoral e cínica. Tudo que publica serve a objetivos políticos precisos, mas embalados na manipulação jornalística. De fato, muita coisa precisa ser investigada no país. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a mídia tornou-se uma urgência. No caso da Editora Abril, que condena o “auxílio de estrangeiros que se imiscuem em assuntos do país”, seria útil averiguar sua própria origem, quando o empresário estadunidense Victor Civita se mudou para São Paulo, em 1949, trazendo na bagagem um sinistro acordo com a Disney. Não é para menos que muitos o acusaram de “agente do império” e de servidor da CIA.

Quanto aos recursos públicos, seria necessário apurar as compras milionárias do governo tucano de José Serra das publicações da Abril. O Ministério Público Federal inclusive já abriu processo para investigar o caso suspeito. No embalo, poderia averiguar as recentes denúncias do jornalista Carlos Lopes, editor do jornal Hora do Povo. No artigo intitulado “O assalto do grupo Abril aos cofres públicos na venda de livros do MEC”, com base em dados do Portal da Transparência, ele mostra que “nos últimos cinco anos, o Ministério da Educação repassou ao grupo Abril a quantia de R$ 719.630.139,55 para compra de livros didáticos. Foi o maior repasse de recursos públicos destinados a livros didáticos dentre todos os grupos editoriais do país”.

A urgência da CPI da mídia

“Nenhum outro recebeu, nesse período, tanto dinheiro do MEC. Desde 2004, o grupo da Veja ficou com mais de um quinto dos recursos (22,45%) do MEC para compra de livros didáticos... O espantoso é que até 2004 o grupo Civita não atuava no setor de livros didáticos. Neste ano, o grupo adquiriu duas editoras – a Ática e a Scipione. Por que essa súbita decisão de passar a explorar os cofres públicos com uma inundação de livros didáticos? Evidentemente, porque existe muito dinheiro nos cofres públicos... O MEC, infelizmente, está adotando uma política de fornecer dinheiro público para que o Civita sustente o seu panfleto – a revista Veja”.

“Exatamente essa malta, cínica e pendurada no dinheiro público, acusa o MST de ter recebido, de 2003 a 2007, R$ 47 milhões em alguns convênios com o governo federal... Já o Civita recebeu só do MEC, entre 2004 e 2008, R$ 719 milhões, isto é, 17 vezes mais do que o MST – e não foi para trabalhar, mas para empurrar livros didáticos duvidosos, e a preço de ouro”, critica Carlos Lopes. Como se observa, uma CPI da mídia é urgente.
Postado por Miro às 14:47

domingo, 23 de agosto de 2009

O IMPÉRIO E OS ROBÔS


O artigo abaixo foi escrito por um grande lider político, respeitado mundialmente, apesar de suas convicções políticas. Merece ser lido e divulgado. 

Deixo a vocês o trabalho de descobrir quem é. Depois eu conto. 

O império e os robôs

Há pouco, abordei os planos dos Estados Unidos para impor a superioridade absoluta de suas forças aéreas como instrumento de dominação sobre o resto do mundo. Mencionei o projeto de contar em 2020 com mais de mil bombardeiros e caças F-22 e F-35 de última geração na sua frota de 2.500 aviões militares. Dentro de 20 anos, todos seus aviões de guerra serão operados por autômatos.


Os orçamentos militares sempre contam com o apoio da imensa maioria dos legisladores norte-americanos. Quase não há estados da União onde o emprego não dependa, em boa medida, da indústria da defesa.

Em nível mundial e com valor constante, as despesas militares se dobraram nos últimos dez anos como se não existisse perigo algum de crise. Neste momento, esta é a indústria mais próspera do planeta.

Em 2008, ao redor de US$1,5 trilhão se investiu nos orçamentos dedicados à defesa. Os 42% dos gastos mundiais nesse setor, US$607 bilhões correspondiam aos Estados Unidos, sem incluir as despesas de guerra; ao passo que o número de famintos no mundo atinge a cifra de 1 bilhão de pessoas.

Há dois dias, uma agência de notícias ocidental informou que, em meados de agosto, o exército dos Estados Unidos exibiu um helicóptero teledirigido, bem como robôs capazes de executarem trabalho de sapa, 2.500 dos quais foram enviados para as regiões de combate.

Uma firma comercializadora de robôs afirmou que as novas tecnologias iriam revolucionar o modo de comandar a guerra. Foi publicado que, em 2003, os Estados Unidos mal possuíam robôs em seu arsenal e “hoje contam ―segundo a AFP― com 10 mil veículos terrestres, bem como com 7 mil dispositivos aéreos, desde o pequeno Raven, que pode ser lançado com a mão, até o gigante Global Hawk, um avião-espia de 13 metros de comprimento e 35 de envergadura, capaz de voar a grande altitude durante 35 horas”. Essa notícia menciona outras armas.

Enquanto essas despesas colossais em tecnologias para matar são produzidas nos Estados Unidos, o presidente desse país envida esforços para levar os serviços de saúde a 50 milhões de norte-americanos que carecem deles. É tal a confusão, que o novo presidente declarou: “Estava mais próximo do que nunca de conseguir a reforma do sistema de saúde, mas a luta se está tornando feroz.”

“A história é clara — acrescentou — cada vez que temos a reforma sanitária no horizonte, os interesses especiais lutam com todo aquilo que têm a seu alcance, usam suas influências, lançam suas campanhas publicitárias e utilizam seus aliados políticos para apavorar o povo estadunidense.”

O certo é que em Los Ángeles 8 mil pessoas ―a imensa maioria desempregada, segundo a imprensa― se reuniram num estádio para receber atendimento de uma clínica gratuita itinerante que presta serviços no Terceiro Mundo. A multidão tinha pernoitado ali. Alguns percorreram centenas de quilômetros de distância.

“‘Não me importa se é socialista ou não. Somos o único país no mundo onde os mais vulneráveis não temos nada’, disse uma mulher de um bairro negro e com educação superior.”

Informa-se que “um teste de sangue pode custar US$500 e um tratamento odontologógico de rotina mais de mil.”

Que esperança pode oferecer essa sociedade ao mundo?

Os lobistas no Congresso fazem seu agosto trabalhando contra uma lei simples que pretende dar atendimento médico a dezenas de milhões de pessoas pobres, negros e latinos na sua grande maioria, que carecem dele. Até um país bloqueado como Cuba conseguiu fazê-lo, e inclusive, cooperar com dezenas de países do Terceiro Mundo.

Se os robôs nas mãos das multinacionais podem substituir os soldados imperiais nas guerras de conquista, quem vai frear as multinacionais na busca de mercado para seus artefatos? Da mesma maneira que inundaram o mundo com carros que hoje concorrem com o homem pelo consumo de energia não-renovável e, inclusive, pelos alimentos transformados em combustível, também podem inundá-lo de robôs que substituam milhões de trabalhadores em seus postos de trabalho.

Ainda melhor, os cientistas poderiam também desenhar robôs capazes de governar; dessa maneira poupariam esse horrível, contraditório e confuso trabalho ao governo e ao Congresso dos Estados Unidos.

Sem dúvida, poderiam fazê-lo melhor e mais barato.

Fonte: Digital Grama Internacional


Cultura


Joaquim Nabuco

Com curadoria de Helena Severo e patrocínio da Icatu Holding e da CNI/Confederação Nacional da Indústria, exposição resgata a memória do diplomata, político, escritor, orador, poeta e memorialista Joaquim Nabuco, um dos mais ilustres homens públicos do Brasil.

Exposição "Joaquim Nabuco: Brasileiro, Cidadão do Mundo"

De 20/08 a 04/10/2009



Diplomata, político, escritor, orador, poeta e memorialista, o pernambucano Joaquim Nabuco completaria 160 anos no dia 19 de agosto de 2009.
Para celebrar a data, exposição, com curadoria de Helena Severo e patrocínio da Icatu Holding e da CNI/Confederação Nacional da Indústria, estará em cartaz no Museu Histórico Nacional de 20 de agosto a 4 de outubro.
"Joaquim Nabuco: Brasileiro, Cidadão do Mundo" faz uma retrospectiva da vida de um dos maiores abolicionistas brasileiros, cuja obra exerceu influência em intelectuais do porte de Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Hollanda, e traz à reflexão temas relevantes para a história do Brasil, como o liberalismo político, a história do Segundo Reinado e acontecimentos marcantes da vida diplomática do país.
A exposição está dividida em três módulos que, em ordem cronológica, narram a trajetória de Joaquim Nabuco: "A Infância e A Formação"; "O Abolicionista e o Pensador" e "O Diplomata e Cidadão do Mundo". Especialistas nas diversas fases da vida do homenageado assinam os textos, como o sociólogo Francisco Weffort, o jurista e diplomata Rubens Ricúpero e representantes da Fundação Joaquim Nabuco.
Com cenografia de Chicô Gouveia e animação do multimídia Marcello Dantas, a exposição apresenta objetos de uso pessoal de Nabuco, livros com dedicatórias, correspondências trocadas com figuras ilustres, como Machado de Assis, mobiliário e a réplica do Teatro Santa Isabel, no Recife, onde Nabuco costumava fazer seus pronunciamentos. Documento importante como o original da "Lei Áurea", assinada pela Princesa Isabel, assim como o estojo "Lembranças da Abolição", com a caneta que provavelmente foi utilizada pela Princesa no ato da assinatura da lei, integram a exposição.
Após o Rio de Janeiro, a exposição será apresentada em 2010, ano do centenário da morte de Nabuco, em Brasília e Recife.


Nabuco, Infância e Formação

Filho de uma família de advogados, promotores, juízes e políticos, Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no Recife, em 19 de agosto de 1849, e passou grande parte da infância no campo, onde viveu sob os cuidados da madrinha Ana Rosa Falcão de Carvalho, senhora do engenho de Massangana.
Sua vida foi profundamente marcada pelo contato direto com os escravos da casa grande e do campo, o que o levou, muito cedo, a compreender a crueldade e a iniquidade da escravidão.
Para retratar o módulo da Infância, o arquiteto e cenógrafo Chicô Gouveia transformou a entrada do Museu Histórico Nacional em um autêntico canavial. O visitante, ao percorrer este caminho, ouve músicas afro, até entrar na ambientação de um engenho, decorado com azulejos, em clima de Casa-Grande e Senzala.
Joaquim Nabuco estudou nas melhores escolas, como o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Era conhecido pelas conquistas amorosas, a elegância e a beleza, que lhe valeram o apelido de "Quincas, o belo". Na Faculdade de Direito de São Paulo e, logo depois, no Recife, onde se formou, destacou-se como orador e, aos poucos, como líder cultural e estudantil, aproximando-se de políticos de prestígio e de professores notáveis.
Enquanto se dedicava às atividades literárias, dava os primeiros passos na política, ao exercer liderança incontestável entre os acadêmicos ligados ao Partido Liberal. Esta fase é representada na exposição com cartões postais das cidades onde Nabuco estudou e imagens da época.


Retrato de José Tomás Nabuco de Araújo Filho, jurista e Senador do Império, pai de Joaquim Nabuco.




Joaquim Nabuco aos sete anos


Nabuco, Abolicionista e Pensador

Esse módulo focaliza a maior bandeira de Nabuco: a luta antiescravista.
Na sua terra natal, o jovem Nabuco marca sua posição ao apresentar-se no Tribunal de Recife para defender o escravo Tomás, que assassinara seu senhor.
Influenciado pelas idéias de Tobias Barreto, Sílvio Romero e Castro Alves, passa a escrever ensaios e artigos, além de "A escravidão", um pequeno e valioso livro que durante muito tempo esteve entre os guardados da família e que só seria publicado em 1988.
Entre as atrações deste módulo, tratado com fundo de madeira, está o original da "Lei Áurea", assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888. Numa réplica do Teatro Santa Isabel, os visitantes poderão assistir Nabuco pronunciando no palco um importante discurso, gravado na voz do ator Othon Bastos. É uma espécie de "retrato vivo" do homenageado, com recursos de animação desenvolvidos pelo multimídia Marcello Dantas.
O cenário mostra ainda objetos e imagens dos companheiros do abolicionista e da Academia Brasileira de Letras, da qual foi um dos fundadores, junto com Machado de Assis. Os livros no chão, como se fosse um grande tapete, simbolizam a ABL.


Estojo com lembranças da Abolição da Escravatura


Nabuco, Diplomata e Cidadão do Mundo

Em 1899, Joaquim Nabuco ingressa na fase diplomática, que se prolonga por quase onze anos.
Redigiu a defesa do Brasil na disputa com a Inglaterra sobre a fronteira da então Guiana Inglesa. Ao receber críticas dos monarquistas por aceitar a nomeação republicana, defendeu-se escrevendo o livro "Minha formação" (1900), onde se proclamou liberal, antes de monarquista.
Em 1900, chefiou a delegação brasileira em Londres, tornando-se, na prática, funcionário da República, no prestigioso posto da maior potência internacional da época, no final da era Vitoriana. Cinco anos depois, ao ser nomeado primeiro embaixador em Washington, estabeleceu excelentes relações com o então presidente Theodore Roosevelt.
Defendeu uma política panamericana, baseada na Doutrina de Monroe e recebeu títulos de doutor honoris causa de várias universidades americanas. Sua defesa de um sistema continental americano contribuiu para a criação da União Panamericana, embrião da futura Organização dos Estados Americanos (OEA).
A fase da diplomacia durou até sua morte prematura em 17 de janeiro de 1910, em Washington, aos 60 anos. Para o diplomata Rubens Ricúpero, "dos sucessores de Nabuco nos Estados Unidos, somente Oswaldo Aranha chegou perto na capacidade de somar à influência em alto nível na capital americana a irradiação política e cultural próprias junto aos meios dirigentes brasileiros".


Joaquim Nabuco com o fardão de Embaixador da República




Espada que compunha a vestimenta



Joaquim Nabuco: brasileiro, cidadão do mundo'. Museu Histórico Nacional: Praça Marechal Âncora s/n, Centro. Ter a sex, das 10h às 17h30m. Sáb e dom, das 14h às 18h. Grátis (aos domingos e para menores de 5 anos e maiores de 60 anos) e R$ 6. De 20.08 a 4 de outubro.
Visitas podem ser agendadas pelo telefone (21) 2550-9260 ou pelo e-mail atividade.educativa@gmail.com.






A linguagem, as coisas e seus nomes

Muito bom o artigo de Eduardo Galeano, que reproduzo abaixo, tirado do site de Carta Maior. Vale a pena ler.

A linguagem, as coisas e seus nomes
Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:

O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

O imperialismo se chama globalização;

As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões;

O oportunismo se chama pragmatismo;

A traição se chama realismo;

Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos;

A expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar;

O direito do patrão de despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral;

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria;
em lugar de ditadura militar, se diz processo.

As torturas são chamadas de constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas;

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleoptomaníacos;

O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de
enriquecimento ilícito;

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis;

Em vez de cego, se diz deficiente visual;

Um negro é um homem de cor;

Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler câncer ou AIDS;

Mal súbito significa infarto;

Nunca se diz morte, mas desaparecimento físico;

Tampouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares: os mortos em batalha são baixas e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, danos colaterais;

Em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefatos que explodem”;

Chama-se Conviver alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob proteção militar;

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia;

Chama-se Paz e Justiça o grupo militar que, em 1997, matou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas.

(Do livro De pernas pro ar, editora L&PM)

Fonte: Agência Carta Maior



O Golpe de Honduras - Para quem quer conhecer melhor o assunto

Quem soube dos acontecimentos políticos em Honduras somente por um dos chamados grandes órgãos de imprensa (Globo, Folha de São Paulo, Estadão, Veja ,,,) provavelmente sabe muito pouco sobre a natureza real dos fatos. Conhece apenas as versões que interessam aos grupos que dominam os meios de comunicação. Quem estiver interessado em saber mais detalhes sobre o assunto deve ler o artigo abaixo, de Greg Grandin, reproduzido do site de Carta Maior, publicado no The Nation e traduzido por Katarina Peixoto.

Internacional| 17/08/2009 | Copyleft

A Batalha de Honduras e a América Latina

A obstinação de Micheletti foi encorajada por aqueles que vêem a crise em Honduras como uma chance de interditar o avanço da esquerda na América Latina. Um mês e meio depois de Zelaya ter sido afastado, o pequeno e desesperadamente pobre país da América Central se tornou palco de uma grande batalha que poderá desenhar a política hemisférica, inclusive a política externa de Barack Obama, para os próximos anos. A fixação em Chávez é muito útil para desviar a atenção da pobreza que corrói a região, bem como do fracasso do modelo econômico neoliberal promovido por Washington nas últimas décadas. O artigo é de Greg Grandin.

Roberto Micheletti, que tomou o poder em Honduras depois do golpe de 28 de junho, tem estado sob intensa crítica da comunidade internacional por rejeitar um compromisso negociado pelo presidente Oscar Arias, da Costa Rica, o qual permitira a Manuel Zelaya, o presidente democraticamente eleito, forçado ao exílio pelos militares, retornar como líder de um governo de reconciliação. Mas a obstinação de Micheletti foi encorajada por aqueles que vêem a crise como uma chance de interditar o avanço da esquerda na América Latina. Um mês e meio depois de Zelaya ter sido afastado, o pequeno e desesperadamente pobre país da América Central se tornou palco de uma grande batalha que poderá desenhar a política hemisférica, inclusive a política externa de Barack Obama, para os próximos anos.

Nos anos de 1980 Honduras serviu como um estágio para as operações anticomunistas de Ronald Reagan na Nicarágua, em El Salvador e na Guatemala, e como um portal para a Nova Direita Cristã derrotar a Teologia da Libertação. A cruzada anticomunista da América Central tornou-se algo como o esquadrão da morte do Código Da Vinci, agregando um bloco carnavalesco incluindo a primeira geração de neocons, torturadores latino-americanos, oligarquias regionais, cubanos anti-Castro, mercenários, ideólogos do Opus Dei e enormes púlpitos evangélicos.

A campanha para expulsar Zelaya e impedir sua restauração ao poder reuniu os velhos camaradas dessa batalha, inclusive figuras sombrias, como Fernando “Billy” Joya (que, nos anos 80 foi membro do Batalhão 316, uma unidade paramilitar hondurenha responsável pelo desaparecimento de centenas, e que agora trabalha como assessor de segurança de Micheletti) e os veteranos do Irã-Contras, como Otto Reich (que dirigiu o gabinete de diplomacia pública de Reagan, que malversou o dinheiro público para manipular a opinião pública a apoiar a guerra dos Contra contra a Nicarágua). Os generais hondurenhos que depuseram Zelaya receberam seu treinamento militar no auge da guerra suja, inclusive com cursos na notória Escola das Américas. E a atual crise revela uma química familiar entre as hierarquias católicas conservadoras e os Protestantes evangélicos que, com uma mão deram suporte ao grupo, e cristãos progressistas que estão sendo atacados pelas forças de segurança, pela outra.

Aliados à coalizão do golpe estão novos atores, como o venezuelano Robert Carmona Borjas, que em 2002 se envolveu na tentativa de derrubar o presidente venezuelano Hugo Chávez. De acordo com a analista de América Latina Laura Carlsen, Carmona, trabalhando junto com Reich, voltou suas atenções para Honduras depois do fracasso na tentativa deter a vitória eleitoral da esquerda na Venezuela. Começando em 2007, a Fundação Arcadia de Carmona lançou uma campanha midiática para desacreditar Zelaya, acusando seu governo de corrupção. Como escreveu Carlsen, a “natureza politizada da ofensiva anti-corrupção da Arcadia estava clara desde o começo”. Carmona, bem como Otto Reich, acusaram o presidente Zelaya de 'cumplicidade' com vários crimes. A cruzada foi similar ao modo como o Instituto Republicano Internacional ligado a grupos de “promoção da democracia” desestabilizaram o presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, resultando em sua derrubada em 2004.

Outro recém chegado na batalha é Lanny Davys, ex-assessor de Hillary Clinton e atual lobista, que foi contratado pelos empresários que deram suporte ao golpe para pressionar o Departamento de Estado de Clinton a reconhecer o governo Micheletti. A ala de Clinton no Partido Democrata tem vínculos profundos com neoliberais latino-americanos que presidiram as ruinosas políticas de liberalização de mercados nos anos de 1990, agora vastamente deslocadas do poder por novos membros da esquerda regional. Os consultores de pesquisas de Clinton, como Stanley Greenberg e Doug Schoen, vêm trabalhando em muitas de suas campanhas eleitorais [da América Latina], sempre do lado perdedor.

Três anos atrás a região, localizada na esfera de influência dos EUA pelo Acordo de Livre Comércio da América Central, parecia imune às mudanças que vinham ocorrendo na América do Sul, que tinham levado a esquerda ao poder na maioria dos países. Mas então, os Sandinistas voltaram ao poder na Nicarágua em 2006. Recentemente, a FMLN [Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional] ganhou a presidência em El Salvador, e a Guatemala, liderada pelo presidente de centro-esquerda Álvaro Colom, está testemunhando o ressurgimento de um pesado ativismo, a maior parte contra as corporações transnacionais que exploram minérios e biocombustíveis.

Em Honduras, Zelaya agitou o cenário ao aumentar o salário mínimo e pedir desculpas pelas execuções de crianças de rua e membros de gangues, levadas a cabo pelas forças de segurança, nos anos 90. Ele fez movimentos para reduzir a presença do exército dos EUA e se recusou a privatizar a Hondutel, a empresa estatal de telecomunicações, uma negociação que Micheletti, como presidente do Congresso, pressionou para que se realizasse. Zelaya também vetou a legislação, apoiada por Micheletti, que baniu a venda da pílula do dia seguinte. Considerando o vergonhoso apoio do presidente nicaraguense Daniel Ortega às posições anti-aborto da igreja católica, a qual resultou numa legislação que condena a trinta anos de prisão a mulher que o praticar, essa foi talvez a medida mais corajosa tomada por Zelaya. Ele também aceitou ajuda internacional, na forma de petróleo a baixo custo da Venezuela. Seria impossível superestimar o ódio que a classe dominante da América Central tem de Chávez, cuja presença é vista por trás de todos os protestos massivos e de todas as manifestações pela democratização política e econômica da região. O presidente de um conselho empresarial hondurenho disse recentemente que Chávez “tinha Honduras na sua boca. Ele era um gato com um rato na boca, que foi embora”.

A fixação em Chávez é muito útil para desviar a atenção da pobreza que corrói a região, bem como do fracasso do modelo econômico neoliberal promovido por Washington nas últimas décadas. Quarenta por cento dos centro-americanos, e mais de 50% dos hondurenhos vivem na pobreza. A obsessão por Chávez também distrai do fato de que sob a igualmente desastrosa “guerra contra as drogas” de Washington, os cartéis do crime, profundamente arraigados nas famílias das oligarquias militares e e tradicionais, levou boa parte da América Central à condição que o Gabinete para a América Latina de Washington chama de “estados cativos”.

Para a Casa Branca, Honduras está provando ser um difícil e inesperado teste de política externa. Depois de condenar o golpe, Obama entregou a gestão da crise ao Departamento de Estado. Em vez de trabalhar diretamente com a Organização dos Estados Americanos (OEA), a Secretária de Estado Hillary Clinton nomeou unilateralmente Oscar Arias, quebrando compromissos e ignorando as preocupações de muitos outros governos latino-americanos de que negociações garantiriam muito mais legitimidade ao golpe. Até agora Clinton tem relutado em aplicar uma série de possíveis sanções, inclusive congelando contas bancárias daqueles que protagonizaram o golpe, para forçar Micheletti a aceitar o plano de Arias. E para aqueles que vêem Micheletti como a última linha contra o avanço de chavismo – seja em Honduras, na Guatemala, El Salvador ou em qualquer outro lugar da América Latina – o retorno de Zelaya, mesmo a tão poucos meses de término do seu mandato, é inaceitável.

No fim dos anos 70 a revolução sandinista revelou os limites da tolerância de Jimmy Carter com o nacionalismo do Terceiro Mundo. Quanto mais Carter tentava apaziguar os falcões na sua administração, mais ele era acusado de vacilar, pavimentando assim o caminho para os neoconservadores sob Reagan, para usar a América Central como amostra de sua linha dura.

Hoje, uma dinâmica similar está tomando lugar. Os republicanos se alinharam ao redor de Micheletti, enviando uma delegação congressual, liderada por Connie Mack para visitar Tegucigalpa. Em mais uma página da história da estratégia da direita na América Latina, eles acusaram Obama, associando-o com Chávez. Obama disse: “Esse é o tipo de expediente ostensivo que os Republicanos, fora da agenda doméstica, vêm adotando. A posição da Venezuela em Honduras é idêntica à do Brasil e do Chile – e, nessa questão, a da União Européia”. Mas os ataques da direita são efetivos, em larga medida porque assim auto-descritos liberais repetidamente se enfileiram na demonização não apenas de Chávez, como o fez Lanny Davis recentemente, mas também de esquerdistas como Evo Morales e Rafael Correa, no Equador.

No começo de Agosto, o Departamento de Estado pareceu estar dando suporte aos republicanos, declarando numa carta ao senador republicano Richard Lugar que “as ações provocativas” de Zelaya “desencadearam os eventos que levaram ao seu afastamento”. Essa declaração, bem como os mornos esforços para pressionar Micheletti, são um mau presságio quanto à disposição da administração Obama em resistir à pressão da direita.

O próprio Obama continua a enviar sinais confusos. Numa cúpula de presidentes do México, Canadá e EUA em Guadalajara, em agosto, ele reclamou que “os críticos que dizem que os EUA não intervieram suficientemente em Honduras são os mesmos que dizem que sempre interviemos e que os Yankees precisam sair da América Latina. Não se pode ter ambas as coisas”. Contudo, ninguém na América Latina está pedindo uma intervenção unilateral dos EUA, mas, antes, que Washington trabalhe multilateralmente com a OEA. Ao nomear Oscar Arias, os Estados Unidos efetivamente sobrepujaram a OEA. Assim como Obama fez essas observações, os presidentes da América do Sul, que se encontraram em Quito, no Equador, reafirmaram sua condenação do gole e disseram que não vão reconhecer qualquer presidente eleito sob o atual regime – um passo que o Departamento de Estado de Clinton se recusou a dar.

O fracasso em restaurar o poder de Zelaya enviará uma clara mensagem aos conservadores latino-americanos de que Washington tolerará golpes, uma vez que esses tenham sido propiciados com o pretexto democrático. Como observou recentemente o historiador Miguel Tinker num ensaio publicado em Common Dreams eles já entendem que Honduras pode ser um ponto de virada. Um homem de negócios conservador venceu a presidência no Panamá. Em junho, na Argentina, o partido de centro-esquerda peronista de Cristina Fernández sofreu uma derrota relativa e perdeu o controle do Congresso. E pesquisas mostram que as próximas eleições presidenciais no Chile e no Brasil possivelmente implicarão perdas maiores para a esquerda.

Enquanto isso, Zelaya está convocando apoiadores dos arredores para pressionarem pelo seu retorno. Em Honduras, os protestos continuam e a contagem de corpos dispara. Ao menos 11 apoiadores de Zelaya foram assassinados desde o golpe. O último, Martín Florencio Rivera, foi apunhalado até a morte depois de ter deixado o velório de uma outra vítima. Micheletti, por sua vez, está recolhido em Tegucigalpa, apostando que pode alavancar, por fim, o apoio internacional, até que a agenda da eleição presidencial em novembro seja regularizada. O curso futuro da política latino-americana pode estar em jogo.

Greg Grandin é professor de história na New York Univesity e um dos grandes especialistas em história latino-americana dos Estados Unidos. É autor do recentemente publicado Empire's Workshop: Latin America, The United States, and the Rise of the New Imperialism(Metropolitan).

Artigo publicado originalmente no The Nation, em 12 de agosto de 2009

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agência Carta Maior

Assembléia Nacional da Venezuela aprova nova Lei da Educação

Depois de oito anos de extensas sessões de "parlamento nas ruas", discussões públicas com representantes dos professores, partidos políticos, representantes dos governos regionais e locais e outros grupos ligados à educação e da sociedade civil, a Assembléia Nacional da Venezuela aprovou a redação final da nova lei e a enviou para a sansão presidencial.
De acordo com o Vice-Presidente da Assembléia Nacional, Saul Ortega, o objetivo da lei é "...garantir ao nosso povo uma livre, acessível, liberatória e secular educação, que definitivamente garanta a estabilidade e autonomia do ensino."

Como em todo o regime realmente democrático, a nova lei tem sido alvo de manifestações com forte aprovação dos segmentos mais representativos da sociedade civil e de oposição de grupos representativos da classe média, para quem a lei parece ameaçar seu status quo, além daqueles que lucram com a exploração da educação, incluindo-se aí grupos religiosos.

Num mundo onde o consumo é a mola mestra que mantém o sistema capitalista em movimento, qualquer tentativa de dar às pessoas a mínima condição de serem capazes de raciocinar e analisar de forma mais consciente os fatos e tomarem consciência da manipulação a que são submetidos, é considerada uma ameaça, para aqueles que vivem às custas da ignorância e da falta de informação da população. Um povo ignorante pode ser facilmente manipulado para eleger os representantes que a elite dominante desejar, comprar o que lhe for imposto pelos meios de comunicação como necessário, aceitar passivamente todas as desgraças resultantes da pobreza e da ignorância como "a vontade de Deus". É assustador para essas pessoas constatar que a população pode começar a perceber que quem rege seus destinos são eles mesmos, que Deus não tem qualquer participação nisso e que não é natural nem aceitável passar fome, não ter acesso a atendimento médico, não ter emprego e nem onde morar e se sujeitar a trabalho escravo e que isso pode mudar se tiverem acesso a uma educação de qualidade e voltada para os interesses do país e benefício de todos e não de uma minoria privilegiada

Bem, voltando à lei, vejam qual é a parte mais controvertida, que tem provocando as mais violentas reações dos setores conservadores da população:

O artigo 4 determina que ".. é responsabilidade do Estado (Docente), garantir educação como um direito humano universal e fundamental, inalienável, um dever social irrenunciável e um serviço público.....fundamentado nos princípios de integridade, cooperação, solidariedade, atenção e co-responsabilidade".

Não consigo ver o que há de errado nesse artigo. Considerando que numa verdadeira democracia, como é o caso da Venezuela, o governo representa a maioria da população, e que se esse governo a representa, nada mais natural que seja esse mesmo governo o responsável por um dos bens mais caros a um povo: a sua educação.

Vale a pena ler o artigo na íntegra e por isso o estou colocando abaixo.

Venezuelan National Assembly Passes New Education Law

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"Yes to liberatory education," says the sign of a pro-law demonstrator outside the National Assembly on Thursday (ABN)

Mérida, August 14th 2009 (Venezuelanalysis.com) -- The Venezuelan National Assembly passed a controversial new Education Law shortly after midnight on Friday morning, following a twelve hour marathon legislative session and a day of heated street protests both for and against the law.

Throughout the day, legislators argued and revised each article of the law, which is of organic nature, meaning it has the highest possible legal stature under the constitution and is required by the constitution. The final version was officially sent to President Chavez for approval minutes before three o'clock Friday morning.

According to National Assembly Vice President Saul Ortega, the law's objective is "to guarantee our people a free, accessible, liberatory, and secular education that definitively guarantees teacher stability and autonomy."

One of the controversial parts of the law is that it strengthens the role of the state in education. Article 4 states that is the responsibility of the "Educator State" (Estado Docente) to guarantee "education as a universal human right and fundamental, inalienable, non-renounceable social duty, and a public service... governed by the principles of integrality, cooperation, solidarity, attentiveness, and co-responsibility."

The National Assembly approved the first draft of the law in August 2001. Over the past eight years, legislators held extensive "street parliament" sessions, or public discussions of the law's content with teachers unions, political parties, regional and local government officials, and other educational and civil society groups.

Over the past several weeks, opponents and proponents of the law, including student groups, educational organizations, and political parties marched to the National Assembly to turn in their proposals and objections, and were frequently received by legislators. On Sunday, the full text of the law proposal was published in several national daily newspapers.

The second round of formal discussions began at two o'clock on Thursday afternoon in an extraordinary session of the National Assembly, which is now almost entirely comprised of supporters of the Bolivarian Revolution led by President Hugo Chavez, since the opposition chose to boycott the National Assembly elections in 2005.

Meanwhile, in Caracas, thousands of teachers, union leaders, community activists, and militants of the United Socialist Party of Venezuela (PSUV) marched to the National Assembly in support of the law. In a smaller march led by high profile opposition politicians near the National Assembly, opponents of the law demanded that discussions of the law be further postponed.

When the metropolitan police intervened to keep the two groups of demonstrators from clashing, tear gas canisters were thrown and several people were injured. Leaders of both marches blamed infiltrators from the other side for the violence as well as for the tear gas. Also in Caracas, unidentified assailants attacked and injured twelve journalists from a news network as they protested against the law.

In Nueva Esparta state, opponents of the law reportedly approached the state educational administration building as though they were going to peacefully turn in a list of proposals for the law, then suddenly attempted to force their way into the building, but were physically impeded by educational personnel.

On Friday, fights broke out and several people were injured in the capital of Merida state as proponents and opponents of the law demonstrated near the main plaza.

According to a statement emitted by Communications and Information Minister Blanca Eekhout, the national government "categorically rejects" all acts of violence on both sides and calls for the peaceful resolution of disagreements "in the realm of ideas, by way of constructive dialogue." Eekhout confirmed that the national investigative police, the CICPC, are investigating all incidents.

In recent months, powerful opposition groups, including the association of rectors of Venezuela's major public and private universities, all major opposition parties, much of the privately owned media, some teachers unions, and the Catholic Church waged a vicious media campaign against the law, in some cases asserting that the law will bring the country a step closer to totalitarianism.

Opponents alleged that the law is anti-democratic because it was not subject to enough public consultation. They also said it threatens religious education and the family, and politicizes the classroom. In June, radio commentators falsely reported that two articles in the law would permit the state to take children between the ages of 3 and 20 away from their parents for socialist indoctrination.

In response to the allegations, Education Minister Hector Navarro fervently denounced the lie that the state will be permitted to sequester children, and repeatedly pointed out that the procedures taken by the National Assembly for the discussion and passage of the law were fully in line with the national constitution.

The Minister said the opposition's claims are not only incorrect, they "form part of a campaign that seeks to generate fear in the population."

Also in response to the allegations, several National Assembly legislators and some less intense opponents of the law cited numerous articles in the law which support the role of the family as part of the educational community, establish that religious education must be carried out privately and not in public schools, and expressly prohibit political propaganda in the classroom.

Several leaders of the National Workers Union (UNETE), Venezuela's largest labor union confederation, praised the law for expanding protections for teachers as well as laborers in educational institutions, and for establishing more democratic university admissions policies.

Vladimira Moreno, the national secretary of professionals and technicians for the Venezuelan Communist Party, said the law "has included a significant participation of the Venezuelan people: Communities, teachers, foundations, people's collectives, students, and universities."

The law also "opens important spaces for people's power... so that it participates actively and in a co-responsible manner in the educational process, by way of comptrollership and social, popular control over the administration of resources," said Moreno.

The new law stipulates that several further laws of a lower legal stature must be passed to govern specific areas such as university education and teacher rights and responsibilities. Thus, the debate over how to structure Venezuela's educational system is not over.


Fonte: Venezuelanalysis.com