Coloco abaixo dois artigos do blog do Emir Sader, do site da Agência Carta Maior. Como sempre, suas análises são muito bem elaboradas, concisas e esclarecedoras.Não posso deixar de destacar minha admiração pela qualidade de seu trabalho.

25/03/2010
Os dois Brasis
Há dois Brasis: um, o que a imprensa diz que existe e gostaria que existisse realmente. Outro, o Brasil real, em que vivem os brasileiros de carne e osso, o Brasil realmente existente. Os dois em contradição entre si.
Um dos temas recriados pela imaginação da imprensa é o do “fracasso” da política externa brasileira. Lula, Celso Amorim, todos os que representam o governo brasileiro em política externa, viveriam cometendo “gafes”, as pretensões brasileiras se revelam vãs nas suas propostas, Lula a todo momento estaria “desgastando sua imagem” pelas posições que toma. Tudo estaria errado e daria errado. O Brasil seria um desastre para o mundo – segundo a imaginação e a vontade dos Frias, dos Marinhos, dos Civitas, dos Mesquitas, e dos seus ventríloquos.
Recordemos que a política exterior de FHC era de absoluta subserviência aos EUA. (Celso Lafer, ministro de Exterior do governo FHC, submeteu-se docilmente a tirar os sapatos para serem revistados no aeroporto de Nova York, até esse ponto chegou a subserviência.) Os dois países deveriam concluir as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), contra a qual tinham se desenvolvido grande quantidade de mobilizações por todo o continente.
Na primeira grande virada de orientação, o governo Lula, mediante seu ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, fez com que abortassem essas negociações e, com elas, o projeto da Alca. Abriram-se assim os espaços para o fortalecimento do Mercosul e a criação das outras formas de integração regional que conhecemos – Banco do Sul, Unasul, Conselho Sulamericano de Defesa, Comunidade das Nações da América Latina e do Caribe, Alba, entre outras.
Assim foi se definindo uma das prioridades centrais do governo Lula, em ruptura com as orientações do governo FHC: integração regional no lugar de Tratados de Livre Comércio com os EUA, linha demarcatória fundamental para diferenciar os governos dos países do continente.
Nenhuma dúvida sobre o sucesso dessa linha política, não apenas pela sua correção, priorizando os países latinoamericanos, rejeitando as políticas de livre comércio dos EUA, assim como pela sua efetividade, que nos permite ter alternativas de intercâmbio comercial. A crise recente revelou, de forma ainda mais, clara como essa opção – ao contrário de países como o México, o Perú, a Colombia, que optaram pelos TLCs com os EUA – permite enfrentar as dificuldades externas, com a diversificação do comércio exterior brasileiro.
Da mesma forma que a extensão dessa prioridade com as alianças com os outros países do Sul do mundo, da Ásia, da África, do Oriente Médio, que ampliou como nunca a presença brasileira no mundo, ao mesmo tempo que deu posibilidades de diversificar o comércio internacional do Brasil. Este fator foi fundamental para a capacidade brasileira de superar rapidamente a crise internacional – a mais profunda desde a de 1929 -, sobretudo pela manutenção da demanda da China, que se tornou o principal parceiro internacional do Brasil superando os EUA.
Mas a presença brasileira se fez tambem nos grandes foros internacionais, com a defesa da posição dos países do Sul do mundo, a crítica dos responsáveis pela crise internacional, pela crítica ao caráter antidemocrático da ONU, entre outros temas.
Mais recentemente, o Brasil passou a se interessar pela situação do Oriente Médio, a partir da crítica de que os EUA nao podem ser o mediador da paz, porque estão excesivamente envolvidos no conflito, do lado de Israel – o destinatário da maior ajuda militar norteamericana no mundo, além de aliado estratégico dos EUA na regiao. As posições de Lula de crítica dos novos assentamentos judeus em Jerusalem, além do direito dos palestinos terem um Estado soberano como é o israelense, expressa no Congresso de Israel, foram reafirmadas poucos días depois pelos EUA, Russia, Uniao Européia e a ONU.
O reconhecimento de Lula como grande estadista, pela imprensa internacional, e por grande quantidade de governantes do mundo, em contradição expressa com a forma como a imprensa brasieira trata essa atividade, parece molestar a esta, assim como molesta a FHC. Este, que pretendía ser o grande estadista brasileiro no mundo, foi rápidamente esquecido, diante do sucesso de Lula e da política externa brasileira.
Parece que os tucanos e a mídia local – numa atitude totalmente provinciana – sentem falta da política externa subserviente a Washington, de desprezo pela América Latina, voltada para o Norte do mundo, espelhada na afirmação de que “o Brasil nao deveria ser maior do que é”.
A cobertura internacional da imprensa brasileira é péssima, os “enviados especiais” e os comentaristas locais sáo de uma ignorância ímpar sobre a América Latina e o mundo todo, provincianos, repetem o que diz a imprensa do Norte. Ficaram no tempo da guerra fría, da SIP (Sociedade Interamericana de Prensa), não entendem o mundo de hoje, nem o novo papel, do Sul do mundo, da América Latina e do Brasil em particular.
Por isso pintam um Brasil que não existe, um mundo que não existe, de costas para a realidade. Enquanto o Brasil real, a América Latina real, o mundo real, seguem girando, na direção oposta das ilusões e das mentiras da imprensa.
Postado por Emir Sader às 08:25
26/03/2010
Cambalache? Tudo é igual: Dilma ou Serra?
A candidatura da Marina, as do Psol, do PSTU, do PCB e outras eventuais do mesmo campo, têm algo em comum: tentar caracterizar que o PT e o PSDB seriam variações da mesma alternativa. Daí deduzem a necessidade de outra candidatura, buscando romper o que consideram uma falsa alternativa. Daí também, implicitamente, a posição de abstenção ou voto em um segundo turno em que se enfrentassem Dilma a Serra.
Essa tentativa de igualização das duas candidaturas é essencial para que se tente aparecer como superação do que seria uma falsa dualidade e aponta, entre outras coisas, para um voto branco em um eventual segundo turno entre Dilma e Serra, de forma coerente com essa análise. Foi o que aconteceu no segundo turno entre Lula e Alckmin.
Para nos darmos conta do absurdo dessa posição, basta fazer o exercício de imaginar o que teria sido do Brasil com quatro anos de mandato de Alckmin no lugar de Lula – incluindo o enfrentamento da crise internacional. Não se conhece nenhum balanço autocrítico dos setores de esquerda, o que supõe que a mantêm, agora com o agregado de Marina, que em 2006, ainda ministra do governo, fez campanha ativamente, no primeiro e no segundo turno, o que faz pensar que quando ocupava aquele cargo, sua posição era uma, quanto teve que deixar o governo, mudou de avaliacao sobre o governo Lula e também sobre o caráter do bloco tucano-demista, haja vista suas fraternais relações com estes atualmente. (Fazendo temer até mesmo que os apóie, expressa ou veladamente no segundo turno.)
A incompreensão das diferenças entre as candidaturas da Dilma e do Serra decorre da incompreensão da realidade brasileira atual, o que permite esse e outros equívocos. Considerar que o bloco tucano-demista é similar ao bloco governista e que um governo da Dilma ou do Serra seriam similares para o Brasil corresponde a não dar valor à política internacional do governo atual, às políticas sociais, ao papel do Estado, à inserção internacional do Brasil – entre outros tantos temas.
Quem não sabe localizar onde está a direita, corre o grave risco de se aliar a ela. Um aliado moderado – um governo de centro-esquerda – é radicalmente diferente de um inimigo. Ao contrário da avaliação dos setores radicais que deixaram o PT, o governo mudou e mudou para melhor, desde que Dilma Rousseff substituiu Palocci como ministro coordenador do governo. Quem acreditou que o governo estava em disputa e que era possível um resgate seu pela esquerda, acertou, enquanto que os que tiveram uma avaliação puramente moral, acreditando que o governo tinha “mordido a maçã” do pecado da traição, caminhando para ser cada vez pior, erraram, se isolaram e desapareceram do campo político, lutando agora apenas por uma sobrevivência mínima no plano parlamentar.
Considerar que um governo da Dilma ou do Serra seriam a mesma coisa - assim como consideraram que o Brasil com Lula, nestes quatro anos, é o mesmo que teria sido com 4 anos de governo de Alckmin - é não valorizar o que significa a prioridade da integração regional e das alianças com o Sul do mundo, em contraste com os Tratados de Livre Comércio – a que o governo de FHC levava o Brasil – e com as alianças prioritárias com os países do centro do capitalismo, objetivo dos tucanos.
É não levar em conta as diferenças de enfrentamento da crise do governo FHC – de que Serra foi ministro nos dois mandatos – e a forma de enfrentá-la do governo Lula, com um papel ativo do Estado, com a diminuição e não o aumento da taxa de juros, com os aumentos salariais acima da inflação, com a rápida recuperação do nível do emprego, com a manutenção das políticas sociais.
É não considerar as diferenças substanciais entre o Banco do Brasil comprar a Nossa Caixa, mantendo-a como banco público, evitando que um banco paulista mais fosse privatizado pelos tucanos – o Banespa foi vendido a um banco espanhol e a Nossa Caixa teria destino similar, não fosse o atuação do BB.
Esses e outros aspectos ajudam a diferenciar e a projetar governos muito distintos no futuro – veja-se a equipe econômica do Serra, para se ter idéia, além dos ministérios que entregaria para o DEM.
Quando uma força de esquerda se equivoca sobre a polarização do campo político, querendo desconhecê-la, conforme seus desejos subjetivos, se torna intranscendente, não acumula capacidade de intervenção política. E, pior, a ação que logra obter, pode perfeitamente favorecer a direita, seja de forma explícita ou implícita.
A incapacidade de compreender a polarização política no Brasil de hoje entre dois blocos de forças claramente diferenciados inviabiliza uma política de construção de uma frente ampla de esquerda, com o sectarismo fazendo com que nem sequer entre si os grupos mais radicais da esquerda consigam coligar-se.
Postado por Emir Sader às 12:23