quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Le Figaro: Como Lula transformou o Brasil

Reportagem que deveria ser lida por todos os brasileiros. Infelizmente não vai dar no JN. A tradução é do Miguel do Rosário, do blog Óleo do Diabo e transcrevo abaixo, para que fique registrado e possa ser lembrado, sempre que necessário.


Como Lula transformou o Brasil

Lamia Oualalou, nossa correspondente no Rio de Janeiro
Tradução: Miguel do Rosário, do blog Óleo do Diabo.

No outono próximo, se tudo der certo, Ricardo Mendonça irá rever seus parentes, em Itatuba, pequena cidade do estado da Paraíba, no Nordeste brasileiro. Já tem vários meses que o jovem economiza para pagar a viagem desde o Rio de Janeiro. "Eu não os vejo desde 2003; e mesmo com o telefone, é duro", suspira.

Ricardo tinha 18 anos quando deixou sua cidade, empurrado pelo instinto de sobrevivência e a promessa de abrigo feita por um tio instalado no Rio de Janeiro. "Eu venho de uma família muito pobre. Com meu irmão, trabalhava toda manhã na lavoura, para ajudar meus parentes. Depois do meio-dia, íamos à escola, de bicicleta, a 8 quilômetros de nossa casa", conta. No total, sua família obtinha uma renda mensal de 100 reais (45 euros). "A gente bebia água do rio, e ficava doente com frequência. Ficar, seria condenar-me", lembra-se.

No Rio de Janeiro, o adolescente encontrou um emprego de porteiro. Estimulado por seus professores, ele sonhava entrar na universidade. Para isso, seria necessario desembolsar 600 reais (270 euros) por mês, quantia inacessível. "Eu deixei pra lá, até que me falaram do Prouni. Eu tentei a sorte e recebi uma bolsa. Em três anos, terei diploma de direito!", exclama Ricardo. O programa, lançado em 2005 pelo governo federal, oferece bolsas parciais ou integrais aos estudantes pobres, desde que eles tenham formação escolar.

Para convencer as instituições privadas, que sempre esnobaram este segmento, o Estado lhes ofereceu exonerações fiscais. Em cinco anos, mais de 700 mil estudantes foram beneficiados pelo programa, mudando o aspecto da universidade. A medida criou uma bola de neve: percebendo que estes estudantes se integravam perfeitamente, mais universidades baixaram as mensalidades. Em novembro de 2009, quase 31% dos 5,9 milhões de inscritos na universidade vinham de famílias de baixa renda. A proporção dobrou em relação a 2002.

"Como meus parentes são analfabetos, no começo eles não compreenderam porque eu desejava estudar. Hoje eles choram de orgulho. Tudo isso, graças a Lula. É o primeiro a pensar que, mesmo se nascemos pobres, temos direito a uma chance. Antes dele, tudo estava predeterminado para nós", assevera Ricardo. "Para meus parentes também a vida se transformou. Eles tem direito a crédito de agricultura familiar, instalou-se água potável a cidade, e minha mãe conseguiu a sua aposentadoria", prossegue com ânimo exaltado.

Histórias como as de Ricardo contam-se aos milhões no Brasil. A três meses do fim de seu mandato, é um país transformado o que o presidente Luiz Inacio Lula da Silva entregará a seu sucessor. Quando ele chegou ao Planalto, o palácio presidencial de Brasília, era um país sem grandes esperanças que aceitou dar uma chance ao turbulento barbudo, onipresente na cena eleitoral desde o restabelecimento da democracia em 1985.

Em sua primeira eleição presidencial, em 1989, Lula foi bem colocado. O ex-sindicalista, que dirigiu as grandes greves dos anos 70 contra a ditadura e criou, em 1980, o Partido dos Trabalhadores (PT), prometia uma revolução. A elite e a televisão aterrorizaram a classe média assegurando que, em caso de uma vitória da esquerda, eles deveriam abrigar em suas casas os moradores de rua. Lula foi derrotado.

Em 1994, depois em 1998, foi a ânsia por estabilidade que deu dois mandatos consecutivos ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Seu líder, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, era o rosto por trás do "Plano Real", que criou uma nova moeda e deu fim ao pesadelo da inflação. "Eles conseguiram a estabilização da economia. Mas o PSDB não propôs mais nada aos mais pobres. Ao cabo de alguns anos, não era mais suficiente", analisa Marcus Figueiredo, politólogo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Foi com alto grau de impopularidade que Cardoso deixou o poder, em 2002. "Lula assumiu sua herança, com uma política monetária e econômica contrária ao que pregava. Mas, paralelamente, ele deu início a uma política social para ajudar os mais pobres, tanto no meio urbano quanto no rural", acrescenta o cientista

O chefe de Estado reagrupou algumas medidas sociais de seu predecessor e lhes deu uma dimensão até então inimaginável. O nome do programa resumia o objetivo final: "Fome Zero". A sua principal iniciativa, o "Bolsa Família", teve início em 2004, com alocação de recursos para as famílias mais pobres, exigindo apenas a presença na escola e acompanhamento médico das crianças. Variando de 22 a 220 reais (10 a 100 euros), segundo a renda e o número de crianças, o programa atinge hoje 12,6 milhões de famílias, o que corresponde a cerca de 50 milhões de brasileiros. O pequeno cartão amarelo permite às famílias melhorar suas refeições e ativou o comércio nas cidades mais pobres, em particular no Nordeste, onde a concentração de beneficiários do programa é mais elevada. As cidades também se beneficiaram do programa "segurança alimentar", que abastece creches e escolas, e disponibiliza alimentos para famílias pobres, assim como os "restaurantes populares", que oferecem refeições completas por um real (0,44 euro).

A origem dos alimentos é outra forma de aumentar a renda nas zonas rurais: para ter direito às subvenções públicas, é necessário comprar junto à agricultura familiar. Os pequenos agricultores recebem crédito para se equipar, beneficiam-se dos programas de irrigação e instalação de cisternas, assim como a chegada de luz elétrica para dez milhões de lares, com o plano "Luz para Todos". Ao decidir aumentar o salário mínimo acima da inflação, todos os anos (aumento de 54% de 2003 a 2010), o governo elevou a renda de 27 milhões de empregados e de 18,5 milhões de aposentados, cujas pensões são indexadas ao salário mínimo, que atinge hoje 520 reais (231 euros).

Pela primeira vez na história, o Brasil assiste hoje a uma redução contínua, e inédita, de suas desigualdades. Em dois mandatos, 24 milhões de brasileiros saíram da miséria, e outros 31 milhões ingressaram na classe média. Geograficamente, a redistribuição é explícita. "Todo o Brasil está em efervescência, mas no Nordeste se encontra um crescimento a taxas chinesas, de 10 a 12%", explica Marcus Figueiredo.

Os ataques ao assistencialismo falharam. "As políticas sociais são responsáveis por um terço da redução das desigualdades, o resto foi gerado pela alta gerada pela renda do trabalho", calcula Marcelo Neri, economista da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Para ele, os que atribuem a popularidade do chefe de Estado à sua imagem de "pai dos pobres", não captaram a amplitude das mudanças. "Lula não é o pai de ninguém: ele é a encarnação da ascensão social, a personificação do novo herói brasileiro, que é o trabalhador, com um contrato de trabalho, e direitos", insiste. Em sete anos, mais de 14 milhões de empregos formais foram criados, apesar de uma informalidade ainda alta. "O Brasil mudou de escala, nos anos 90, criavam-se 600 mil empregos por ano, hoje passamos a 1,4 milhão por ano, sob Lula", diz Marcelo Neri.

Ainda aí, o papel do Estado é central. Após ver suas prerrogativas questionadas nos anos 90, através de uma política fiscal rigorosa e privatizações, ele (o Estado) recuperou seu prestígio. As universidades públicas, fragilizadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso, que trabalhava com a privatização da educação, receberam recursos que lhes permitiram aumentar o número de professores e se expadirem. O segundo mandato de Lula foi dominado pelo "Programa de Aceleração do Crescimento", que investiu 262 bilhões de euros no desenvolvimento de infra-estrutura (portos, estradas, pontes, etc), casas populares, urbanização de favelas e, sobretudo, políticas energéticas.

"Se eu fosse escolher a cena que simboliza a mudança de paradigmas com Lula, seria a decisão de acabar com a aquisição no estrangeiro das plataformas de petróleo de uma empresa pública, a Petrobrás, e fazê-las no Brasil", declara Marcus Figueiredo. "Isso reativou a construção naval, moribunda e, além disso, é uma orientação ideológica de consequências enormes", diz.

Quando a Petrobrás revelou a existência, ao largo das costas brasileiras, de gigantescas reservas de petróleo - a mais importante descoberta em trinta anos nas Américas - Lula pediu a sua maioria parlamentar no Legislativo para acabar com o regime de concessão, mais generoso, segundo ele, com as multinacionais estrangeiras. A Petrobrás tornou-se uma empresa privilegiada, e os lucros obtidos serão revertidos para um Fundo soberano destinado a financiar a educação, a saúde e melhorar as condições de vida dos mais pobres.

Porque se o Brasil mudou muito, e rápido, ainda é um dos países mais desiguais do mundo. Com o boom dos últimos anos, as autoridades e os analistas não se renderam à complacência e a autocelebração. Mesmo se o número de lares com acesso à agua corrente cresceu 30% no curso do último decênio, 12 milhões de famílias ainda estão excluídas, enquanto 56% dos domicílios não tem acesso à rede de esgoto. A mortalidade infantil caiu, mas as condições atuais da saúde publica permanecem deploráveis. A universidade pública levantou a cabeça, mas o Brasil contava ainda com 14 milhões de analfabetos em 2008, e o ensino nas escolas, onde os professores recebem salários miseráveis, é um dos piores da América Latina. Malgrado algumas experiências interessantes na política de segurança, a violência continua a matar no Brasil mais de 40 mil pessoas por ano, uma cifra digna de um país em guerra.

Marcelo Neri é, todavia, otimista: os estudos mostram que, em vez de se refugiarem no consumo, os brasileiros, mesmo os mais pobres, investem antes em educação de seus filhos. "Antes, o sentimento de urgência era tal que cada um não pensava que no seu cotidiano. Hoje, a população está mais preocupada com os problemas coletivos como saúde, educação, infra-estrutura", diz Neri. Lembrando a famosa atribuída o general De Gaulle, segundo a qual o Brasil não seria um país sério, o economista conclui: "De Gaulle teve razão por um longo tempo. Mas as coisas mudaram. Estamos em vias de nos tornar um país sério".

# Escrito por Miguel do Rosário # Quarta-feira, Setembro 22, 2010

Uma brilhante análise de Nassif sobre o golpismo da mídia

Cenários de 1964 e 2010

Enviado por luisnassif, qua, 22/09/2010 - 14:09

É fascinante essa transição para os novos tempos. Permite testemunhar, em tempo real, a reedição de processos históricos dos quais só se sabia pela memória dos sobreviventes ou por relatos parciais.

Refiro-me ao processo de alimentação do golpismo.

Sou uma testemunha quase privilegiada da época porque muito jovem – em 1964 tinha 14 anos – e recebendo todo o influxo de informações de vários circuitos. De um lado, o udenismo avassalador – influência do meu avô materno. De outro, a posição liberal de meu pai. E, finalmente, os conflitos no Colégio Marista e nas Semanas do Estudante.

Em 1963, com treze anos, recebia informações através do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), de uma revista (da qual não me recordo o nome agora) que defendia o privativismo contra a sanha estatizante do governo. Qualquer episódio, por menos relevante que fosse, servia de álibi para manifestações da classe média contra...o governo.

Uma das mais celebradas foi a Marcha Com a Família, Por Deus e pela Liberdade, para protestar contra uma charge de Millor Fernandes no Cruzeiro, e uma outra na Última Hora de São Paulo, em que o chargista Arapuã comparava Nossa Senhora Aparecida a Pelé. Não tinha nenhuma relação com o governo Jango, mas serviu para manifestações por todo o país, contra as supostas intenções comunizantes do governo. Ou então as Marchas pelo Rearmamento Moral, com um tal de padre Peyton.
(Ontem, ao ver as manifestações indignadas de jornalistas e políticos, tentando relacionar a manifestação contra a mídia como um ato fascista comandado por Lula, baixou uma baita nostalgia e alívio de tempos que não voltam mais).

Da parte de Jango, havia um amadorismo à toda prova espelhado no famoso Comício da Central do Brasil – no qual o personagem mais incendiário foi o jovem presidente da UNE, José Serra. Ou seja, forneciam-se álibis para a ação golpista.

Vamos comparar a ações dos principais personagens de um período e outro.

Partidos sem perspectiva de poder

Em 1964, a UDN não tinha nenhuma perspectiva de poder. Era um partido de profissionais liberais e de fazendeiros paulistas, exercitando um discurso moralista, mas sem um projeto sequer de país. Fundamentalmente um partido paulista, isto é bem votado em São Paulo, embora sua bancada tivesse políticos de outros estados.

Nos anos 50, foi a principal responsável pelo monopólio do petróleo – a proposta original de Vargas era de criação da Petrobrás mas sem monopólio. Quando Carlos Lacerda assume a liderança política, torna-se privativista.

O discurso é eficiente quando investe contra o fisiologismo do modelo político brasileiro, a intermediação dos empréstimos do Banco do Brasil – curiosamente o mais ativo político nesse período era o pai do atual senador Tasso Jereissatti -, a irracionalidade da política econômica.

Mas, à falta de um discurso popular o que ganha consistência é o denuncismo exacerbado, com algumas denúncias corretas e a maioria amplamente manipulada, como maneira de alimentar uma indignação crescente que fizesse as pessoas deixarem de lado o caminho das eleições e apostar em decisões golpistas para atingir seus objetivos.

Nos anos 2010, o papel de Lacerda é assumido por Fernando Henrique Cardoso - que deve prosseguir nessa condição mesmo após as eleições. FHC tem dois discursos: um claramente golpista, alertando contra o perigo contra a democracia; e um professoral, onde tenta amenizar as críticas sob o manto falso da análise política. O primeiro é golpismo de político; o segundo é golpismo de acadêmico, com cobertura de análises sociológicas rasas.

Combina com Lacerda na falta de propostas claras sobre o futuro, na incapacidade de identificar os grandes fatores de transformação do país, as idéias mobilizantes. Queda, então, no denuncismo vazio.

José Serra é apenas o discípulo menor desse discurso, que deverá desaparecer após as eleições.

Papel da mídia

Não há rigorosamente nenhuma diferença entre os dois momentos. O estoque de armas da mídia é o mesmo.

No campo jornalístico, bombardeio incessante com denúncias diárias, visando criar um clima de exacerbação ampla na opinião pública. Alianças com a chamada sociedade civil, especialmente com setores jurídicos, visando dar alguma legitimidade aos golpes.

Nos anos 50, a UDN se valia da «banda de música», conjunto de parlamentares brilhantes, de formação jurídica, visando legitimar sua ação golpista. Em 1964 houve o pacto com organizações civis das cidades maiores. Nos anos 80 – último período de legitimação da mídia – os pactos com a chamada sociedade civil.

Em ambos os casos, tratava-se de um país pequeno, com sociedade civil incipiente, em que as organizações de esquerda tinham alguma penetração nos campos; e as de direita nas cidades. Hoje essa sociedade civil que amparou as melhores e as piores aventuras midiáticas, é apenas peça de museu.

Há mais diferenças. Nos anos 60 a televisão ainda não tinha a penetração de agora. Mas havia grande peso nas transmissões de rádio. A rádio Globo sempre teve papel importante na criação de climas propícios ao golpe. Nos anos 2010, a TV Globo atinge todo o país.

Em contraponto, nos anos 60 a opinião pública urbana era praticamente um eco da opinião pública carioca – a mais influente da época. A opinião pública paulista era restrita a São Paulo. Hoje em dia, há uma opinião pública muito mais disseminada, com os órgãos regionais pouco a pouco se libertando da influência ideológica da grande mídia.

O papel do empresariado

Em 1964 as disputas eram entre uma coalizão partidária de massa e partidos mais conservadores. Os conservadores se apresentavam como arautos da modernização – e, em certo sentido, foram modernizadores bastante consistente, especialmente no curto governo Castello Branco.

Hoje, qualquer visão mais moderna de país vê nos conspiradores a expressão mais acabada do anacronismo político. O pacto FHC - mídia representa o anacronismo amplo, inclusive indo de encontro às teses supostamente internacionalistas e modernizantes de FHC.

No fundo, todo esse alarido midiático se prende ao receio de que governo e Congresso abram o setor à competição estrangeira. Ou seja, é um setor que estimula o golpismo em defesa de interesses específicos, que passam pela não modernização capitalista do seu mercado de atuação.

Em 1964 havia uma pesada xenofobia no ar do lado dos aliados do governo. Em 2010, a xenofobia é do lado dos críticos que, por sua vez, apresentam um discurso supostamente internacionalista na retórica do dia a dia. À medida que esse jogo de interesses ficar mais claro, o paradoxo ficará mais explícito.

Em 1964, havia uma resistência ampla dos meios empresariais ao governo, especialmente devido aos processos de estatização conduzidos por Leonel Brizolla. Hoje as resistências se fundam exclusivamente no campo do preconceito, em geral dos escalões executivos, na medida em que os dois governos Lula desmontaram completamente esse receio, ao definir uma estratégia baseada na ampliação do leque de alianças econômicas.

O papel das casernas

Organizações como o Instituto Milenium assumiram claramente papel conspirador – da mesma maneira que o Ibad. Seu patrocínio a eventos com militares – ainda que de pijamas -, seu apoio ostensivo ao discurso mais golpista, em nada o diferencia das organizações conspiradoras dos anos 60.

A diferença é que o quadro militar é totalmente diferente daquele período.

Lá, havia o clima da guerra fria, o estilo carbonário de Leonel Brizolla (inevitável, após a tentativa de golpe de 1962), Forças Armadas estreitamente ligadas ao mundo político e empresarial do Rio de Janeiro.

É interessante observar os efeitos positivos da mudança da capital para Brasília.

Não sou defensor de Brasília. O Rio dos anos 50 juntava uma formidável massa crítica de políticos, pensadores, magistrados, cientistas. Mas era o ambiente adequado ao golpismo mais agudo.

Lembro-me de uma longa conversa com um dos mais proeminentes empresários brasileiros, figura de proa do mundo político-econômico dos anos 50, Queixava-se ele, em meados dos anos 90, que já não conhecia generais, almirantes, brigadeiros, que as Forças Armadas tinham se popularizado demais. No fundo, o círculo de influência saiu do Rio para Brasília, tirando o peso do mundo empresarial e político carioca e diluindo tentativas golpistas.

Imaginem Merval, Jabor, os Marinhos, convivendo no mesmo ambiente do Estado Maior das Forças Armadas, no velho Rio de Janeiro dos anos 60. Não sendo capital, seu acesso é a militares aposentados.

A abertura das informações

O ponto mais relevante é que hoje em dia as informações tendem a ser cada vez mais disseminadas, menos controladas.

FHC e Serra, junto com os centuriões da mídia, deixam plantadas sementes de ódio irracional, especialmente em São Paulo. Esse bombardeio midiático criou uma classe B fundamentalmente rancorosa, clima que deverá se exacerbar até as eleições.

A dúvida é sobre o pós-eleições.

Serra desaparecerá do mapa político. Do lado belicoso restarão FHC e os jornalistas que mais radicalizaram nesse período. Acabaram comprometendo fundamentalmente a imagem com a guerra contra Lula. De certo modo, ficarão prisioneiros desse jogo. Mas qual seu poder de fogo?

Usando os recursos dos planejadores estratégicos, haverá dois cenários daqui para frente:

Modernização continuada – nesse cenário, a economia continuará favorável, a modernização prosseguirá, haverá reforma política garantindo mais estabilidade ao futuro presidente e a transição para um novo regime cambial não será traumática. Nesse caso, completar-se-á a modernização do mercado de mídia, com a universalização da banda larga e a entrada de novos competidores. Surge uma oposição civilizada e o país entrará na rota da estabilidade política.

Retrocesso à guerra fria – nesse cenário, Dilma se enrola com a política econômica, a crise do câmbio tem desdobramentos mais graves, quebra-se a aura da modernização inclusiva. Aí haverá espaço para a reincidência do golpismo por parte dos mesmos atores.

Ou seja, só na hipótese do Brasil perder a expectativa de futuro e entrar na rota do atraso, esses grupos golpistas conseguirão algum espaço político. Sobreviverão apenas no atraso. A modernização institucional os carregará para o lixo da história.

A probabilidade maior é que terminem seus dias falando sozinhos. E meu vizinho FHC, ainda de posse plena de suas faculdades mentais, terá bom tempo ocioso para teorizar sobre a eficácia de se tentar reeditar 1964 em pleno 2010. Aí descobrirá que o Novo Renascimento - como ele denominava os tempos modernos - chegou para ficar.

# Escrito por Miguel do Rosário # Quinta-feira, Setembro 23, 2010

(Transcrito do Blog Óleo do Diabo)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Brasil vem dando exemplo ao mundo, diz James Galbraith

“A desigualdade social no Brasil está sendo reduzida nos últimos anos porque o país gasta menos dinheiro para ajudar o setor financeiro e mais dinheiro para ajudar o próprio Brasil”, disse o economista norte-americano James Galbraith no seminário internacional sobre governança global promovido pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Para Galbraith, Brasil atravessa um período de “estado de bem-estar democrático” que revela aos países mais desenvolvidos um caminho diferente daquele proposto pelos dogmas neoliberais.

Maurício Thuswohl
Data: 17/09/2010

BRASÍLIA – O economista norte-americano James Galbraith afirmou na quinta-feira (16) que o Brasil vem dando ao mundo um exemplo de como enfrentar com sucesso a crise econômica global. Segundo Galbraith, que participou em Brasília de um seminário internacional sobre governança global organizado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), “a desigualdade social no Brasil está sendo reduzida nos últimos anos porque o país gasta menos dinheiro para ajudar o setor financeiro e mais dinheiro para ajudar o próprio Brasil”.

Ao optar por aumentar os investimentos em infra-estrutura, emprego e renda ao invés de promover arrocho para combater a crise, o Brasil, segundo Galbraith, atravessa atualmente um período de “estado de bem-estar democrático” que revela aos países mais desenvolvidos um caminho diferente daquele proposto pelos dogmas neoliberais: “O Brasil joga na cara do mundo neoliberal que pode haver crescimento social e econômico sustentável ao lado de um processo democrático funcional”, disse.

Galbraith afirmou que “o processo de governança global comandado pelo mercado financeiro e pela ideologia neoliberal desde o final dos anos oitenta foi um fracasso constrangedor”. O economista lembrou seu livro “O Estado Predatório” para afirmar que o maior perigo econômico da atualidade é deixar que as forças do mercado financeiro voltem a dominar as ações de estado: “A prosperidade dos banqueiros geralmente é contrária à prosperidade geral da população”.

A evolução da desigualdade mundial, segundo Galbraith, está diretamente ligada às diversas crises pelas quais passou o capitalismo financeiro nas três últimas décadas: “Aconteceu uma mudança abrupta e dramática a partir dos anos oitenta. As crises na América Latina, a queda do comunismo no Leste Europeu e a crise asiática de 1997 fazem parte de um fenômeno comum, proporcionado pelo domínio do mercado financeiro, que fortaleceu os países mais ricos e as pessoas mais ricas de cada país”, disse.

Essa sucessão de eventos, segundo a análise do economista norte-americano, culminou com a mais recente crise financeira global, iniciada com o estouro da bolha das hipotecas nos Estados Unidos: “Não aconteceu uma crise da Grécia, mas sim um desdobramento da grande crise de 2008, que foi a maior fraude financeira da história. E, devo dizer, não vamos sair desta crise facilmente ou em breve”.

Desmatamento
Durante o seminário, que foi organizado em parceria com a Associação Internacional de Conselhos Econômicos e Sociais e Instituições Similares (AICESIS), o Brasil, graças a sua política de combate ao desmatamento, também mereceu elogios do argentino Eduardo Viola, que é professor titular do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

Viola citou os esforços do país para deter o desmatamento na Amazônia: “De 2004 a 2009, o Brasil reduziu o desmatamento da floresta de 24 mil hectares para sete mil hectares. É um caso único no mundo. Na medida em que o Brasil vai tomando medidas internas acertadas, torna-se um personagem cada vez mais importante nas discussões globais sobre o clima”.

O professor, no entanto, afirmou não acreditar que seja ainda válido o conceito de responsabilidades comuns, porém diferenciadas, entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento estabelecido pelo Protocolo de Quioto: “É claro que os EUA e os países da União Européia tiveram um papel histórico decisivo no aumento das emissões de gases estufa. Atualmente, no entanto, a China aumenta cada vez mais suas emissões”, exemplificou, lembrando que o país asiático_ que lança anualmente na atmosfera seis toneladas per capita de carbono enquanto os EUA emitem 20 toneladas per capita _ ainda tem “espaço” para aumentar suas emissões.

No caso dos EUA, Viola afirmou que o governo de Barack Obama “avançou muito pouco” na luta contra o aquecimento global, apesar da aprovação no ano passado de uma lei de energia e clima: “A lei aprovada é insuficiente e, em caso de vitória do Partido Republicano nas eleições parlamentares de novembro, a possibilidade de aprovação de uma lei do clima mais abrangente certamente será abandonada”, avaliou.

(Transcrito do site de Carta Maior)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mais um pouco do jogo sujo que está em curso

Transcrito do site de CARTA CAPITAL.

CartaCapital responde à vice-procuradora do TRE
Redação Carta Capital 20 de setembro de 2010 às 18:11h

Vice-Procuradora Geral Eleitoral intima revista a entregar contratos com o governo federal. Leia nossa resposta

A Editora Confiança, que edita a revista CartaCapital, recebeu na tarde desta quinta-feira 16 um ofício assinado pela Sra. Sandra Cureau, Vice-Procuradora Geral Eleitoral.

Nele somos requisitados a apresentar no prazo de 5 dias as cópias de todos os contratos publicitários que assinamos com o governo federal nos anos de 2009 e 2010.

Nos únicos dois parágrafos do ofício – leia o fac-simile no slide show deste site – não há qualquer referência às motivações que ensejaram a solicitação, nem o nome dos autores do pedido junto ao TRE.

Abaixo, os leitores têm o contéudo integral de nossa resposta ao referido ofício, que será protocolado naquele Tribunal.

Agradecemos desde já as dezenas de cartas e moções de solidariedades que recebemos e informamos aos nossos leitores que na edição de CartaCapital que vai às bancas nesta sexta-feira 24, publicaremos uma matéria sobre o assunto.

Leia aqui a reposta ao TRE:

São Paulo, 20 de setembro de 2010.

Excelentíssima Senhora Vice-Procuradora Geral Eleitoral

Acuso o recebimento do ofício de número 335/10-SC, expedido nos autos do procedimento PA/PGR 1.00.000.010796/2010-33 e, tempestiva e respeitosamente, passo a expor o que se segue.

Para melhor atender ao ofício requisitório de relação nominal de contratos de publicidade celebrados entre o Governo Federal e a Editora Confiança Ltda. – revista CartaCapital –, tomamos a iniciativa e a cautela de consultar, por meio de repórter da nossa sucursal de Brasília, os autos do procedimento geradores da determinação de Vossa Excelência. Verificamos tratar-se de denúncia anônima, baseada em meras e afrontosas ilações, ou seja, conjecturas sem apoio em elementos a conferir lastro de suficiência.

Permito-me observar que a transparência é princípio insubstituível a nortear esta publicação, iniciada em 1994 e sob minha responsabilidade. Nunca nos recusamos, portanto, dentro da legalidade, a apresentar nossos contratos e aceitar auditorias e perícias voltadas a revelar a ética que nos orienta. Não podemos, no entanto, aceitar uma denúncia anônima, que, como já decidiu o Supremo Tribunal Federal ao interpretar o artigo 5º, inciso IV, da Constituição da República (“é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”), afronta o Estado democrático de Direito e por esta razão é indigna de acolhimento ou defesa e desprovida da qualidade jurídica documental.

A propósito do tema, ao apreciar o inquérito número 1.957-PR em sessão plenária realizada em 11 de maio de 2005, o STF decidiu, sobre o valor jurídico da denúncia anônima, só caber apurar a acusação dotada de um mínimo de idoneidade e amparada em outros elementos que permitam “apurar a sua verossimilhança, ou a sua veracidade ”.

Se esse órgão ministerial, apesar do exposto acima, delibera apresentar a requisição referida nesta missiva, seria antes de tudo necessário, nos termos do art. 2º da Lei nº 9.784/1999, esclarecer e indicar os motivos da mesma, justificação esta que se encontra, me apresso a sublinhar, ausente da aludida requisição.

Cabe ainda ressaltar que todos os contratos firmados pela Administração Pública federal com a Editora Confiança, em atenção ao art. 37 da Constituição Federal, foram devidamente publicados em Diário Oficial da União e nas informações disponibilizadas na internet e, portanto, estão disponíveis à V. Excia.

Por último, esclarecemos que o levantamento de dados referido na requisição desse órgão implicará em uma auditoria nos arquivos dessa editora quanto aos exercícios de 2009 e 2010. Evidentemente, essas providências não cabem em um exíguo prazo de 5 dias, mas demandam meses de trabalho. Desse modo, se justificada adequadamente a realização de um tal esforço, indagamos ainda sobre a responsabilidade pelos custos correspondentes.

Ausente os pressupostos que justifiquem a instauração da investigação, requeremos o seu arquivamento. E mais ainda, identificado o autor da denúncia ainda mantido sob anonimato, ou no caso desta Procuradoria entender pela existência de indícios a dar suporte à odiosa voz que nos carimba de “imprensa chapa-branca”, nos colocamos à disposição para prestar as informações e abrir nossos arquivos e sigilos bancários e fiscais, observados, sempre e invariavelmente, os preceitos legais aplicáveis.

Atenciosamente,

MINO CARTA
Diretor de redação e sócio majoritário
Editora Confiança Ltda

A INDIGNAÇÃO DE DILMA É DE TODOS OS CIDADÃOS DECENTES

domingo, 19 de setembro de 2010

 Segue abaixo mais um artigo sobre a propaganda descarada e sem escrúpulos que o JN faz contra o governo atual, transcrito do blog "Balaio do Kotscho"
 
17/09/2010 - 11:55

Manchetes que viram propaganda eleitoral

Pelos comentários que leio diariamente aqui, os leitores estão cada vez mais indignados com o comportamento da grande imprensa brasileira na cobertura da campanha eleitoral de 2010. Um exemplo que resume a bronca da maioria é a mensagem enviada às 14h06 desta quinta-feira pelo leitor Eduardo Bonfim, pedindo que eu me manifeste sobre o assunto:
“Prezado Ricardo Kotscho
Sou fã do seu blog. Gostaria que você escrevesse um artigo sobre a propaganda que a Rede Globo vem fazendo no Jornal Nacional (JN no Ar) todos os dias, onde claramente só mostra a parte ruim do Brasil para que o povo vote no 45. Realmente, o casal do JN é 45. Isso é liberdade de imprensa?”
Sim, meu caro Eduardo, esta é a liberdade de imprensa que os oligopólios de mídia defendem. Ninguém pode contestá-los. Trata-se de um direito absoluto, sem limites. O citado JN no Ar, por exemplo, levanta todo dia a bola dos problemas das cidades brasileiras, onde falta de tudo e nada funciona. No mínimo, tem lugar onde falta homem e tem lugar onde falta mulher… Logo em seguida, entra o programa do candidato José Serra para apresentar as soluções.
Na outra metade do programa tucano, em tabelinha com os principais veículos de comunicação do país, são apresentadas as manchetes dos jornais e revistas com denúncias contra a candidata Dilma Rousseff, o governo Lula e o PT, numa sucessão de escândalos sem fim até o dia de disparar a tal “bala de prata”.
Já não dá mais para saber onde acaba o telejornal e onde começa o horário político eleitoral, o que é fato e o que é ilação, o que é notícia e o que é propaganda. A estratégia não chega a ser original. Mas, desde o segundo turno entre Collor e Lula, em 1989, eu não via uma cobertura tão descarada, um engajamento tão ostensivo da imprensa a favor de um candidato e contra o outro.
O esquema é sempre o mesmo: no sábado, a revista Veja lança uma nova denúncia, que repercute no JN de sábado e nos jornalões de domingo, avançando pelos dias seguintes. A partir daí, começa uma gincana para ver quem acrescenta novos ingredientes ao escândalo, não importa que os denunciantes tenham acabado de sair da cadeia ou fujam do país em seguida. Vale tudo.
Como apenas 1,5 milhão de brasileiros lê jornal diariamente, num universo de 135 milhões de eleitores, ou seja, o que é quase nada, e a maioria destes leitores já tem posição política firmada e candidato escolhido, reproduzir as manchetes e o noticiário dos impressos na televisão, seja no telejornal de maior audiência ou no horário de propaganda eleitoral, é fundamental para atingir o objetivo comum: levar o candidato da oposição ao segundo turno, como aconteceu em 2006.
À medida em que o tempo passa e nada se altera nas pesquisas, que indicam a vitória de Dilma no primeiro turno, o desespero e a radicalização aumentam. Engana-se, porém, quem pensar que o eleitorado não está sacando tudo. Basta ler os comentários publicados nos diferentes espaços da internet _ este novo meio que a população vem utilizando mais a cada dia, para deixar de ser um agente passivo no mundo da informação e poder formar a sua própria opinião.
Em tempo: não tem jeito. Quanto mais denunciam, atacam, escandalizam, mais aumenta a diferença de Dilma para Serra. No novo Ibope divulgado esta noite pelo Jornal Nacional, o abismo entre os dois candidatos abriu de 24 para 26 pontos (51 a 25). O casal JN estava todo vestido de preto. A estratégia kamikase só está fazendo o candidato da oposição cair mais ainda nas pesquisas. Como vai ficar a credibilidade da imprensa depois das eleições?

Mais um pouco do jogo sujo que está em curso

Transcrito do blog do Len:

Em primeira mão

Notícia quente de fonte mais quente ainda. A coisa está prestes a feder para um jornalista da Veja.
Segundo a fonte, o delegado aposentado da Polícia Federal Onésimo de Souza, deu depoimento à Polícia Federal que desdiz a alegação que teria sido convidado a participar de um grupo de inteligência da campanha de Dilma Rousseff. Quando perguntado sobre afirmações anteriores respondeu que “ouviu errado”.
Segundo Onésimo, quem inventou toda a história de grupo de espionagem da campanha de Dilma foi o jornalista Policarpo Junior, da revista Veja.  Onésimo acusa o jornalista ainda de estar de posse de documentos que foram roubados no comitê de Dilma, o tornando responsável no mínimo de receptação de produto de furto. Policarpo poderá ser processado segundo o agente da Polícia Federal que informou a nossa fonte.
Onésimo, que depois de aposentado se tornou da membro da equipe de espionagem chefiada pelo Marcelo Itagiba que José Serra montou no Ministério da Saúde, revelou que depois brigou com o grupo, porém ainda possui as gravações ilegais que fez a mando do grupo de espionagem montado por Serra. Segundo Onésimo, o grupo investigou a vida de todo mundo, desde adversários até aliados.
O depoimento de Onésimo à Polícia Federal corre em segredo de justiça, portanto não temos link para apontar para o depoimento, mas podemos afirmar que a fonte é quente e depois que vazar essa informação, a PF não vai mais conseguir segurar a informação.
Em breve, muito em breve, essa bomba vai estourar no colo do Serra e do jornalismo criminoso da revista Veja. O jantar entre Policarpo e Onésimo noticiado pelo Conversa Afiada na semana passada era um acerto de contas entre os dois. Policarpo está tremendo na base e querendo saber do teor do depoimento de Onésimo.
Se nós conseguirmos a cópia do documento nós publicamos aqui.



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

UMA ELEIÇÃO QUE FICARÁ NA HISTÓRIA

Acredito que estamos vivendo um período muito importante para a democracia brasileira. e que lembra muito o período que antecedeu a eleição e posse de Juscelino. Da mesma maneira que tentou naquela ocasião impedir que Juscelino fosse eleito e, se eleito, tomasse posse,  tenta agora, novamente interferir na eleição de Dilma, candidata largamente apoiada pela maioria da população. O nível de manipulação rasteira da imprensa dominante é repugnante. Mais repugnante ainda é ouvir alguns representantes da classe média, leitores fiéis dessa imprensa, repetirem como papagaios as mentiras e insinuações infames que esses órgãos de desinformação conseguem colocar em suas cabeças, numa eficiente lavagem cerebral.
Não sou tão ingênuo, a ponto de acreditar que o governo do presidente Lula, como um todo, é perfeito e um modelo de honestidade e candura. Isso não existe em lugar nenhum do mundo. A questão é que nos governos anteriores a corrupção, a incompetência e todos os outros males que afligem o grande monstro que é a administração de um país com dimensões continentais como o Brasil, existiu com igual ou maior intensidade. Mas como os interesses da grande impressa foram satisfeitos, pouco ou nada se falou sobre esses assuntos. Os meios de comunicação são hoje uma perigosíssima arma de controle da opinião pública. E o mais preocupante é que esse poder está nas mãos de quatro grandes grupos, que manipulam a informação de acordo com seus interesses e a população, ingenuamente, fica à mercê dessa manipulação. Felizmente ainda não controlam a internet, o que desejariam ardentemente poder fazer. E é através da internet que as informações escondidas por eles vêm à tona e são divulgadas abertamente, para quem quiser saber. Além disso, jornalistas honestos e de grande qualidade profissional, através de seus blogs, divulgam informações que mostram toda a podridão que está por trás da manipulação da imprensa. E é graças a isso que vou colocar a seguir diversas transcrições de excelentes blogs de informação, para que quem não tem paciência ou não sabe como encontrar informações relevantes na internet possa encontrar parte delas aqui.


Do blog Tudo Em Cima, do André Lux, transcrevo o texto abaixo.



Sexta-feira, 17 de setembro de 2010


Operação "Salva Serra"! Folha: a mentira na primeira página

- por Luis Nassif, em seu blog

O que a Folha está fazendo é algo inédito, que nunca testemunhei em quarenta anos de jornalismo, mesmo com todos os exageros dos anos 90.

Ontem, apresentou um suposto empresário, sócio de uma empresa, a EDRB, que teria pleiteado um financiamento de mais de R$ 9 bilhões no BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) para implantar um parque eólico,. Segundo o jornal, o financiamento teria sido rejeitado pelo fato do tal empresário não ter concordado em pagar R$ 5 milhões em propinas ao filho da Ministra-Chefe da Casa Civil.

"Não aceitamos pagar nada. Temos investidores, empresas que querem construir, gerar alguma coisa, e não criar vagabundos dessa forma", disse à Folha Rubnei Quícoli.

Em um boxe pequeno, o jornal admitia que esse poço de virtudes - cuja palavra era a única prova que apresentava - tinha dois inquéritos por golps na praça (interceptção de carga roubada e posse de dinheiro falso) e passara dez meses preso em 2007. Essa é a única fonte na qual o jornal se baseou para a denúncia.

No decorrer do dia, apareceram as seguintes informações:

1. A EDRB negou que o sujeito fosse sócio. O sujeito – um escroque condenado – apareceu na empresa e pediu dados para tentar obter financiamentos e ajuda para o projeto, assim como várias outras pessoas, segundo nota oficial da EDRB.

2. Ele vai até o filho da Erenice e apresenta uma proposta para que seja consultor do projeto., acompanhando a parte jurídica do projeto No mercado é praxe comissão de 5 a 7% para projetos elaborados para o BNDES. É evidente que, pelas informações até agora veiculadas, Israel Guerra não tem a menor condição de ser consultor de nada.

3. Aí, foi até o BNDES e encaminhou um pedido de financiamento de R$ 2,3 bilhões, que não tinha NENHUMA condição de ser aceito. A empresa não tinha porte para obter o financiamento e sequer tinha definido o local do projeto. Logo, não tinha como apresentar o laudo do Ibama – condição necessária para a aprovação de qualquer projeto dessa natureza. O projeto foi rejeitado liminarmente em reunião do qual participam todos os superinetendentes do banco. Nem com ordem direta do presidente da República seria possível a aprovação do projeto.

4. A EDRB é uma pequena empresa de Campinas, subsidiária da Órion Tecnologia, empresa média que trabalha com automação industrial.

As informações acima são públicas, divulgadas através de notas oficiais da EDRB e do BNDES.

Confira o que o jornal faz com as informações:

Na primeira página:

«A empresa EDRB, de Campinas, acusa o filho de Erenice e um assessor dela de pedir R$ 240 mil mais 5% de comissão para intermediar empréstimo no BNDES».

A EDRB negou qualquer contato com quem quer que fosse. Informa que o tal escroque apareceu na empresa e pediu dados sobre a tecnologia desenvolvida, prometendo ajudar.

Consultor diz ter alertado sobre "extorsão"

Rubnei Quícoli, que denunciou esquema de lobby operado por filho de ex-ministra, afirma ter avisado a Casa Civil

Representante da EDRB teria revelado cobrança por e-mail e ameaçou "fazer chegar" o recado ao comando da pasta

RUBENS VALENTE
FERNANDA ODILLA
ANDREZA MATAIS
DE BRASÍLIA

O consultor Rubnei Quícoli diz ter alertado a Casa Civil sobre a existência do esquema de lobby que era operado dentro do órgão pelo filho da então secretária-executiva, Erenice Guerra.

Aqui ele vira consultor, não mais está falando em nome da empresa.
A Folha obteve cópias de dois e-mails, que ele alega ter enviado em 1º de fevereiro, endereçados a assessores e secretárias de Erenice. Na época, a ministra da Casa Civil era Dilma Rousseff (PT).

Dois emails recebidos de uma pessoa que acaba de sair da cadeia, condenado por interceptação de carga roubada e falsificação de dinheiro, serve de prova para o jornal.
Nos textos, o consultor reclamava da cobrança de dinheiro para que a empresa de energia EDRB recebesse um empréstimo no BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e pedia que Erenice e Dilma fossem avisadas.

Não tinha nenhuma possibilidade do empréstimo ser aprovado, como informou o banco – sem que sua informação possa ser questionado.

O projeto pleiteado pela EDRB previa a captação de recursos junto ao banco para a construção de torres geradoras de energia solar no Nordeste. Quícoli foi contratado pelos donos da EDRB para, segundo eles, "fazer virar o negócio".

Informação desmentida pelos donos da EDRB em nota oficial, que foi ignoarada pelo jornal.
A ideia foi apresentada em audiência na Casa Civil em 10 de novembro. Pela EDRB, estavam um dos sócios, Aldo Wagner, e Quícoli. Ambos dizem que Erenice participou da reunião, o que ela nega.

Não há nenhuma evidência de que o jornal tenha ouvido Aldo Wagner, nenhuma entrevista, nenhuma aspas. Os dois outros sócios da empresa desmentiram categoricamente qualquer participação na armação.
Ontem a Folha revelou que a Capital Consultoria, firma do filho de Erenice, encaminhou à EDRB uma minuta de contrato, cobrando R$ 240 mil e 5% de "comissão de sucesso" sobre o empréstimo, caso fosse aprovado.

Se encaminhou minuta de contrato, é porque houve uma proposta de contratá-la. É nítida a armação visando envolver o picareta Israel Guerra.

As suspeitas de tráfico de influência resultaram na demissão de Erenice, que havia substituído Dilma no comando da Casa Civil em abril.
Quícoli e Wagner confirmaram à Folha o recebimento em 10 de dezembro da minuta de contrato -que o consultor chamou de "extorsão". A EDRB negou-se a assiná-lo. Em março, o BNDES rejeitou o pedido de crédito.

Outra mentira: relacionar a rejeição do pedido de financiamento pelo banco ao não pagamento da consultoria de Israel. E mente-se mesmo após as explicações do banco sobre a absoluta impossibilidade de conceder um empréstimo como o solicitado.

Quícoli disse ontem que, com a recusa, o projeto parou de andar. Ele, então, decidiu avisar a Casa Civil.

Num e-mail, o consultor ameaçou revelar o pedido de dinheiro feito pela empresa Capital. Em outro e-mail, Quícoli escreve não ter "vínculos com bandidos". Ele encerra, em tom de ameaça, com o pedido de que a mensagem fosse encaminhada ao comando da Casa Civil.
"Se vocês não fizerem chegar [a mensagem], eu faço chegar", escreveu.

A armação de um escroque feita em cumplicidade com o jornal e com José Serra – que há dias vem antecipando essa denúncia.



Do blog Óleo do Diabo, transcrevo outro texto interessante.

Desvendando a baixaria

Depois de quase ter uma síncope nervosa ontem, devido à overdose de manipulações escroques que detectei na imprensa, e que não melhorou muito hoje depois de ler O Globo, finalmente consegui alinhavar as idéias:

  1. A mídia misturou denúncias completamente diferentes. É uma estratégia velha. 
  2. Uma coisa é a suspeita de nepotismo. Não nos esqueçamos, porém, que a lei é recente, tem apenas dois anos. E não se pode condenar Erenice sem ouvi-la, sem lhe dar direito à defesa. A filha de FHC trabalhava para o senador Heráclito Fortes sem ao menos frequentar o escritório deste, para ficar apenas em um exemplo. Não é questão de justificar um erro pelo outro, mas de apontar a hipocrisia e a indignação seletiva. 
  3. Outra coisa é a denúncia do tal ex-presidiário, uma verdadeira peça de ficção. E foi essa denúncia que derrubou Erenice. Os jornalões não tiveram nenhum escrúpulo em reproduzir as acusações de Rubnei Quícoli, que tinha notória intenção de interferir eleitoralmente. A Folha, outros jornais, e sobretudo o Jornal Nacional, conhecia o currículo de Quícoli, e mesmo assim deram cartaz ao bandido. As declarações de um bandidão serviram para dar liga e credibilidade a uma outra série de acusações também nebulosas e inconsistentes da revista Veja.
  4. O Jornal Nacional informou rapidamente e apenas ao final da edição de quinta-feira sobre a ficha criminal de Rubnei Quícoli, e não pelo próprio jornal - a informação quebrada e incompleta veio embutida na defesa resumida do presidente do PT, ou seja, da parte pretensamente envolvida. 
  5. Só hoje, sexta-feira, depois de causar prejuízo irreparável à campanha de Dilma Rousseff, o Jornal Nacional deu destaque à ficha criminal de Quícoli. Todo mundo que assistiu o JN ontem e hoje, que é sexta-feira, dia de happy hour, não assistiu, ficará com os depoimentos de Quícoli na cabeça. E mesmo assim, mesmo revelando a ficha de Quícoli, o JN aprontou uma outra: o repórter declarou que, apesar do passado de Quícoli, a Casa Civil o recebeu, como se fosse possível a funcionários subalternos do governo conhecer o histórico de cada pessoa com quem conversam.
  6. Essa foi a cachorrada. Usar Quícoli para derrubar uma ministra. O nome disso é... baixaria. 
Essa baixaria veio na forma de um ataque surpresa, maciço e devastador. Editoriais, colunas, fotos, gráficos, infográficos, tudo junto com o objetivo de criar uma imagem negativa de Erenice Guerra. Ancelmo Góes chegou a publicar, no dia 14, uma notinha nojenta, mesclando Erenice com nomes envolvidos em crimes graves:


O mais nojento dessa pérola de preconceito de Ancelmo é usar nomes ligados a crimes ocorridos durante o governo FHC. Os Vedoin, por exemplo, ligados à máfia das ambulâncias, agiram durante a gestão de Serra no ministério da Saúde. Aliás, eles acusaram Serra de envolvimento. 




Da Agência Carta Maior transcrevo o texto abaixo.


A HORA DOS RUBNEIS.

VOX POPULI: 78% DOS ELEITORES ESTÃO DEFINIDOS.
DILMA, 26 PONTOS À FRENTE DE SERRA
A coalizão demotucana e seu dispositivo midiático atiram-se com sofreguidão em qualquer 'língua negra' que desponte no solo ressequido da semeadura eleitoral demotucana. Como tem anunciado todos os seus colunistas de forma mais ou menos desabrida, às vezes escancarada, a exemplo de Fernando Rodrigues, da Folha, há uma 'encomenda' em licitação no mercado de compras do denuncismo lacerdista: "...é necessário um escândalo de octanagem altíssima (com fotos e vídeos de dinheiro) ...', especificou o jornalista em seu blog no dia 14-09. Na ausencia de oferta equivalente, usa-se por enquanto o que aparecer. Apareceu um 'empresário' , Rubnei Quícoli, indignado com supostas práticas de lobby, segundo ele, encasteladas na engrenagem da Casa Civil do governo, comandada pela agora ex- iministra Erenice Guerra. A Folha elevou-o à condição de paladino da honestidade. Esponjou-se no material pegajoso derramado da obscura tubulação. Claro, há o Manual de Redação, sobretudo as aparências de uma redação. Muito lateralmente, então, informa-se na 'reportagem-derruba-Dilma' que a fonte da indignação cívica que adiciona novo tempero ao cardápio diário apregoado pelos Frias inclui em sua folha corrida o envolvimento comprovado com roubo de carga, falsificação de 'notas de cinquenta reais', flagrante com BMW roubada e crime de coação, não detalhado. Há pouco tempo para detalhamentos. Nem o mínimo cuidado com a averiguação de valores se observa.O escroque que já cumpriu pena de 10 meses de cadeia, lambuzou a Folha com cifras suculentas e isso era o bastante: a negociata envolveria a 'facilitação' para um empréstimo de R$ 9 bilhões junto ao BNDES , desde que em contrapartida fossem desviados quase R$ 500 milhões a intermediários de uma cadeia supostamente iniciada com parentes ou subalternos da ministra Erenice Guerra para desembocar em caixas de campanha de candidatos do governo. Se a sofreguidão da Folha fosse menor, o jornalista, quem sabe seu editor, quiça o próprio diretor do jornal teriam tido a cautela de verificar a existência no BNDES de projeto e valores mencionados, já que o acepipe oferecido pelo ladrão de carga de tempero remetia à liberação de financiamento barrado na instituição. Se tal fosse a prática, o leitor teria a oportunidade de saber, em primeiro lugar, que os valores relatados são absurdos (equivalem a meia usina de Belo Monte para fornecer 6% da energia que ela prevê); ademais, há discrepância de cifras entre o relato do meliante e o projeto que deu entrada no BNDES, cujo corpo técnico jamais o aprovaria. Diz a nota do banco divulgada 5º feira,"[o referido projeto]...foi encaminhado por meio de carta-consulta, solicitando R$ 2,25 bilhões (e não R$ 9 bilhões como afirma a reportagem) para a construção de um parque de energia solar. O BNDES considerou que o montante solicitado era incompatível com o porte da referida empresa. Vetou a solicitação. Naturalmente, isso comprometeria um pouco a 'octanagem' da manchete de seis colunas com duas linhas bombásticas saídas da sinergia estabelecida entre a Folha e um ladrão de carga de condimento. Não há tempo para minúcias. Restam apenas duas capas de VEJA para detonar a vantagem de Dilma e tentar uma sobrevida que leve Serra ao 2º turno. Essa é a lógica do que vem por aí. A esposa do candidato, Monica Serra, já diz em campanha de rua que "ela [Dilma] quer matar as criancinhas". Nas redações circulam rumores de que o comando demotucano estaria interessado em depoimentos de parentes de militares mortos em confrontos com grupos da esquerda armada, nos anos 70. Em especial se houver, ao menos, leve insinuação de suposto comprometimento de Dilma Rousseff.

(Carta Maior, 17-09)


Transcrevo a seguir texto do Blog do Emir:


17/09/2010

Balanço da campanha na sua reta final

Com todas suas turbulências – naturais, conhecendo o que tem sido o desespero da oposição, que tem na velha imprensa seu peso essencial -, a campanha presidencial deste ano não poderia ter sido, até aqui, mais racional, normal, até onde pode esperar racionalidade de um processo como esses.

Está triunfando, de maneira avassaladora, a candidata de um governo que tem um apoio extraordinário da população. Lula tinha anunciado que seria a campanha mais fácil, porque seria possível mostrar as realizações do governo, ao final de um ciclo de 8 anos, que conta com uma popularidade que nunca havia sido obtida ao final do mandato.

Essa previsão se revelou correta. A liderança do Serra ao longo de tantos meses se assentava no conhecimento do seu nome, que contrastava com a decisão dos mesmos que optavam por seu nome, pela vontade de votar no candidato do Lula. Isto levou o Serra a tentar, em um primeiro momento, a tentar passar a imagem do melhor continuador do governo Lula – espelhada no seu lema inicial, de que “pode mais” e na utilização da imagem do Lula, elogiosamente, no seu programa eleitoral -, até que se deu conta que o mecanismo esperado passava a se realizar inexoravelmente: esses votos eram transferidos para Dilma, conforme ela foi aparecendo como a candidata de continuação do governo, para o qual ela tinha sido coordenadora essencial.

O começo da campanha de televisão e a multiplicação dos comícios pelo Brasil afora foram o elemento de consolidação de uma vantagem que nas pesquisas passou a ser maior do que 20%, se aproximando dos 30%, o que provocou crise de identidade, desconcerto e paralização da campanha opositora. Nesse vazio se projetaram as tendências que pregavam uma radicalização da campanha, como único espaço que restava ao candidato opositor.

Passou-se à fase atual, com um contraponto claro entre campanha de balanço de um governo de sucesso, com projeção da sua continuidade para o futuro, e ausência de algo similar nem sequer onde Serra e os tucanos governaram por mais de 10 anos – São Paulo. As denúncias, com a esperança de que o fenômeno da passagem ao segundo turno na campanha de 2006 pudesse resgatar a queda nas pesquisas e brecar o avanço da Dilma.

O denuncismo foi a tônica opositora, levando a imprensa brasileira a um dos piores momentos da sua história – ainda superada pelo apoio unânime dos órgãos atuais ao golpe militar e à ditadura que se instaurou em 1964. Atuou de forma coerente com a declaração da executiva da FSP de que, dada a fraqueza dos partidos opositores, a velha mídia era o verdadeiro partido da oposição.

Se valem de tudo – de indícios reais a provas forjadas, de declarações de fontes sem nenhuma credibilidade a mentiras – no desespero, protagonizando a campanha eleitoral no lugar do candidato opositor, dilapidando o resto de credibilidade que lhe restava. (Falar e escrever todo o tempo contra o governo e obter apenas 4% de rejeição do governo demonstra a que nível de falta de credibilidade chegaram).

Apesar de todos os escândalos forjados pelo denuncismo, Dilma se encaminha para ganhar no primeiro turno, impondo uma derrota de proporções à direita. Derrota, em primeiro lugar, da velha imprensa. Em segundo lugar, dos tucanos paulistas. Em terceiro, do DEM. Vitória, em primeiro lugar, do governo Lula, do Lula e da Dilma. Em segundo, do conjunto do campo popular – partidos, movimentos, imprensa alternativa (bloqueiros progressistas incluídos) – e do povo, que constroem uma nova maioria progressista no país.

Pode haver ainda novas atitudes da velha imprensa nestas duas semanas. Não se excluir a exploração de algum parente de vitima militar de alguma ação da resistência armada à ditadura, tentando vinculá-la à Dilma. Ela nunca participou de ações, menos ainda que tivessem vítimas do lado da ditadura. Mas como é um vale tudo, pode-se considerar a possibilidade do apelo a esse tipo de manipulação.

Da mesma forma que, no limite poderiam apelar para algum auto-atentado, algum atentado forjado por eles mesmos, para tentar transformar o candidato da oposição ou algum órgão da imprensa em vítima de suposta violência.

Não creio que nada disso possa alterar o resultado eleitoral, pelas razões de fundo que levam ao voto pela Dilma e pela proporção de votos decididos firmemente. Mas se deve ter manter todos os sinais de alerta, porque historicamente nunca as elites cederam seus privilégios sem apelar para todos os instrumentos de que dispõem.

Esse o quadro, em linhas gerais, da campanha que deve fazer com que, pela primeira vez na história deste país, um governo – teria que ser de caráter popular – conclua seu mandato de 8 anos com um extraordinário apoio e eleja seu sucessor. Para comemorar mais: uma mulher, de formidável competência e de trajetória exemplar.

Estamos a pouco tempo de um momento histórico único no Brasil. Que estejamos todos à altura desse momento e do período novo que se abre na história do país. 


Ainda do site de Carta Maior, vejam o artigo abaixo.


O caso do sigilo fiscal, reedição da fraude do “bebê-diabo”
Em 1975, o diário paulista “Notícias Populares”, do grupo Folha, sustentou por quase 30 dias uma notícia forjada em torno de um tal “bebê-diabo”, que multiplicou a tiragem do jornal. Quando o público começou a se cansar, o jornal anunciou a fuga do “bebê-diabo” – e encerrou o assunto. O episódio atual em torno do sigilo fiscal repete o embuste, um clássico do jornalismo marrom, desta vez com a participação generalizada da mídia dominante. Quando ficou claro que a sucessão de manchetes não estava arranhando o favoritismo da coligação petista, os jornalões mudaram de assunto, trocando-o por outro. O artigo é de Hideyo Saito.
A acusação de que o comitê de Dilma Rousseff teria violado o sigilo fiscal de um grupo de pessoas ligadas ao PSDB e a seu candidato presidencial, José Serra, saiu das manchetes coincidentemente depois de confirmado que não está arranhando o favoritismo da petista, após feroz campanha que ocupou as manchetes da mídia oligopólica durante mais de três semanas. Nesse período, o assunto foi martelado diariamente, com manchetes anunciando supostos “desdobramentos” do caso, que, entretanto, não trouxeram qualquer prova da ligação dos fatos alegados com a coligação petista. Em 2 de setembro, aliás, o corregedor eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Aldir Passarinho Junior, já havia arquivado uma representação demotucana, que pedia nada menos que a cassação da candidatura Dilma, justamente por falta de provas. Mesmo assim a campanha da mídia – em dobradinha com a propaganda eleitoral do candidato tucano – prosseguiu, imperturbável.

A maior evidência de que se tratava de um factóide eleitoral de péssima fatura é que não houve qualquer uso de informações fiscais das supostas vítimas na campanha de Dilma ou de seus aliados. Aliás, a denúncia ganharia alguma verossimilhança se essa candidata estivesse desesperada por causa de pesquisas eleitorais desfavoráveis. Outro importante detalhe é que, como já lembrado, os fatos apontados remontam a setembro de 2009, quando Serra se engalfinhava com seu companheiro de partido, Aécio Neves, na disputa pela candidatura tucana. Naqueles dias, surgiram falatórios sobre o jogo pesado que ambos os lados estavam protagonizando.

Mesmo a ilação, surgida a partir do episódio, de que a Receita Federal está “aparelhada” pelo PT dificilmente se encaixa com as denúncias. Ora, se isso é verdade por que o partido teria de apelar a um obscuro contador para solicitar, mediante uma procuração falsa, as informações desejadas? Recordemos que os operadores tucanos, quando manobraram para colocar a Previ a favor de Daniel Dantas na privatização das empresas de telecomunicações, não se valeram de recursos tão toscos. Tinham o controle do Banco do Brasil e dispensaram intermediários de baixo calibre (1).

O fato é que o assunto subitamente saiu das manchetes, substituído por outro. O jornal eletrônico “Brasília Confidencial” de 10 de setembro, em editorial intitulado “Monstruosa armação”, registrou que a própria “Folha de S. Paulo”, na edição do dia imediatamente anterior, teve de desmentir as acusações. Diz o editorial: “A Folha confessa, em texto sem assinatura, produzido pela sucursal de Brasília: o comitê de Dilma não produziu um dossiê; apenas teve acesso a um dossiê feito pelo PT de São Paulo há cinco anos. Trata-se, na verdade, de uma papelada de cem páginas escrita pelo partido para solicitar que o Ministério Público e a Procuradoria da República investigassem possíveis irregularidades em privatizações tucanas, que poderiam ter beneficiado José Serra, sua filha e seu genro”. Mesmo assim, constata, “a Folha não se retrata: limita-se a noticiar ‘naturalmente’ que mentiu”. (2)

O leitor atento poderia legitimamente questionar esse sumiço repentino da notícia: afinal, não diziam que se tratava de um fato capaz de por em cheque até mesmo a democracia brasileira? A oposição, incluída aí toda a grande imprensa e seus jornalistas mais subservientes, gastou toneladas de papel para alardear uma ameaça de mexicanização e o avanço do totalitarismo no Brasil. É legítimo questionar como um assunto tão transcendental desaparece das manchetes de uma hora para outra. Mas foi exatamente assim, sem qualquer cerimônia, que o assunto ficou relegado às páginas internas.

O “bebê-diabo” que infernizou São Paulo
A mídia oligopólica, definitivamente, mandou às favas qualquer compromisso com a verdade, com a ética e com os mais comezinhos princípios do jornalismo. A sucessão diária de manchetes vazias desse caso lembra um lamentável precedente, clássico do jornalismo marrom, criado pelo hoje extinto jornal “Notícias Populares”, também do grupo Folha (ora, ora, eles têm tradição no ramo!). Trata-se da farsa anunciada em manchete da edição de 10 de maio de 1975: “Nasceu o diabo em São Paulo”. O jornalista Edward de Souza assinou involuntariamente a primeira matéria, que resultou de completa distorção do que havia sido efetivamente apurado na rua. O mais incrível é que a mentira foi sustentada durante quase um mês, em seguidas manchetes.

Tudo começou, segundo ele, quando o editor do jornal o escalou para averiguar um boato segundo o qual, em São Bernardo do Campo, havia nascido uma criança estranha, com chifres e até rabo. Os médicos do hospital esclareceram, entretanto, que se tratava apenas de um bebê com malformação, que apresentava “um prolongamento no cóccix e duas pequenas saliências na testa”. O problema foi eliminado por uma cirurgia simples realizada na própria maternidade. “Escrevi o relato – prossegue o jornalista – sem nenhum sensacionalismo, em texto de 30 linhas. No domingo pela manhã vi o jornal com a manchete forçada e a minha assinatura. Fiquei apavorado, temendo processo e demissão por justa causa.” (3)

O texto da notícia tinha trechos completamente inventados, como este, de abertura: “Durante um parto incrivelmente fantástico e cheio de mistérios, correria e pânico por parte de enfermeiros e médicos, uma senhora deu a luz num hospital de São Bernardo do Campo, a uma estranha criatura, com aparência sobrenatural, que tem todas as características do diabo, em carne e osso. O bebezinho, que já nasceu falando e ameaçou sua mãe de morte, tem o corpo totalmente cheio de pelos, dois chifres pontiagudos na cabeça e um rabo de aproximadamente cinco centímetros, além do olhar feroz, que causa medo e arrepios”.

O repórter conta que, longe de ser demitido, foi elogiado pelo presidente do grupo Folha, Octavio Frias de Oliveira, que o chamou a seu gabinete. Ele determinou ainda que a matéria deveria ter continuidade. Foram ao todo 27 “reportagens”, que ajudaram a elevar a tiragem do jornal de 80 mil para 200 mil exemplares diários, de acordo com Souza. Algumas das mirabolantes manchetes da série: “Bebê-diabo inferniza padre no ABC”; “Nós vimos o bebê-diabo”; “Feiticeiro irá ao ABC expulsar bebê-diabo”; “Viu bebê-diabo e ficou louca”; “Santo previu bebê-diabo”; “Fazendeiro é o pai do bebê-diabo” e “Bebê-diabo foge para o nordeste”. O ponto alto foi alcançado no dia em que o jornal “informou” que o bebê-diabo tomou um taxi e assustou o motorista quando ordenou: “Toca para o inferno”. Mas assim que o assunto começou a cansar, o jornal anunciou a fuga do seu incrível personagem. E a notícia saiu das capas do jornal de uma hora para outra, como aconteceu com o caso do sigilo fiscal.

Ambas as fraudes são similares, pois visam em essência enganar o leitor. O objetivo do “Notícias Populares” foi meramente o de ganhar dinheiro com a mistificação, que foi então desdenhosamente ignorada pelo resto da imprensa. Já a tentativa de induzir em erro os leitores atuais, atribuindo (explícita ou implicitamente) a responsabilidade pelas quebras do sigilo fiscal à candidata Dilma Rousseff, foi encampada pelo conjunto da mídia dominante (dizem que com a isolada – e significativa – exceção dos grandes jornais de Belo Horizonte) por ideologia. A imprensa transformou-se em defensora de uma candidatura que representa melhor os seus interesses – mas o faz fraudulentamente, como se não fosse parte visceralmente interessada na disputa eleitoral. E a primeira vítima dessa postura, como sempre, é a verdade.

NOTAS

(1) Segundo gravações de conversas telefônicas dos responsáveis pelo caso, que vieram à tona na ocasião, cogitou-se até envolver o “chefe” (isto é, o então presidente FHC) na negociata.

(2) Brasília Confidencial. Monstruosa armação. Brasília, 10/09/2010. Ver no endereço http://www.brasiliaconfidencial.inf.br/?p=21097.

(3) O depoimento do jornalista foi retirado de http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=5903.


E ainda há muito mais, é só querer encontrar.  

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Povo do Lula


“O povo? Ora, o povo…”


“O povo? Ora, o povo… Se não tem pão, que coma brioches”
Atribui-se a frase em epígrafe a Marie Antoinette Josèphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine, arquiduquesa da Áustria e rainha consorte de França de 1774 até a Revolução Francesa, em 1789. Essa frase entrou para os anais da história como suprema demonstração de desprezo das elites pelas camadas majoritárias e empobrecidas das nações.
Nesta parte do mundo, o conceito fundamental da democracia, o império da vontade majoritária dos povos, sempre foi relativizado. Os estratos superiores da pirâmide social sempre acharam que o povo não sabe o que é melhor para si e sempre se dispuseram a tutelá-lo.
A crença aristocrática na ignorância intrínseca das camadas populares e a conseqüente relativização da vontade de maiorias que jamais se formam sem tais camadas fundamentou por aqui aberrações como uma ditadura militar que estuprou a vontade das urnas e destituiu, sem qualquer processo legal, um governo legitimamente eleito.
Há pouco, em um pequeno país centro-americano a violação da vontade da maioria se deu por meio de um golpe de Estado desfechado na calada da noite, no qual o presidente da República, detentor de inquestionável mandato popular delegado pela maioria dos cidadãos, foi colocado de pijamas em um avião e deportado sumariamente. Por aqui, a direita midiática apoiou o golpe e desandou a verter teorias segundo as quais a vontade da maioria não bastaria para garantir ao eleito o mandato que recebeu.
O discurso da direita midiática tupiniquim, portanto, tal como há mais de cinqüenta anos continua sendo o de relativizar o direito democrático das maiorias de fazer julgamentos políticos e, assim, eleger ou não os que governarão, sempre usando como desculpa supostos pecados das massas que as inabilitariam a tomar tais decisões.
Editorial do jornal O Estado de São Paulo de hoje trata dessa maneira o povo brasileiro. O povo? Ora, o povo se vende por “badulaques” propiciados pela bonança econômica, diz, em outras palavras, texto que representa a versão contemporânea da frase histórica de Maria Antonieta.
São “badulaques” como o de jovens negros e pobres se converterem nos primeiros universitários de famílias que, antes deste governo, jamais haviam sonhado com tanto. Miçangas para brucutus como a de 14 milhões de brasileiros entrarem para um mercado formal de trabalho que o governo anterior dizia que só seria ampliado com supressão de direitos trabalhistas.
O último parágrafo do editorial do centenário jornal paulista dispensa o leitor da pena da leitura de toda aquela peça de cinismo, de arrogância e de uma certa alienação quanto ao que é o Brasil contemporâneo. Sobre a tendência esmagadora que as pesquisas revelam de que Dilma Rousseff seja eleita presidente em três semanas, diz o texto:
“Está errado o povo? A resposta a essa pergunta será dada em algum momento, no futuro. De pronto, a explicação que ocorre é a de que, talvez, o povo de Lula seja constituído de consumidores, não de cidadãos”.
O “povo de Lula”… Não é a maioria massacrante do povo BRASILEIRO que as pesquisas mostram que elegerá Dilma Rousseff a despeito de todo o bombardeio acusatório – considerado sem provas pela Justiça – que os aliados de José Serra na mídia e o próprio candidato usam sem parar para tentar modelar a vontade da população. É o “povo de Lula”.
Se encontrasse hoje a “Lâmpada de Aladim”, pediria ao gênio que me facultasse ocupar rede nacional de rádio e TV para ler a acusação do jornal paulista ao povo brasileiro. Em seguida, poderia partir em paz desta vida, ciente de que finalmente conseguira revelar ao meu povo quem são esses maníacos que há gerações tentam impor seus delírios a toda uma nação.

Texto transcrito do Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães