segunda-feira, 29 de março de 2010

Excelente artigo, de Washington Araújo, copiado do sítio (ou site, como preferirem) "Observatório da Imprensa".


BIG BROTHER BRASIL
A quintessência da frivolidade

Por Washington Araújo em 23/3/2010

Nos últimos dez anos, o canal de maior audiência da TV aberta no Brasil exibiu durante 900 noites seguidas a atração Big Brother Brasil. Em outras palavras, a TV Globo passou mais de dois anos transmitindo, de forma ininterrupta, o programa que segue o formato criado em 1994 pelos holandeses Joop van den Ende e John de Mol, nomes que deságuam na ora famosa marca Endemol.

No conjunto, são dois anos e meio falando de prêmio de dinheiro graúdo. R$ 500 mil, R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão. E também de anjo, monstro, liderança, paredão, eliminação. E tome Pedro Bial pontificando, filosofando, misturando superego, mito do herói, arquétipo e inconsciente coletivo, Brecht e Paulo Coelho, Maiakovski e Paulo Leminski, Renato Russo e Bob Dylan, arrematando tudo com a manjada moral da história extraída possivelmente dos contos da lavra dos irmãos Grimm.

O BBB é mais atração que programa. Programa tem algum tipo de encadeamento, de estrutura enquanto atração: tem pouco de previsibilidade, a "coisa em si" é o que capta os sentidos da audiência. Há a ilusão da imprevisibilidade. Apenas ilusão, porque o que vale mesmo é a realidade fabricada ali na mesa de edição; é ali que se constroem os mocinhos e os bandidos, os "cabeças" e os iletrados, o éticos e os aéticos.

Contrariando a máxima de que homem algum é uma ilha, o BBB termina sendo a própria ilha a ter como mar suas paredes e o tempo todo é desperdiçado com conversa, namoro, intriga, ginástica, bebedeira. No entretempo, os super-heróis do Bial se digladiam para eliminar os outros e vencer. E é o vale-tudo: fazem alianças, traem, simulam, dissimulam, enfim, tentam se aproximar do Santo Graal, aquele objeto de desejo agora representado pelo cheque de R$ 1,5 milhão.

Quem está ali se depara com o dilema da modernidade: se tornará celebridade instantânea ou retornará ao anonimato. Ser celebridade, mesmo que por poucos dias, parece conceder um sentido à vida desses participantes; e renunciar aos holofotes deve, em sua estima, equivaler simbolicamente à própria morte.

Em volta da piscina

Concordo com o ótimo poeta brasiliense Gustavo Dourado. E, de sua autoria, compartilho os bem-humorados versos:

"É um joguete da mídia:/ De lucro comercial.../ Os bobos no telefone:/ Escravidão digital.../ A mando do Grande Irmão:/ Que acumula o vil metal.../// Loteria de milhões:/ Os bundões em evidência.../ Decadente baixaria:/ Em busca de audiência.../ Programinha indecente:/ Que está na repetência..."

É aquele desfile de corpos sarados – na maioria dos casos – com mentes vazias. Gigantes materiais e pigmeus éticos. Muita futilidade, caras e bocas, mau caratismo explícito, atentados ao pudor e à língua pátria, preconceitos raciais e sociais de todos os matizes. O voyeurismo estimulado pela atração supera e muito o interesse e curiosidade com que visitantes param em um zôo para observar a jaguaritaca, o filhote de anta e o urso polar, a girafa ou o flamingo.

O programa de maior audiência da televisão brasileira é a versão moderna de um zoológico, onde em vez de observar animais observamos do que são capazes semelhantes nossos trancafiados em uma jaula com aparência de casa, com jeito de casa. Ninguém joga pipoca nem banana, mas a atenção é concentrada: em determinada noite da semana se contabilizam formidáveis dezenas de milhões de ligações telefônicas jogadas na jaula em forma de casa com o nobilíssimo intuito de sensibilizar os administradores do zôo para que expulsem da casa – em forma de jaula doméstica – este ou aquele participante.

Em pleno verão carioca, sempre no período de janeiro a março, sabemos na edição noturna os que ficaram papeando na piscina ou desmaiados em volta desta, sempre em trajes sumários, sumaríssimos. E os instintos estarão, quase sempre, à flor da pele. E isso me faz lembrar os jacarés do papo amarelo, aquela espécie de jacaré que habitava rios, lagos e brejos próximos ao mar, desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul e na bacia do Rio Paraná, chegando até o Pantanal. É que ali já estiveram trancafiados gente de quase todos os estados brasileiros. Largados em volta da piscina colocando em dia seus papos amarelos. E põe amarelos nisso.

A verdadeira natureza

Todos parecem desfrutar do mesmo DNA do Pedro Bial: belos, sarados e afinados com essa cultura de frivolidades de que a atração é seu fruto mais maduro e consumido. Quando Bial surge na tela com seus jargões pomposos – meus heróis, meus ídolos, tripulantes de minha nave, habitantes da casa mais vigiada do Brasil, meus mais-mais – os participantes dão uma última retocada no visual, uma nova cruzada de pernas, e como integrantes de bem ensaiado coral capricham no sorriso e retribuem o desejo de boa noite.

Bial não consegue disfarçar seu encantamento com aqueles espécimes humanos, fala como se Oráculo fosse e tem a plena convicção que jamais – jamais! – será contraditado ou contrariado por quaisquer deles – e não importa quão infamante seja seu gracejo ou quão estúpidas as observações a ser proferidas em tom ora solene ora galhofeiro. E todos sabem que agradar o Bial é o mesmo que aparecer bem nas casas de milhões de telespectadores.

Mas nem tudo está perdido. O Big Brother Brasil está a merecer estudo sociológico. A casa-jaula assemelha-se também a uma gaiola de hamsters (aqueles pequenos roedores brincalhões). São 80-90 dias de cativeiro, privados de intimidade, alvos de simpatia e da antipatia de uns e de outros, do ciúme e da inveja de uns e de outros, com tanto tempo ocioso e pouco afeitos à atividade de pensar, talvez acreditando piamente que pensar enlouquece.

Como hamsters, têm acesso à roda gigante: festas no sábado, gincanas premiando o vencedor com carros 0 km, esforço físico colossal para fixar na mente dos telespectadores a marca do detergente que pode limpar tudo menos os lugares vazios, muito vazios de ideais e de sentido para a vida.

Do ponto de vista financeiro a atração é uma mina de ouro. Muito merchandising, pouco investimento. Assim como é fácil de tratar o hamster e de o mesmo não necessitar de alimentação dispendiosa, a manutenção da casa do BBB é relativamente econômica. Eles mesmos são quem fazem a comida e esta precisa ser conquistada vencendo obstáculos. E agora o formato da Endemol inclui a existência da Casa Grande & Senzala – ou, como chamam seus participantes, a casa de luxo e o puxadinho.

Hamsters levam a vantagem de rapidamente conquistar a nossa simpatia com seu comportamento amistoso ao contrário dos heróis do Bial, que na maioria das vezes apenas revelam sua verdadeira natureza com o passar do tempo em cativeiro.

A maior tragédia

Nesta décima edição houve recorde de votos para eliminação de um participante: 92 milhões. Pausa para alguns rápidos cálculos. Neste paredão recorde, caso 100% dos votos tenha sido transmitido por ligação telefônica, podemos calcular que as ligações renderam R$ 27,6 milhões – considerando o preço da ligação a R$ 0,30.

Agora... sim, sempre tem um agora. Agora, vamos imaginar que a Rede Globo tenha feito um contrato "50% por 50%", ou melhor, "meio a meio" com uma operadora de telefonia. Então, nesse único paredão a emissora carioca teria embolsado nada desprezíveis R$ 13,8 milhões. Toda essa dinheirama em um único paredão. Acontece que em três meses a quantidade de paredões varia de 14 a 16. Portanto, seguindo certa mentalidade de nossos meios de comunicação, ante tamanho volume de dinheiro, algum desses empresários pensaria duas vezes antes de riscar de sua grade conteúdos que favoreçam e cultura e cidadania do povo brasileiro?

Outra constatação é que pensamentos egoístas e imagens preconceituosas dominam o programa ou, ao menos, a quase totalidade da edição do programa. Os que se sentem acima da média – que, aliás, é muito baixa – avocam para si o atributo de serem elas mesmas, de serem sinceras em suas opiniões, de não estarem jogando pra platéia e que "dinheiro não é tudo na vida". Para estes, os outros apenas vêm confirmar o pensamento de Jean-Paul Sartre de ser, os outros, o próprio inferno.

O Big Brother Brasil é autoexplicativo. Mesmo quem diz que nunca assistiu consegue rapidamente formular opinião sobre o programa. Até porque é de longe fonte primária para o jornalismo de frivolidades – também conhecido como de entretenimento –, crítica de televisão e, na verdade, reedita o velho colunismo social dos jornais impressos. Só que bem mais ao gosto dos dias atravessados que vivemos, com direito a pergunta em rede nacional em horário nobre tão instrutiva e recatada quanto: "Você é ativo, passivo ou ambos?" E a resposta de supetão: "Nessa idade, eu sou tudo".

À sua maneira, os participantes se põem a conversar sobre tudo e todos, sobre tudo e nada. É uma pena que não consigam elaborar em 90 dias perguntas que façam a vida valer a pena. Penso em busca de respostas para questões essenciais: todo mundo é corrupto ou depende das circunstâncias? Você toparia tudo – mas tudo mesmo! – por dinheiro? Todo mundo mente, faz intriga, é fofoqueiro, traíra ou X9? Existe algum ser humano que seja confiável quando há muito dinheiro em jogo? Por que tenho medo de lhe dizer o que eu sou?

É que ainda não entendemos que a pior tragédia na vida de um homem é aquilo que morre dentro dele enquanto ele ainda está vivo. Não preciso escrever mais nada, né?


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Pena que nem todos tenham acesso ou conheçam os blogs que merecem ser visitados. O blog "VI O MUNDO", do Azenha é um exemplo de jornalismo criativo, ético, honesto, uma real fonte de informação.
Conforme venho fazendo, por enquanto, estou colocando abaixo um artigo copiado, desta vez do blog "Vi O Mundo". Trata-se de uma visão sobre o que está acontecendo neste momento no Oriente, mais especificamente no Afeganistão e as ações políticas que estão em curso, contrariando os interesses dos Estados Unidos. Um artigo desses jamais sairia no PIG, essa mídia sem ética e sem qualquer resquício de honestidade e qualidade. Obrigado ao Azenha, por nos proporcionar a oportunidade de conhecer melhor o que se passa do outro lado.



29 de março de 2010 às 15:14

Flerte entre Karzai e a China assusta Obama

30/3/2010

por M K Bhadrakumar, Asia Times Online

Grandes momentos na cronologia diplomática podem ser quase imperceptíveis quando os atores são entidades opacas, inescrutáveis. A visita do presidente Hamid Karzai do Afeganistão à China e ao Irã, semana passada, fez soar alarmes em Washington que chegaram ao Salão Oval da Casa Branca.

Os dois dias de encontros de Karzai em Pequim foram agendados para acontecer exatamente ao mesmo tempo em que acontecia o diálogo estratégico de alto nível entre EUA e Paquistão em Washington.

Karzai desafiou friamente a campanha diplomática do presidente Barack Obama, que exigia movimento para “isolar” o Irã na região – e desafiou-a não uma, mas duas vezes, na última quinzena. Antes, Karzai já havia recebido com visível simpatia, em Cabul, a visita do presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, no momento em que o secretário de Defesa dos EUA Robert Gates estava em visita ao Afeganistão.

Washington não perdeu tempo para mostrar desagrado. Obama voou sem qualquer anúncio ou aviso para Cabul no domingo, para ouvir explicações presenciais e imediatas de Karzai.

James Jones, conselheiro de segurança nacional dos EUA disse, em reunião com os jornalistas da Casa Branca, que Obama esperava ajudar Karzai a compreender que “no segundo mandato há coisas que [Karzai] tem de fazer, como presidente de seu país, para enfrentar questões às quais praticamente ninguém deu qualquer atenção desde o primeiro dia”.

O comentário surpreendentemente incisivo de Jones faz eco ao que o New York Times escreveu, de Cabul: que Obama “apresentou sua crítica firme pessoalmente ao presidente afegão”, e crítica que manifestava “crescente desagrado”.

O jornal comentou: “A visita do presidente Obama ao Afeganistão veio num cenário de tensão entre o presidente Karzai e os norte-americanos.” Citou um diplomata europeu em Cabul, que teria dito que “ele [Karzai] está afastando-se do ocidente”. E lembrou também que o presidente afegão “recebeu calorosamente em Cabul um dos mais eloquentes e ‘falantes’ adversários dos EUA” e, depois , novamente se encontrou com ele no fim-de-semana em Teerã”, além de ter visitado a China, país que está fazendo investimentos econômicos no Afeganistão, e “colhendo vantagens dos caros e difíceis esforços para garantir a segurança, em que se empenharam os EUA e outras nações ocidentais”.

Parece que Karzai acabava de chegar de volta a Cabul, vindo de Teerã, quando o US Air Force One que transportava Obama pousou na base aérea de Bagram, ao norte da capital afegã. Obama convidou Karzai a visitá-lo em Washington dia 12 de maio.

A primavera está no ar

Muito evidentemente, os americanos estão furiosos por Karzai estar claramente escapando das garras dos EUA e buscando a simpatia da China e do Irã. A falsa cordialidade aumenta à medida que Washington sente o chão escapar-lhe sob os pés.

Curiosamente, dois dias depois de voltar de Pequim para Cabul, na 3ª.-feira, Karzai voou para Teerã, para participar das celebrações do Nowruz. Ao celebrar o renascimento da primavera num excepcional encontro regional de países que língua persa, em Teerã, Karzai chamou a atenção do mundo para a múltipla identidade do Afeganistão, sociedade plural com longa história pré-islâmica.

Mas em termos políticos, foi movimento ostensivo de autonomia em relação aos controles norte-americanos. Em Teerã, Karzai visitou o Líder Supremo aiatolá Ali Khamenei.

Se a diplomacia de Karzai para o Irã foi rica em simbolismos políticos, sua visita à China foi politicamente substantiva. Karzai fez-se acompanhar dos ministros afegãos de Relações Internacionais e da Defesa. A agência chinesa de notícias Xinhua noticiou, de Pequim, que a visita de Karzai “atraiu muita atenção, em momento em que as grandes potências especulam sobre se a China se engajará em esforços mais profundos para reconstruir – e possivelmente dará também assistência militar – ao Afeganistão destruído pela guerra.”

A agência Xinhua neutralizou qualquer possível especulação sobre o papel da China na guerra:

“Desde o início de 2008, funcionários afegãos e soldados da OTAN têm repetidamente pedido à China que abra a fronteira no extremo leste do corredor Vakhan, para facilitar o combate aos terroristas no Afeganistão. A China tem rejeitado o apelo, para não se deixar arrastar para uma guerra ao terror. (…) O ministro chinês do Exterior Yang Jiechi declarou no início desse mês que não se alcançará solução fundamental para a questão afegã por meios militares.

Zhang Xiaodong, deputado-presidente da Associação Chinesa de Estudos do Oriente Médio, também foi citado: “a China definitivamente não participará de negócios internos do Afeganistão no quadro da OTAN”.

Zhang desafiou a conclamação do secretário-geral da OTAN Anders Fogh para reforçar os laços da aliança com países asiáticos como China, Índia e Paquistão, além da Rússia, que têm interesse na estabilidade do Afeganistão. Para Zhang “o engajamento desequilibrado desses atores [asiáticos] só gerará mais problemas.”

Zhang acrescentou que “o Afeganistão deve por fim à dependência em relação aos EUA. No momento atual, Washington está muito profundamente envolvida, o que gera nervosismo entre os vizinhos. Agora, Karzai espera encontrar mais apoio de outros grandes países e encontrar posição diplomática mais equilibrada.”

Apesar disso, em encontro com o m

inistro da Defesa afegão Abdul Rahim Wardak, o ministro chinês da Defesa Liang Guanglie falou de cooperação bilateral. “Os militares chineses continuarão a dar assistência ao Exército Nacional Afegão, para ampliar sua capacidade para proteger a soberania nacional, a integridade do território e a estabilidade doméstica”, disse Liang. E destacou que a cooperação militar avança suave mas firmemente na direção de oferecer suprimentos militares e treinamento de soldados, e que a assistência chinesa é “incondicional”.

Crítica demolidora contra a política do Af-Pak, no China Daily

Na 4ª.-feira, antes de Karzai encontrar-se com o presidente da China Hu Jintao, o jornal estatal China Daily publicou crítica arrasadora contra a política dos EUA para o Af-Pak, em artigo intitulado “O Afeganistão reflete a auto-obsessão dos EUA” [ing. "Afghanistan reflects US' self-obsession", http://www.china.org.cn/opinion/2010-03/24/content_19674414.htm].

Lá se lê:

“É claro que os EUA querem manter a influência sobre o Afeganistão mesmo depois da retirada das tropas, não importa o que aconteça. É o mesmo que dizer que os EUA não aceitarão que poderes regionais, como a China, desempenhem papel maior nos negócios afegãos. Em vez disso, a única coisa que interessa aos EUA partilhar com países como a China é o encargo da reconstrução econômica.”

O comentário insiste na tecla das diferen

ças nas “instâncias básicas” entre China e EUA. Primeiro, os EUA adotaram abordagem diferenciada em relação ao terrorismo, porque seu foco é evitar que os Talibã ou a al-Qaeda ameacem a segurança dos EUA ou em território nacional ou em instalações dos EUA pelo mundo. Diferente disso, “a China, como vizinha do Afeganistão, também precisa lidar com ameaças não-tradicionais à segurança, como tráfico de drogas, contrabando de armas e outros crimes de fronteira” – disse o China Daily.

Em segundo lugar, a “consolidação” da presença militar dos EUA no sul da Ásia, “que usa a guerra do Afeganistão como pretexto”, implica pressão extra contra os interesses de defesa e da segurança da China”.

Terceiro, há conflito entre os interesses econômicos

de China e EUA. “Os EUA têm prioridade na seleção de projetos (…) E seu input econômico visa a conseguir pagar as operações militares”, o que força as empresas a enfrentar concorrência desigual nos contratos de seguros, além de expô-las a ameaças à segurança.

Quarto, os EUA são sempre prescritivos e “têm tentado impor seu modelo político ao Afeganistão, considerado país atrasado. A China, por outro lado, crê que os afegãos (com todos seus grupos étnicos e partidos políticos) devem poder decidir sobre a forma de governo que desejam, baseados em sua cultura, em sua tradição e em suas condições domésticas”.

Quinto, o jornal China Daily diz que EUA e China visam a “objetivos geopolíticos” opostos. Os EUA têm uma “estratégia ofensiva de contraterrorismo, na qual o Afeganistão é usado como peão, para preservar a dominação global e conter a concorrência. A China, ao contrário disso, trabalha por uma política defensiva de defesa nacional e deseja manter

boas relações, como país vizinho do Afeganistão”.

Em prospectiva, diz o comentário chinês:

“O caos provocado pela guerra no Afeganistão ameaça a segurança da região noroeste da China. Um governo fraco em Cabul implicaria fronteiras mal geridas, o que, por sua vez, facilitaria o tráfico de drogas e o contrabando de armas e levaria os separatistas “do Turcomenistão Leste” a buscar abrigo no Afeganistão, o que geraria dificuldades na Região Autônoma Uigur de Xinjiang.

A China trabalha para reunir mais países interessados em resolver o problema afegão (…). A SCO [ing. Shanghai Cooperation Organization] pode desempenhar papel mais ativo, porque cinco dos seis vizinhos do Afeganistão participam daquela organização como membros ou como observadores (…). Mas, dada a atual situação no Afeganistão, qualquer proposta de reconciliação e reconstrução liderada pela SCO é proposta irrealista. Assim sendo, [a China] só pode oferecer e prover ajuda ao Afeganistão por canais multilaterais.

Sinais de apoio a Karzai

Na véspera de partir para Pequim, Karzai recebeu uma delegação do grupo oposicionista Hizb-i-Islami liderado por Gulbuddin Hekmatyar. Washington é ambivalente em relação a Hekmatyar; mas, em declaração conjunta emitida depois da visita de Karzai, Pequim manifestou-se favorável à reconciliação e ao processo de reintegração no Afeganistão; e afirmou “respeito pela escolha do povo afegão, que optou pela estrada do desenvolvimento mais adequada às suas condições nacionais”.

Os encontros que Ahmadinejad manteve em Cabul, seguidos da visita de Karzai a Islamabad, e, agora, a visita de Karzai a Pequim e Teerã – a rápida sucessão de contatos de alto nível sugere um padrão.

O que provavelmente mais alarmou Washington é que a posição dos chineses em relação à reconciliação nacional no Afeganistão integra-se bem à agenda e aos acordos políticos de Karzai e, também, com as preocupações e interesses do Irã.

A declaração conjunta de China e Afeganistão afirma que Pequim está pronta a expandir a cooperação econômica, o comércio e investimentos, ao mesmo tempo em que destaca o princípio do “respeito pela escolha do povo afegão, que optou pela estrada do desenvolvimento mais adequada às suas condições nacionais”.

Washington vê aí o risco de a capacidade financeira da China reduzir a dependência de Karzai da prodigalidade ocidental, ao mesmo tempo em que poderá encorajar o líder afegão a resistir às tentativas ocidentais para dominá-lo.

Washington evidentemente sabe que Pequim e Teerã têm preocupações similares em relação a praticamente todas as questões-chave da situação afegã.

Dentre essas semelhanças, está o que os dois países pensam sobre a “agenda oculta” dos EUA na guerra do Afeganistão e, portanto, sobre a urgência de estabilizar-se o Afeganistão; sobre os dois pesos que Washington manobra na luta contra o terrorismo; sobre a abordagem hegemonista em relação ao Afeganistão; sobre a imperiosa necessidade de “Afeganistização”, inclusive de reconciliação nacional conduzida pelo próprio Afeganistão e, sobretudo, sobre se seria desejável uma cooperação entre países cujos interesses e objetivos coincidam na Região, com vistas a um acordo para pacificar o Afeganistão.

Pequim, por sua vez, deve preocupar-se com a situação crítica da segurança no Afeganistão; e o fato de haver interesses comuns entre Pequim e Teerã, bem pode servir como catalisador para firmar ainda mais a posição de Pequim em relação à questão nuclear do Irã.

E a perspectiva de que se firmem laços estratégicos de longo prazo entre EUA e o Paquistão? Será que preocupa a China?

Um alto conselheiro do ex-primeiro ministro do Paquistão Nawaz Sharif escreveu recentemente: “relações estratégicas com os EUA podem bem influenciar outros laços vitais. Dois, sobretudo, são críticos. Os EUA estão decididos a construir uma ‘mudança de regime’ no Irã. E o que estarão pensando, para o Paquistão? E temos de examinar o risco de qualquer cooperação entre Islamabad e os EUA atrapalhar nossas relações com a China.”

Até agora, os comentários chineses parecem manter certo distanciamento. Tendem a ver o projeto de parceria EUA-Paquistão como estratégia de longo prazo, e movimento pragmático dos dois lados – nascido do fato de Washington precisar da ajuda do Paquistão para estabilizar o Afeganistão e, por outro lado, do fato de que Islamabad precisa dos EUA para ressuscitar a economia e manter um equilíbrio estratégico em relação à Índia.

Mas Pequim não pode esquecer a estratégia regional subjacente dos EUA, que visa a impedir que a China consiga vias de acesso até a região do Golfo Persa via Ásia Central, contornando o Estreito de Malacca, efetivamente controlado pelos EUA. A estratégia dos EUA não funcionará, a menos que consigam alinhar o Paquistão.

O show de apoio a Karzai, oferecido por Pequim (e Teerã) vem num momento em que as relações de Karzai com EUA e com o Paquistão estão abaladas… para dizer o mínimo.

domingo, 28 de março de 2010

O artigo abaixo, de Mário Jakobskind, publicado em por Ana Helena Tavares, foi copiado do blog "QUEM TEM MEDO DO LULA".

O petróleo nos debates

O petróleo nos debates

Por Mario JakobskindO mês de abril bate às portas trazendo o início da campanha eleitoral para a escolha de quem ficará no lugar de Lula, dos novos governadores, da renovação da Câmara dos Deputados e parte do Senado. Dilma Roussef e José Serra se desencompatibilizam nos próximos dias, enquanto os demais candidatos, Ciro Gomes, Marina da Silva e outros menos votados, inclusive representantes de partidos de aluguel e mesmo de grupos de esquerda minúsculos estão entrando no páreo como azarões.

A Copa do Mundo interrompe por algum tempo a corrida atrás do voto. Pelo andar da carruagem, a disputa principal se dará entre Dilma e Serra, a primeira como candidata de Lula e o outro, apesar de envergonhado, de Fernando Henrique Cardoso, o príncipe sociólogo que governou o país por dois mandatos e só não entregou todas as riquezas do país porque não teve força política para tanto.

Por mais que não queira, o governador de S. Paulo, que trata os professores e os funcionários públicos na base da repressão e ameaças, é vinculado ao governo Cardoso, do qual foi Ministro. Ele agora, com a ajuda da mídia conservadora, tenta demonstrar que não tem nada a ver com aquela fase. Mas se alguém perguntar-lhe, por exemplo, sobre o pré-sal e o restante das riquezas do petróleo, defenderá o regime de concessão e a manutenção dos leilões das bacias petrolíferas. Ou seja, justificará toda a entrega vergonhosa iniciada no governo FHC e usará de sofismas para afirmar que o que foi feito fortaleceu a Petrobras, o que não é verdade.

Cardoso começou uma privatização branca da Petrobras, ou seja, entregando pelas beiradas e hoje mais de 50% das ações da empresa de petróleo pertencem a acionistas estrangeiros e outra parte está nas mãos de testas de ferro. Aliás, a questão do petróleo deverá ganhar dimensão nesta campanha. Possivelmente a mídia conservadora e seus colunistas de sempre vão tergiversar e tentar convencer leitores e telespectadores sobre a necessidade de se manter as facilitações ao capital estrangeiro petrolífero.

O esquema já começou inclusive em toda a celeuma relacionada com os royalties do petróleo para o Estado do Rio e Espírito Santo. Ibsen Pinheiro, o irresponsável, entrou na história só como o culpado de todos os horrores. Ele sem dúvida é culpado por apresentar um projeto inconstitucional e que não tem condições de se sustentar mesmo sendo aprovado agora pelo Senado.

Mas não é só Ibsen o vilão. Há outros parlamentares, entre os quais o Deputado Henrique Alves e o senador Francisco Dornelles, que defendem com unhas e dentes a manutenção da quebra do monopólio estatal de petróleo determinada pelo ex-presidente Cardoso, coringa de Serra. E tem mais: os dois são colocados nas alturas pela mídia conservadora ao se apresentarem como defensores incondicionais do regime de concessão às multinacionais.(lei 9478/97), que permitiu que empresas estrangeiras, através de leilões, se apropriassem do petróleo extraído no solo. Querem manter o mesmo para a extração no mar.

Alves e Dornelles são também verdadeiros traidores da pátria. Enquanto os Estados Unidos para abocanhar petróleo do Iraque precisa invadir e ocupar o país árabe, fazer ameaças em outras partes do mundo, haja vista a Venezuela e o Irã, as riquezas brasileiras do setor são entregues com justificativas mentirosas. O atual governo apresentou a proposta de partilha das riquezas do pré-sal, avaliadas em cerca de 10 trilhões de dólares, ou seja, uma proposta intermediária entre o regime de concessão e a reestatização da Petrobras, defendida pelos movimentos sociais. Dornelles e Alves combatem até o meio termo, da mesma forma que O Globo. Defendem a entrega total, da mesma forma que o outro traidor de nome Fernando e sobrenome Cardoso.

E para dourar a pílula da doação, todos os candidatos que adotam a tese da concessão terão espaço garantido nos telejornais em horário nobre. Não é à toa que os jornalões e os telejornalões estão se portando cada vez mais como linhas auxiliares de projetos políticos lesivos aos interesses nacionais. E quem questiona isso ainda leva a pecha de defender restrições à liberdade de imprensa.

A campanha vai pegar fogo depois da Copa do Mundo. Resta saber de que forma o(a)s candidato(a)s vão se posicionar na questão do petróleo e outras. E se as editorias da mídia conservadora vão orientar os repórteres no sentido de abordar o tema nas perguntas ou então evitar o aprofundamento da matéria, deixando apenas aparecer a superfície dando espaço de mão beijada a governadores que contemplam com polpudas verbas os seus departamentos comerciais.

Em tempo: George W. Bush reapareceu em Porto Príncipe limpando a mão nas costas de Bill Clinton depois de apertar a mão de um haitiano. Precisa dizer mais alguma coisa?


Ironia do Destino

Por mais que o Serra use a Folha e a Veja e conte com a ajuda dos Marinho, há algo que ele não consegue e nunca conseguirá controlar: o destino.


Do blog "Brasília, eu Vi", de Leandro Fortes, estou colocando abaixo um artigo sobre a greve dos professores e como Serra tem tratado o assunto.

PM de barba? Entre grevistas?

Muito ainda se falará dessa foto de Clayton de Souza, da Agência Estado, por tudo que ela significa e dignifica, apesar do imenso paradoxo que encerra. A insolvência moral da política paulista gerou esse instantâneo estupendo, repleto de um simbolismo extremamente caro à natureza humana, cheio de amor e dor. Este professor POLICIAL MILITAR BARBADO A PAISANA INFILTRADO ENTRE OS MANIFESTANTES que carrega o PM ferido a PM ferida é um quadro da arte absurda em que se transformou um governo sustentado artificialmente pela mídia e por coronéis do capital. É um mural multifacetado de significados, tudo resumido numa imagem inesquecível eternizada por um fotojornalista num momento solitário de glória. Ao desprezar o movimento grevista dos professores, ao debochar dos movimentos sociais e autorizar sua polícia a descer o cacete no corpo docente, José Serra conseguiu produzir, ao mesmo tempo, uma obra prima fotográfica, uma elegia à solidariedade humana e uma peça de campanha para Dilma Rousseff.

Inesquecível, Serra, inesquecível.

Em tempo: agora que a PM de São Paulo afirma que o homem da foto é um policial militar, é de se esperar que seu nome e função dentro da corporação sejam também revelados. Senão, a emenda terá saído muito, mas muito pior que o soneto.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Coloco abaixo dois artigos do blog do Emir Sader, do site da Agência Carta Maior. Como sempre, suas análises são muito bem elaboradas, concisas e esclarecedoras.
Não posso deixar de destacar minha admiração pela qualidade de seu trabalho.
O avestruz aí em cima, com a cabeça enfiada no buraco, representa a nossa imprensa, o PIG, que não é capaz de enxergar o que se passa à sua volta ou finge que não sabe. Serve também para representar um certo grupo da classe média, leitora dos Frias, Marinhos e Civitas, que pensam que são bem informados mas na realidade não sabem nada sobre a realidade dos fatos, só conhecem as versões que lhes são servidas.




25/03/2010

Os dois Brasis

Há dois Brasis: um, o que a imprensa diz que existe e gostaria que existisse realmente. Outro, o Brasil real, em que vivem os brasileiros de carne e osso, o Brasil realmente existente. Os dois em contradição entre si.

Um dos temas recriados pela imaginação da imprensa é o do “fracasso” da política externa brasileira. Lula, Celso Amorim, todos os que representam o governo brasileiro em política externa, viveriam cometendo “gafes”, as pretensões brasileiras se revelam vãs nas suas propostas, Lula a todo momento estaria “desgastando sua imagem” pelas posições que toma. Tudo estaria errado e daria errado. O Brasil seria um desastre para o mundo – segundo a imaginação e a vontade dos Frias, dos Marinhos, dos Civitas, dos Mesquitas, e dos seus ventríloquos.

Recordemos que a política exterior de FHC era de absoluta subserviência aos EUA. (Celso Lafer, ministro de Exterior do governo FHC, submeteu-se docilmente a tirar os sapatos para serem revistados no aeroporto de Nova York, até esse ponto chegou a subserviência.) Os dois países deveriam concluir as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), contra a qual tinham se desenvolvido grande quantidade de mobilizações por todo o continente.

Na primeira grande virada de orientação, o governo Lula, mediante seu ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, fez com que abortassem essas negociações e, com elas, o projeto da Alca. Abriram-se assim os espaços para o fortalecimento do Mercosul e a criação das outras formas de integração regional que conhecemos – Banco do Sul, Unasul, Conselho Sulamericano de Defesa, Comunidade das Nações da América Latina e do Caribe, Alba, entre outras.

Assim foi se definindo uma das prioridades centrais do governo Lula, em ruptura com as orientações do governo FHC: integração regional no lugar de Tratados de Livre Comércio com os EUA, linha demarcatória fundamental para diferenciar os governos dos países do continente.

Nenhuma dúvida sobre o sucesso dessa linha política, não apenas pela sua correção, priorizando os países latinoamericanos, rejeitando as políticas de livre comércio dos EUA, assim como pela sua efetividade, que nos permite ter alternativas de intercâmbio comercial. A crise recente revelou, de forma ainda mais, clara como essa opção – ao contrário de países como o México, o Perú, a Colombia, que optaram pelos TLCs com os EUA – permite enfrentar as dificuldades externas, com a diversificação do comércio exterior brasileiro.

Da mesma forma que a extensão dessa prioridade com as alianças com os outros países do Sul do mundo, da Ásia, da África, do Oriente Médio, que ampliou como nunca a presença brasileira no mundo, ao mesmo tempo que deu posibilidades de diversificar o comércio internacional do Brasil. Este fator foi fundamental para a capacidade brasileira de superar rapidamente a crise internacional – a mais profunda desde a de 1929 -, sobretudo pela manutenção da demanda da China, que se tornou o principal parceiro internacional do Brasil superando os EUA.

Mas a presença brasileira se fez tambem nos grandes foros internacionais, com a defesa da posição dos países do Sul do mundo, a crítica dos responsáveis pela crise internacional, pela crítica ao caráter antidemocrático da ONU, entre outros temas.

Mais recentemente, o Brasil passou a se interessar pela situação do Oriente Médio, a partir da crítica de que os EUA nao podem ser o mediador da paz, porque estão excesivamente envolvidos no conflito, do lado de Israel – o destinatário da maior ajuda militar norteamericana no mundo, além de aliado estratégico dos EUA na regiao. As posições de Lula de crítica dos novos assentamentos judeus em Jerusalem, além do direito dos palestinos terem um Estado soberano como é o israelense, expressa no Congresso de Israel, foram reafirmadas poucos días depois pelos EUA, Russia, Uniao Européia e a ONU.

O reconhecimento de Lula como grande estadista, pela imprensa internacional, e por grande quantidade de governantes do mundo, em contradição expressa com a forma como a imprensa brasieira trata essa atividade, parece molestar a esta, assim como molesta a FHC. Este, que pretendía ser o grande estadista brasileiro no mundo, foi rápidamente esquecido, diante do sucesso de Lula e da política externa brasileira.

Parece que os tucanos e a mídia local – numa atitude totalmente provinciana – sentem falta da política externa subserviente a Washington, de desprezo pela América Latina, voltada para o Norte do mundo, espelhada na afirmação de que “o Brasil nao deveria ser maior do que é”.

A cobertura internacional da imprensa brasileira é péssima, os “enviados especiais” e os comentaristas locais sáo de uma ignorância ímpar sobre a América Latina e o mundo todo, provincianos, repetem o que diz a imprensa do Norte. Ficaram no tempo da guerra fría, da SIP (Sociedade Interamericana de Prensa), não entendem o mundo de hoje, nem o novo papel, do Sul do mundo, da América Latina e do Brasil em particular.

Por isso pintam um Brasil que não existe, um mundo que não existe, de costas para a realidade. Enquanto o Brasil real, a América Latina real, o mundo real, seguem girando, na direção oposta das ilusões e das mentiras da imprensa.

Postado por Emir Sader às 08:25



26/03/2010

Cambalache? Tudo é igual: Dilma ou Serra?

A candidatura da Marina, as do Psol, do PSTU, do PCB e outras eventuais do mesmo campo, têm algo em comum: tentar caracterizar que o PT e o PSDB seriam variações da mesma alternativa. Daí deduzem a necessidade de outra candidatura, buscando romper o que consideram uma falsa alternativa. Daí também, implicitamente, a posição de abstenção ou voto em um segundo turno em que se enfrentassem Dilma a Serra.

Essa tentativa de igualização das duas candidaturas é essencial para que se tente aparecer como superação do que seria uma falsa dualidade e aponta, entre outras coisas, para um voto branco em um eventual segundo turno entre Dilma e Serra, de forma coerente com essa análise. Foi o que aconteceu no segundo turno entre Lula e Alckmin.

Para nos darmos conta do absurdo dessa posição, basta fazer o exercício de imaginar o que teria sido do Brasil com quatro anos de mandato de Alckmin no lugar de Lula – incluindo o enfrentamento da crise internacional. Não se conhece nenhum balanço autocrítico dos setores de esquerda, o que supõe que a mantêm, agora com o agregado de Marina, que em 2006, ainda ministra do governo, fez campanha ativamente, no primeiro e no segundo turno, o que faz pensar que quando ocupava aquele cargo, sua posição era uma, quanto teve que deixar o governo, mudou de avaliacao sobre o governo Lula e também sobre o caráter do bloco tucano-demista, haja vista suas fraternais relações com estes atualmente. (Fazendo temer até mesmo que os apóie, expressa ou veladamente no segundo turno.)

A incompreensão das diferenças entre as candidaturas da Dilma e do Serra decorre da incompreensão da realidade brasileira atual, o que permite esse e outros equívocos. Considerar que o bloco tucano-demista é similar ao bloco governista e que um governo da Dilma ou do Serra seriam similares para o Brasil corresponde a não dar valor à política internacional do governo atual, às políticas sociais, ao papel do Estado, à inserção internacional do Brasil – entre outros tantos temas.

Quem não sabe localizar onde está a direita, corre o grave risco de se aliar a ela. Um aliado moderado – um governo de centro-esquerda – é radicalmente diferente de um inimigo. Ao contrário da avaliação dos setores radicais que deixaram o PT, o governo mudou e mudou para melhor, desde que Dilma Rousseff substituiu Palocci como ministro coordenador do governo. Quem acreditou que o governo estava em disputa e que era possível um resgate seu pela esquerda, acertou, enquanto que os que tiveram uma avaliação puramente moral, acreditando que o governo tinha “mordido a maçã” do pecado da traição, caminhando para ser cada vez pior, erraram, se isolaram e desapareceram do campo político, lutando agora apenas por uma sobrevivência mínima no plano parlamentar.

Considerar que um governo da Dilma ou do Serra seriam a mesma coisa - assim como consideraram que o Brasil com Lula, nestes quatro anos, é o mesmo que teria sido com 4 anos de governo de Alckmin - é não valorizar o que significa a prioridade da integração regional e das alianças com o Sul do mundo, em contraste com os Tratados de Livre Comércio – a que o governo de FHC levava o Brasil – e com as alianças prioritárias com os países do centro do capitalismo, objetivo dos tucanos.

É não levar em conta as diferenças de enfrentamento da crise do governo FHC – de que Serra foi ministro nos dois mandatos – e a forma de enfrentá-la do governo Lula, com um papel ativo do Estado, com a diminuição e não o aumento da taxa de juros, com os aumentos salariais acima da inflação, com a rápida recuperação do nível do emprego, com a manutenção das políticas sociais.

É não considerar as diferenças substanciais entre o Banco do Brasil comprar a Nossa Caixa, mantendo-a como banco público, evitando que um banco paulista mais fosse privatizado pelos tucanos – o Banespa foi vendido a um banco espanhol e a Nossa Caixa teria destino similar, não fosse o atuação do BB.

Esses e outros aspectos ajudam a diferenciar e a projetar governos muito distintos no futuro – veja-se a equipe econômica do Serra, para se ter idéia, além dos ministérios que entregaria para o DEM.

Quando uma força de esquerda se equivoca sobre a polarização do campo político, querendo desconhecê-la, conforme seus desejos subjetivos, se torna intranscendente, não acumula capacidade de intervenção política. E, pior, a ação que logra obter, pode perfeitamente favorecer a direita, seja de forma explícita ou implícita.

A incapacidade de compreender a polarização política no Brasil de hoje entre dois blocos de forças claramente diferenciados inviabiliza uma política de construção de uma frente ampla de esquerda, com o sectarismo fazendo com que nem sequer entre si os grupos mais radicais da esquerda consigam coligar-se.

Postado por Emir Sader às 12:23

sábado, 20 de março de 2010

Continuando com a idéia de buscar informação honesta, coloco abaixo artigo de Breno Altman, jornalista e diretor do OPERA MUNDI, uma excelente fonte de informação.

Um observador isento, sem qualquer vínculo ideológico com os observados, deve realmente achar estranha a postura dos atuais "pastores" da ultra-direita conservadora e fascista, que emitem opiniões raivosas, sem qualquer fundamento ou análise honesta, com o único objetivo de agredir quem não segue sua cartilha, em contraposição àqueles que eles chamam de esquerdistas (??), que procuram emitir opiniões sempre bem fundamentadas no direito e na razão. É realmente chocante o contraste entre estupidez cega e a lucidez racional. O artigo abaixo é um ótimo exemplo dessa lucidez.

17/03/2010 | Breno Altman | São Paulo

Cuba, Israel e a dupla moral

Tem sido educativo acompanhar, nos últimos dias, a cobertura internacional dos meios de comunicação, além da atitude de determinadas lideranças e intelectuais. Quem quiser conhecer o caráter e os interesses a que servem alguns atores da vida política e cultural, vale a pena prestar atenção ao noticiário recente sobre Cuba e Israel.

Na semana passada, em função de declarações do presidente Lula defendendo a autodeterminação da Justiça cubana, orquestrou-se vasta campanha de denúncias contra suposto desrespeito aos direitos humanos na ilha caribenha. Mas não há uma só matéria ou discurso relevante, nos veículos mais destacados, sobre como Israel, novo destino do presidente brasileiro, trata seus presos, suas minorias nacionais e seus vizinhos.

Vamos aos fatos. No caso cubano, Orlando Zapata, um pretenso “dissidente” em greve de fome por melhores condições carcerárias, preso e condenado por delitos comuns, foi atendido em um hospital público por ordem do governo, mas não resistiu e veio a falecer. Não há acusação de tortura ou execução extralegal. No máximo, insinuações oposicionistas de que o atendimento teria sido tardio – ainda que se possa imaginar o escândalo que seria fabricado caso o prisioneiro tivesse sido alimentado à força.

Mesmo não havendo qualquer evidência de que a morte do dissidente, lamentada pelo próprio presidente Raúl Castro, tenha sido provocada por ação do Estado, os principais meios e agências noticiosas lançaram-se contra Cuba com a faca na boca. Logo a seguir o Parlamento Europeu e o governo norte-americano ameaçaram o país com novas sanções econômicas.

Indústria do martírio
Outro oposicionista, Guilherme Fariñas, com biografia na qual se combinam muitos atos criminosos e alguma militância anticomunista, aproveitou o momento de comoção para também declarar-se em jejum. Apareceu esquálido em fotos que rodaram o mundo, protestando contra a situação nos presídios cubanos e reivindicando a libertação de eventuais presos políticos. Rapidamente se transformou em figura de proa da indústria do martírio mobilizada pelos inimigos da revolução cubana a cada tanto.

O governo ofereceu-lhe licença para emigrar a Espanha e lá se recuperar, mas Fariñas, que não está preso e faz sua greve de fome em casa, recusou a oferta. Seus apoiadores, cientes de que a constituição cubana determina plena liberdade individual para se fazer ou não determinado tratamento médico, o incentivam para avançar em sacrifício, pois não será atendido pela força até que seu colapso torne imperativa a internação hospitalar. Aliás, para os propósitos oposicionistas, de que grande coisa lhes valeria Fariñas vivo?

O presidente Lula tornou público, a seu modo, desacordo com a chantagem movida contra o governo cubano. Talvez fosse outra sua atitude, mesmo que discreta, se houvesse evidência de que a situação de Zapata ou Fariñas tivesse sido provocada por ato desumano ou arbitrário de autoridades governamentais. Para ir ao mérito do problema, comparou a atitude dos dissidentes com rebelião hipotética de bandidos comuns brasileiros. Afinal, ninguém pode ser considerado inocente ou injustiçado porque assim se declara ou resolva se afirmar vítima através de gestos dramáticos.

O silêncio da mídia
Sem provas bastante concretas que um governo constitucional feriu leis internacionais, é razoável que o presidente de outro país oriente seus movimentos pela autodeterminação das nações na gestão de seus assuntos internos. O presidente brasileiro agiu com essa mesma cautela em relação a Israel, país ao qual chegou no último dia 14, apesar da abundância de provas que comprometem os sionistas com violação de direitos humanos.

Mas as palavras de Lula em relação a Cuba e seu silêncio sobre o governo israelense foram tratados de forma bastante diversa. No primeiro caso, os apóstolos da democracia ocidental não perdoaram recusa do mandatário brasileiro em se juntar à ofensiva contra Havana e em legitimar o uso dos direitos humanos como arma contra um país soberano. No segundo, aceitaram obsequiosamente o silêncio presidencial.

A bem da verdade, não foram apenas articulistas e políticos de direita que tiveram esse comportamento dúplice. Do mesmo modo agiram alguns parlamentares e blogueiros tidos como progressistas, porém temerosos de enfrentar o poderoso monopólio da mídia e ávidos por pagar o pedágio da demagogia no caminho para o sucesso, ainda que ao custo de abandonar qualquer pensamento crítico sobre os fatos em questão.

Um observador isento facilmente se daria conta de que, ao contrário dos eventos em Cuba, nos quais o desfecho fatal foi produto de decisões individuais das próprias vítimas, os pertinentes a Israel correspondem a uma política deliberada por suas instituições dirigentes.

Sionismo e direitos humanos
A nação sionista é um dos países com maior número de presos políticos no mundo, cerca de 11 mil detentos, incluindo crianças, a maioria sem julgamento. Mais de 800 mil palestinos foram aprisionados desde 1948. Aproximadamente 25% dos palestinos que permaneceram em territórios ocupados pelo exército israelense foram aprisionados em algum momento. As detenções atingiram também autoridades palestinas: 39 deputados e 9 ministros foram sequestrados desde junho de 2006.

Naquele país a tortura foi legitimada por uma decisão da Corte Suprema, que autorizou a utilização de “táticas dolorosas para interrogatório de presos sob custódia do governo”. Nada parecido é sequer insinuado contra Cuba, mesmo por organizações que não guardam a mínima simpatia por seu regime político.

Mas o desrespeito aos direitos humanos não se limita ao tema carcerário, que é apenas parte da política de agressão contra o povo palestino. A resolução 181 das Nações Unidas, que criou o Estado de Israel em 1947, previa que a nova nação deteria 56% dos territórios da colonização inglesa na margem ocidental do rio Jordão, enquanto os demais 44% ficariam para a construção de um Estado do povo palestino, que antes da decisão ocupava 98% da área partilhada. O regime sionista, violador contumaz das leis e acordos internacionais, hoje controla mais de 78% do antigo mandato britânico, excluída a porção ocupada pela Jordânia.

Mais de 750 mil palestinos foram expulsos de seu país desde então. Israel demoliu número superior a 20 mil casas de cidadãos não judeus apenas entre 1967 e 2009. Construiu, a partir de 2004, um muro com 700 quilômetros de extensão, que isolou 160 mil famílias palestinas, colocando as mãos em 85% dos recursos hídricos das áreas que compõem a atual Autoridade Palestina.

Pelo menos seiscentos postos de verificação foram impostos pelo exército israelense dentro das cidades palestinas. Leis aprovadas pelo parlamento sionista impedem a reunificação de famílias que habitem diferentes municípios, além de estimular a criação de colônias judaicas além das fronteiras internacionalmente reconhecidas.

Dupla moral
São, essas, algumas das características que conformam o sistema sionista de apartheid, no qual os direitos de soberania do povo palestino estão circunscritos a verdadeiros bantustões, como na velha e racista África do Sul. O corolário desse cenário é uma escalada repressiva cada vez mais brutal, patrocinada como política de Estado.

Mas os principais meios de comunicação, sobre esses fatos, se calam. Também mudos ficam os líderes políticos conservadores. Nada se ouve tampouco de alguns personagens presumidamente progressistas, sempre tão céleres quando se trata de apontar o dedo acusador contra a revolução cubana.

Talvez porque direitos humanos, a essa gente de dupla moral, só provoquem indignação quando seu suposto desrespeito se volta contra vozes da civilização judaico-cristã, da democracia liberal, do livre mercado, do anticomunismo. Não foi sem razão que o presidente Lula reagiu vigorosamente contra o cinismo dos ataques ao governo de Havana.

Breno Altman é jornalista e diretor editorial do sítio Opera Mundi (www.operamundi.com.br)

sexta-feira, 19 de março de 2010

VALE A PENA RELEMBRAR...

Embora seja notícia do final do ano passado, não podia deixar de transcrever do blog CONVERSA AFIADA, do Paulo Henrique Amorim, o texto abaixo, porque depois da reunião do Instituto Milenium, o PIG decidiu utilizar todo o jogo sujo que já é sua especialidade. Vale a pena relembrar.

O papel decisivo de Lula em Copenhague. E o crime do PiG (*)

28/dezembro/2009 19:39

O “lince”, segundo o El País, agora joga no time dos Cinco

O “lince”, segundo o El País, agora joga no time dos Cinco

Obama chegou a Copenhague decidido a pressionar a China a aceitar um controle externo sobre emissões de gás carbônico.

Por isso, sua primeira reunião bilateral foi com o primeiro ministro chinês Wen Jiabao.

Em pouco tempo, presidente americano percebeu que o chinês não cederia em nada.

Obama saiu da reunião tão indignado, que pediu outra entrevista bilateral com Wen e disse aos assessores que, daí em diante, só falaria com Wen cara a cara.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos tentavam organizar uma reunião com Lula, Manmohan Singh (da Índia) e Jacob Zuna, da África do Sul.

Nessa altura, a confusão era monumental.

Ninguém sabia quem estava onde, e que delegação permanecia em Copenhague.

Uma reunião de Obama com Wen foi agendada para às sete da noite.

Quando Obama saiu de um encontro com líderes europeus, e foi em busca de Wen, lhe informaram que a sala prevista já estava ocupada.

E na sala estavam Wen, Lula, Singh e Zuma.

Obama abriu a porta, entrou e perguntou a Wen, em voz alta – essa parte foi gravada por emissoras de televisão: “Você está pronto para a nossa conversa ?”

E entrou.

Não havia sequer cadeira para o presidente americano. Obama disse que não tinha problema.

Ele se sentaria ao lado do amigo Lula.

E Lula lhe cedeu a cadeira de um dos assessores.

Na verdade, arrumou duas cadeiras, porque Obama veio com Hillary.

Obama decidiu que essa era a oportunidade para falar com todos de uma vez só.

E sua ousadia acabou por lhe ajudar.

Obama anunciou que se eles cinco não fechassem um acordo ali, na hora, ele, Obama, faria um acordo em separado com os europeus.

Não se sabe o que passou a acontecer na reunião.

Mas, daquela reunião saiu o único acordo que hoje se pode celebrar.

Lula não é apenas um lince da política.

Quando ele percebeu que a reunião tinha entrado em ponto morto, pronunciou um ovacionado discurso e, pela primeira vez, para surpresa de seus próprios assessores, anunciou que o Brasil estava disposto a contribuir para um fundo verde global.

Lula sabia que, com isso, deixava Obama com um perfil baixo.

Uma vez mais, Lula soube jogar suas cartas com astúcia e sem estridência.

Não é à toa que Obama disse que ele é “o homem do momento”.

Em seu discurso, Lula disse que o Brasil não aceitaria que as figuras mais importantes do planeta assinassem um documento qualquer só para decidir que nós outros também o assinamos.

Disse que, como crê em Deus e em milagres, “se se produz o milagre, quero fazer parte dele”.

(El País, página 40, domingo, 20 de dezembro de 2009)


Obama se fechou por cinquenta e cinco minutos com Wen.

A Casa Branca anunciou que haveria um segundo encontro.

Na hora marcada para esse segundo encontro, Obama constatou que Lula, o primeiro ministro da Índia Singh, e o presidente sul-africano Zuma estavam já reunidos com Wen.

E estes cinco lideres negociaram o acordo de três paginas que foi apresentado à sessão final.

O que aconteceu em Copenhague ?

A Europa defendeu objetivos ambiciosos que ela não pode e não soube compartilhar com os outros países.

A Europa foi marginalizada por uma coalizão que testemunha a divisão do poder político no mundo de hoje: os Estados Unidos, a China, a Índia, o Brasil e a África do Sul.

(Le Monde, paginas 6 e 2, domingo, 20 de dezembro de 2009)

De volta ao Brasil, me contam que o PiG (*) menosprezou o papel decisivo de Lula em Copenhague.

Criou uma falsa gafe de Dilma.

Deu destaque ao não-evento, que foi o memorável encontro do Zé Alagão com o Berlusconi da Califórnia, Arnold Schwarzenegger.

E disse que Copenhague foi um fracasso.

Esses foram alguns dos pequenos crimes que o PiG (*) cometeu ultimamente.

Na categoria “grandes crimes” se inclui mentir.

Paulo Henrique Amorim

Em tempo: amigo navegante, imagine quantos dedos da mão daria o Farol de Alexandria para participar dessa reunião dos cinco grandes. E, amigo navegante, sabe por que ele vai entrar para a História sem ter participado de uma reunião dessas ? Porque a política externa dele era a “Política da Dependência”.

(*)Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista

Publicado por admin · Canal: Brasil, Destaque

A Crise da Mídia

Artigo transcrito do blog DESABAFO BRASIL

A CRISE DA IMPRENSA BRASILEIRA É ÉTICA

Chovem os artigos na imprensa internacional sobre a crise da imprensa, enquanto crescente numero de jornais fecham, despedem jornalistas, diminuem suas tiragens. Os diagnósticos, ao serem feitos, em grande medida por pessoal ligado a essa imprensa, não conseguem sair do rame rame usual: a difusão da internet grátis, dos jornais grátis, etc., etc., seriam os responsáveis. Será?
Mas um artigo, desta vez da prestigiosa publicação norteamericana The Nation – “How to save jornalism?”, de John Nichols e Robert W. McChesney, de 25 de janeiro deste ano - aponta para um diagnóstico um pouco diferente. Em primeiro lugar, classifica o jornalismo como um “bem público”, considerando que deveria ser considerado da mesma forma que se considera a educação, saúde pública, o transporte, a infra estrutura.
Considerado dessa maneira, o fato de ser financiado por publicidade já desvia ou deforma esse caráter público, porque a publicidade visa interesses privados, venda de mercadorias, prestação de serviços na esfera privada. Essa concepção remeteria ao tema do financiamento público da imprensa.
Quanto ao diagnostico que aponta para a difusão da internet, os autores recordam que a crise começou muito antes, já nos anos 1970, apontando para a busca de maximização dos lucros pelas grandes corporações, que foram tornando as mídias empresas como outras quaisquer de seu imenso leque de investimentos, tendo como resultado, entre outros, a diminuição da qualidade e a banalização do jornalismo, cada vez mais longe de ser um bem público.
As propostas atuais de tentativa de superação da crise financeira, apontam normalmente para o pagamento das páginas de internet, dado que a publicidade nestas representa um ganho de 10% do que se perde nas publicações impressas. No entanto, apenas um que outro jornal que acredita na sua capacidade de manter audiência sendo pago – como o The Wall Street Journal – se arriscam nessa direção. Ainda assim é duvidoso que possam arrecadar uma proporção minimamente significativa do que perdem com a diminuição da tiragem e, principalmente, com a retração da publicidade, canalizada para outros meios.
Na realidade a crise da imprensa é a da perda de credibilidade, é uma crise ética, de sua transformação em um instrumento da publicidade, do ponto de vista econômico, e da sua constituição em mentor político e ideológico da direita. Os dados, publicados recentemente, demonstram como todos os grandes jornais brasileiros perdem leitores, mas sobretudo perdem influência. Embora todos os maiores jornais e quase todas as revistas semanais – à exceção da Carta Capital – sejam de férrea oposição ao governo, este mantêm 83% de apoio e eles conseguem apenas 5% de rejeição do governo. Temos aí uma idéia da baixíssima produtividade desses órgãos de oposição.
Jornais progressistas como La Jornada, do México, Página 12, da Argentina, Público, da Espanha, que gozam de alta credibilidade, se consolidam e se expandem, tendo páginas abertas amplamente visitadas. Seu patrimônio é sua ética social, suas posições políticas democráticas, o espírito pluralista dos seus comentaristas, a originalidade da suas coberturas jornalísticas. Por por Emir Sader

quinta-feira, 18 de março de 2010

A HABILIDADE POLÍTICA DE LULA



Depois de um bom tempo ausente, volto a incluir mais alguns artigos que considero importante ler e guardar, pois a nossa memória é curta e "o tempo apaga as lembranças"...

Como continuo sem tempo, terei que continuar transcrevendo artigos dos blogs que costumo ler, com os devidos créditos aos mesmos, é claro.
Antes de fazê-lo, não posso deixar de comentar algo que ultimamente tem se tornado um fato incômodo para mim. Eu pertenço a um grupo social que realmente não se pode chamar de pobre mas também estou longe de ser rico. Faço parte do pequeno (ou não, não sei) da classe média que tem um bom senso crítico quanto à política e a sociedade. No entanto convivo com atores da outra classe média, aquela que gostaria muito de ser rica, tem horror de pobre, ama os Estados Unidos, e detesta o Lula, "aquele operariozinho que nem sabe falar direito, e que nada mais fez do que dar continuidade ao que o FHC já deixou feito (sic)". Pois é, aproveito para exercitar a habilidade da paciência e limito-me a escutar as barbaridades que dizem, quando por acaso ocorre a oportunidade de almoçarmos juntos. Confesso que é com muita dificuldade que fico calado, só ouvindo os experts em política destilarem sua raiva contra o governo atual, que na opinão deles é totalmente incompentente. Mas quem vai duvidar de suas idéias, criteriosamente garimpadas nas páginas da Veja, do Globo e da Folha de São Paulo? Afinal, são pessoas muito bem informadas, a nata da sociedade, e quem pensar diferente é comunista (esse argumento ainda é usado, apesar de não significar mais nada atualmente) ou faz parte da ralé e não merece conviver com tão importante grupo social. Pelo visto, os 83% da população brasileira são todos os tapados e apenas os outros 17% dos demopeessedebistas merecem ser considerados como inteligentes e cultos.
Não sou tão ingênuo a ponto de acreditar que as pessoas que estão no governo atual são exemplos de candura e honestidade. O maior inimigo do homem é o próprio homem e portanto não dá para botar a mão no fogo por ninguém. Mas, convenhamos, insistir em ignorar o trabalho fantástico que o Lula tem feito na política externa brasileira é completamente absurdo e sem sentido e cheira mais a inveja. É a velha fábula da Raposa e as Uvas que a todo o instante se aplica na nossa vida diária. Negar que o atual governo tem agido corretamente combatendo a miséria e incentivando o crescimento do País beira a insanidade mental. E é até curioso que, salvo os raivosos militares da ultradireita golpista da década de 60, que ainda vociferam contra "os comunistas", os militares mais novos estão muito satisfeitos com o governo Lula. Estão sendo feitos investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologia, as forças armadas estão sendo reaparelhadas, e surge uma nova oportunidade de limparem a negra imagem que seus antecessores deixaram no Brasil. A questão é que os 17% que não gostam do Lula na realidade não gostam mesmo é do Brasil, esse país atrasado.... Se pudessem iam mesmo era para os Estados Unidos, o Éden sonhado, onde poderiam andar em fantásticos "crossovers", morar naquelas casas com gramado em volta e sem grades, sem favelas e sem pobres por perto, mas..... como não podem, resta-lhes descarregar a sua frustração em quem não compactua com seus sonhos e tentar criar na Barra da Tijuca o ambiente que não conseguem ter.
Bem, por tudo o que eu disse até agora, dá para perceber o que eu penso desse "seleto" grupo.
Bem, então vejam abaixo os artigos que mencionei no início.



Do blog VioMundo, do Luiz Carlos Azenha.

18 de março de 2010 às 14:19

Pepe Escobar: O Brasil interpõe-se entre Israel e Irã

18/3/2010, Pepe Escobar, Asia Times Online

Por falar em Via Dolorosa, Luiz Inacio Lula da Silva foi o primeiro presidente do Brasil a visitar oficialmente Israel. Louvado por seu carisma, habilidade e formidáveis capacidades de negociador – Obama, dos EUA, refere-se a ele como “O cara” –, mal sabia o presidente Lula que, para conseguir conversar seu anfitrião, essa semana, teria de passar a perna no próprio profeta Abraão em pessoa, nada mais, nada menos.

Ao fim e ao cabo, Lula não se deixou enrolar. Não fez concessões. E, diferente do vice-presidente dos EUA Joseph Biden, semana passada, conseguiu não ser humilhado publicamente pelos donos da casa.

Lula é homem habituado a enfrentar interlocutores duros. Avigdor Lieberman, ministro de Negócios Internacionais de Israel, boicotou seu discurso no Parlamento e o encontro com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O motivo: Lula não visitou o túmulo do fundador do sionismo Theodor Herzl. Ora essa! Nem Nicolas Sarkozy da França, nem Silvio Berlusconi da Itália visitaram o tal túmulo, quando visitaram Israel.

Brasília – como Paris e Roma – sabe muito bem que visitar túmulos não é obrigatório em viagens presidenciais. Ainda assim, um coro dos colonos judeus sionistas fanáticos do partido Likud em Israel não mediu palavras para ‘diagnosticar’ que a não-visita feriria de morte a competência do governo do Brasil para atuar com o mediador no conflito Israel-Palestina.

Lula ovacionado

No Parlamento, Lula enfrentou tentativa de linchamento, inclusive por Netanyahu, por sua política de não-confrontação e de diálogo com o Irã. O presidente do Brasil nem piscou. Condenou, com igual peso, tanto o holocausto quanto o terrorismo; lembrou os donos da casa que o Brasil e a América Latina têm posição assumida contra as armas nucleares; insistiu nas vias do “diálogo” e da “compaixão” para superar o conflito no Oriente Médio; defendeu uma solução viável de dois Estados para Israel e Palestina. Nem por isso deixou de criticar as construções de casas exclusivas para judeus em Jerusalém Leste. Foi ovacionado. Segundo depoimento de deputados israelenses, “foi muito mais aplaudido que George W. Bush”.

O profeta tropical

Nem que encarnasse o Abraão dos Abraões, Lula conseguiria convencer os sionistas fanáticos e seus lugares-tenentes. Mas, sim, Lula disse ao jornal israelense Ha’aretz o que os atores mais sérios no Oriente Médio já sabem mas não dizem; o “processo de paz” está sem rumo; não há outra alternativa além de incluir novos mediadores na mesa de negociação – parceiros novos, como o Brasil.

O mesmo se aplica à discussão do dossiê iraniano: “Os líderes mundiais com os quais conversei creem que temos de agir rapidamente, ou Israel atacará o Irã.” Lula está convencido de que novas sanções contra o programa nuclear iraniano serão contraproducentes. E suas palavras ecoaram pelo planeta: “Não podemos permitir que aconteça no Irã o que aconteceu no Iraque. Antes de novas sanções, temos de tentar, por todos os meios possíveis, construir a paz no Oriente Médio”.

A visão oficial do governo do Brasil – que ecoa e é ouvida em praticamente toda a comunidade internacional (vale dizer, não só no clube exclusivo de Washington e entre os suspeitos europeus de sempre) – é que nada, até agora, foi satisfatoriamente discutido com o Irã, sobre seu dossiê nuclear. Lula foi muito firme e claro: o Irã tem, sim, direito de desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos nos termos admitidos pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear do qual o país é signatário.

O Brasil ocupa hoje um dos assentos do Conselho de Segurança da ONU. Como a China, o país também não aprova e não apoiará novas sanções que os EUA querem impor ao Irã – e diga o que disser o secretário de Estado Robert Gates, que anda espalhando boatos de que os EUA já teriam os votos necessários para aprovar uma quarta rodada de sanções, porque a Arábia Saudita teria afinal convencido a China. A China jamais votará contra seus próprios interesses de segurança nacional – e o Irã é, sim, assunto de segurança nacional para os chineses.

Em maio, Lula estará em Teerã e, outra vez, reunir-se-á com o presidente Mahmud Ahmadinejad. Os sionistas linha-dura estão – como é rotina – fumegando.

Lula sabe muito bem que as chamadas “sanções espertas” [ing. smart sanctions], que visam principalmente o Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)] – que controla o centro do poder econômico e político no Irã – também afetarão milhões de civis conectados às empresas e negócios controladas pelo IRGC, ou seja, imporá novos sofrimentos à população em geral, que já paga o alto preço imposto pelas atuais sanções. O IRGC controla pelo menos 60 portos no Golfo Persa. Impedir que a Ásia negocie c om o Irã implica bloqueio naval. E bloqueio naval é declaração de guerra.

Não pressionar o Irã

Lula chega ao Oriente Médio em conjuntura muito especial: no momento em que o governo de Netanyahu decidiu construir mais casas exclusivas para judeus em Jerusalém Leste e na Cisjordânia, mesmo ao preço de perder o apoio crucial dos EUA no front iraniano.

Ironicamente, o Brasil pode estar começando a seduzir o establishment israelense, mas mais no front econômico, que no front geopolítico.

Israel assinou um acordo de livre-comércio [ing. “free-trade agreement” (FTA)] com o Mercosul[2] – o quinto maior bloco em termos de produto interno bruto. O acordo não agradou aos palestinos, para quem o FTA que foi assinado fortalecerá o complexo industrial-militar de Israel.

E é nesse momento que o Brasil diz bem claramente que defende um Estado palestino viável, nos limites das fronteiras demarcadas em 1967. Esse acordo de livre-comércio implica uma cláusula estratégica: permite transferir tecnologia de armas aos países-membro do Mercosul. As armas que fazem a repressão em Gaza estarão, em pouco tempo, disponíveis na América Latina.

Num front paralelo, ao elogiar o papel do Brasil como mediador, o presidente Shimon Peres sugeriu pessoalmente a Lula que o Brasil fizesse coincidir, em território brasileiro, duas visitas: do presidente da Síria Bashar al-Assad e a de Netanyahu. Assad visitará o Brasil ainda esse ano; e, na semana corrente, Netanyahu também aceitou convite para visitar o Brasil. Uma reunião tropical, informal, entre Síria e Israel, poderia criar a circunstância ideal para começar a quebrar o gelo. Lula e Netanyahu organizaram um sistema bilateral de encontro entre chefes de Estado e principais ministros a cada dois anos.

Mas… e quanto aos EUA, em tudo isso? Há vigente hoje um acordo estratégico entre EUA e Brasil, pelo qual estão previstos dois encontros de nível ministerial (ministérios de Relações Exteriores) por ano, um nos EUA, outro no Brasil.

O ministro brasileiro de Relações Exteriores chanceler Celso Amorim tem excelentes relações com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Em recente visita ao Brasil, Clinton insistiu muito fortemente para que Lula e Amorim apoiassem nova rodada de sanções contra o Irã. Os brasileiros recusaram polidamente e firmemente.

À Clinton restou a alternativa de reclamar, em conferência de imprensa, que o Irã estaria “usando” o Brasil, a Turquia e a China para escapar das sanções. Amorim, por sua vez, sempre lembra o desastre iraquiano: “Eu era embaixador na ONU nos dias críticos das decisões sobre o Iraque. E o que nós vimos lá foi um enorme erro.”

Lula foi meridianamente claro e específico: “Não é inteligente empurrar o Irã contra a parede. Quero para o Irã o que quero para o Brasil: usar a energia nuclear para fins pacíficos. Se o Irã for além disso, então não aceitaremos.” Exatamente a posição dos chineses.

Lula e Obama deram sinais de estar em sincronia sobre o Irã, desde o encontro que tiveram durante uma reunião dos Grupo dos 8+5 em Aquila, Itália, há nove meses. Então, Obama chegou a encorajar o diálogo Brasília-Teerã, desde que o Brasil pressionasse o Irã a aceitar o compromisso de manter seu programa nuclear estritamente para finalidades pacíficas. Foi exatamente o que Lula disse a Ahmadinejad quando se encontraram no Brasil. O que mudou foi a posição do governo de Obama, o qual, depois daqueles dias endureceu muito.

Os diplomatas brasileiros insistem que Ahmadinejad jamais fechou a porta a negociações. Em encontros diplomáticos bilaterais discretos, funcionários dos EUA admitem a diplomatas brasileiros que Ahmadinejad não é, de modo algum, intransigente; como tampouco é intransigente o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei. Em discurso de 19 de fevereiro no batizado de um destróier iraniano, Khamenei mais uma vez negou que o Irã esteja trabalhando para ter armas atômicas; e destacou que as armas atômicas são ilegais, nos termos da lei islâmica, porque sempre mataram grande número de civis inocentes.

O problema, se não foi inventado, foi, no mínimo, muito aumentado pela mídia dos EUA e Europa. Por causa disso, a própria Clinton, em momento de rara sinceridade, durante viagem à América Latina, teve de admitir que as sanções ainda demorariam “vários meses” para ser implantadas, se o forem.

Mesmo antes da visita de Clinton, o ministro das Relações Exteriores do Irã Manouchehr Mottaki já admitira a jornalistas brasileiros, sem pedir sigilo, que o Brasil poderia ser uma “ponte” entre o Irã e a frente EUA-União Europeia, por causa da “posição realista” do governo e da diplomacia brasileira. Mottaki não vê o Brasil como “mediador”. Prefere falar de “um facilitador de consultas”, uma vez que Teerã entende que nenhum outro país deva falar pelos interesses iranianos.

Brasília tampouco pediu para mediar coisa alguma. Mottaki informou que ele próprio tem “trabalhado substancialmente, fazendo diplomacia telefônica” com o chanceler Amorim. Teerã evidentemente vê os benefícios de estabelecer um canal de diálogo com o ocidente industrializado mediante um país em desenvolvimento.

Os BRICs como a nova superpotência

A estratégia do presidente Lula de tentar posicionar-se como uma “ponte” é especialmente bem-vinda, uma vez que o dossiê iraniano está chegando a fase crucial, na qual as facções mais linha-dura do bloco EUA-UE-Israel estão fazendo de tudo para desmentir e apagar qualquer prova (mesmo dos serviços de inteligência) de que o Irã não está construindo bomba alguma; e já houve tentativas sistemáticas de ‘corrigir’ informes de inteligência para que sirvam como ‘prova’ do oposto do que de fato comprovam (ecos do Iraque?).

A entrada de Lula nesse cenário e arena também implica maior destaque para os BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China), que já atuam como uma nova superpotência – ante uma ‘dominação’ cada vez mais desorientada e sem rumo, dos EUA. Nenhum dos BRICs é favorável ao isolamento do Irã; muito mais contrários são, é claro, a qualquer ataque ao Irã. E assim continuará, enquanto acreditarem que o Irã realmente não está próximo de construir sua bomba atômica, como o comprovam montanhas de evidências; nesse caso, um ataque ao Irã terá o efeito altamente indesejável de acelerar a proliferação nuclear no Golfo Persa.

Os BRICs também sabem que EUA e Irã podem, sim, se entender bem e bem rapidamente, mesmo nas questões mais espinhosas. Por exemplo, sobre o Afeganistão.

Só resta, pois, sobre a mesa, a estratégia do elefante na loja de porcelanas, de Israel. É hora de os BRICs pagarem para ver o jogo de Israel.

Se o governo de Netanyahu pode humilhar Obama e Biden no que digam sobre expansão de colônias exclusivas para judeus em Jerusalém Leste e na Cisjordânia, é razoável assumir que ignorará todas as súplicas do comandante do Estado-maior do Exército dos EUA Mike Mullen, que já disse repetidas vezes que qualquer ataque contra o Irã criará “problemas grandes, grandes, muito grandes, para todos nós”.

Israel (e também Washington) pode estar querendo apenas uma mudança de regime no Irã – que, sim, pode ser bem útil e necessária. Para isso, pode usar armas atômicas táticas e destruir as instalações nucleares do Irã. É possível que Israel esteja pronta para declarar outra guerra preventiva (conceito e ideia desenvolvidos em Israel e completamente encampados pelo governo de George W Bush). Claro que os israelenses contam com apoio logístico e político dos EUA.

Lula não avançou até tão longe. Mas o posicionamento do governo Lula do Brasil contêm embriões de todas essas espinhosas questões com as quais os BRICs devem fazer frente a Israel. Então, sim, quando isso acontecer, todo o planeta saberá que rabo, afinal, está mesmo sacudindo o cachorro.

Pepe Escobar[1] é autor de Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War [O Globalistão: Como o mundo globalizado está se dissolvendo em guerra líquida] (Nimble Books, 2007) e Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge [O blues da Zona Vermelha: instantâneos de Bagdá sob ataque]. Acaba de lançar Obama does Globalistan [Obama cria globalistões] (Nimble Books, 2009).

Recebe e-mails em pepeasia@yahoo.com

[1] Para saber sobre o autor, leia http://thegringochronicles.com/2008/04/30/who-is-pepe-escobar-anyway/. Se metade do que ali se lê for verdade, o cara é caso muuuuuuuuuuuito mais interessante, por exemplo, que qualquer D. Danuza, D. Eliane ou Sêo Clóvis Rossi, que hoje ‘dominam’ [só rindo] a Folha de S.Paulo.

[2] Mercosul: acordo comercial regional que reúne Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela.

Tradução e comentários de Caia Fittipaldi


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