Do site da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, transcrevo abaixo um artigo excelente, abordando o cinema de Hollywood nos anos 80. O artigo é uma colaboração de Ricardo Cota para o site Cultura.RJ
Hollywood dos anos 80: O futuro repete o passado
Para o crítico de cinema e Subsecretário de Comunicação Social, Ricardo Cota, a década de 80 foi marcada pela reciclagem de gêneros cinematográficos.
É possível definir o cinema dos anos 80 em um termo? Sim. Pós-modernismo. A década destacou-se pela reciclagem de gêneros cinematográficos conhecidos promovendo a releitura inventiva que consagrou definitivamente nomes como Martin Scorsese, Steven Spielberg, George Lucas, Brian de Palma, Lawrence Kasdan e Francis Ford Coppola, entre muitos outros.
A ficção-científica foi o gênero mais cultuado e ganhou status pop graças a filmes que se tornaram paradigmas, como as sequências de Guerra nas Estrelas, O Império Contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983), um passo então inédito em termos de efeitos especiais, e sobretudo Blade Runner, de Ridley Scott. Este filme, estrelado pelo ator-ícone do período, Harrison Ford, é a obra-prima pós-moderna.
Em um original ambiente futurista, em que tecnologia e massificação se sobrepõem, Ridley Scott, a partir do romance de Philip K. Dick, recicla os estereótipos do filme noir num thriller eletrizante que mostra ser possível filosofar em filme de ação. É, sem dúvida, o maior clássico da década, um filme obrigatório.
Os anos 80 também consagraram as sagas. Além de Guerra nas Estrelas, outras trilogias marcaram época, como Indiana Jones e De Volta para o Futuro, por sinal um título que expressa bem o clima dos 80. Spielberg merece um capítulo à parte. Além de reciclar os antigos seriados das matinês com Os Caçadores da Arca Perdida (1981), Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984) e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), dirigiu outro clássico da década, um filme absolutamente encantador, que impulsionou uma série hoje comum de filmes infantis feitos para encantar os marmanjos. Bom, só quem foi abduzido nos 80 não viu E.T. - O Extra-Terrestre (1982) e o seu revés em forma de sátira Gremlins (1984), dirigido por Joe Dante e roteirizado por Chris Columbus, que em 1986 dirigiria o divertido Os Goonies.
Outros gêneros passaram pelo processo de reciclagem pós-modernista. Coppola voltou-se para para a rebeldia sem causa, típica dos anos 50 e 60, e promoveu ao estrelato uma geração inteira em Outsiders - Vidas sem Rumo (1983). Só para lembrar: Matt Dillon, Ralph Macchio, Patrick Swayze, Rob Lowe, Emilio Estevez e Tom Cruise. Coppola viajaria ainda literalmente no tempo no delicioso Peggy Sue - Seu Passado a Espera (1986), seu filme mais leve, que se encaixa na linha "de volta para o futuro". Brian De Palma aprofundou seu mergulho hitchcockiano em Vestida Para Matar (1980) e Dublê de Corpo (1984), mas marcou ponto mesmo com a reinvenção do filme de gangster Os Intocáveis (1987), seu filme mais ambicioso.
Lawrence Kasdan também buscou reinventar gêneros como o western, em Silverado (1985), mas fora melhor sucedido alguns anos antes quanto botou William Hurt e Kathleen Turner para suar em Corpos Ardentes (1981), sem dúvida a mais inventiva reciclagem do noir, inserindo-se hoje como um dos clássicos do gênero. Kasdam é autor de um filme original, que fez história nos 80 e calou fundo nos espectadores da época: O Reencontro (1983).
Mas em termos de reciclagem, nenhum chegou perto do originalíssimo Robocop (1987), dirigido por Paul Verhoeven. Aqui o liquidificador tritura ficção-cientícia, quadrinhos e história policial numa narrativa eletrizante que acompanha o processo de desumanização do policial Alex Murphy, transformado num complexo homem-máquina, uma espécie de caveirão ambulante que elimina vilões sem piedade e muito menos sentimento de culpa. O filme é uma abordagem corajosa da violência e de seus efeitos sobre a sociedade. Tudo em clima pop, sem maiores delongas.
A onda hoje sedimentada de projetos inspirados em histórias em quadrinhos foi promovida na década, com destaque para Superman, cuja tetralogia teve três de seus filmes rodados em 80 - Superman II - A Aventura Continua (1980), Superman III (1983) e Superman IV - Em Busca da Paz (1987) - e, é claro, o Batman (1989), de Tim Burton, hoje uma franquia para lá de consolidada.
Mas enquanto o triturador pós-modernista passava o rodo nas bilheterias, um diretor, bem original, dedicou-se a radiografar a época com um olhar próprio, sem o filtro dos gêneros reciclados. Seu nome: John Hughes. Nada mais anos 80 do que o escapista, e hoje elevado a cult, Curtindo a Vida Adoidado (1986). Em seus filmes, a adolescência oitentista ganha um brilho especial, uma vivacidade irresistível, sendo tratada com inteligência e respeito, bem diferente dos infantilizados moleques da franquia American Pie. Além de Curtindo a Vida Adoidado, Hughes, morto precocemente no ano passado, deixou o adorável A Garota de Rosa Shocking (1986), promovendo Molly Ringwald a namoradinha da América.
Adrian Lyne, diretor que costuma provocar arrepio nos críticos, foi o responsável pelas imagens mais fortes dos 80. As cambalhotas de Jenifer Beals no musical Flashdance (1983), os jogos sensuais à luz de uma geladeira de 9 e 1/2 Semanas de Amor (1986), com o então galã Mickey Rourke, e a corrida de faca em punho da psicótica Glenn Close no thriller adúltero Atração Fatal (1987) são inesquecíveis. Egresso da publicidade, Lyne pode não ser um grande realizador, mas soube como ninguém impactar e provocar polêmica na década.
Dois brucutus também marcaram presença decisiva na década: Stallone e Schwarzeneger. O primeiro protagonizou três sequências pavorosas da franquia Rocky Balboa e inventou um dos mais odiosos promotores da guerra: Rambo, visto em três filmes. Já Schwarznegger, bem antes de trocar os pés pelas mãos na política, seguiu um caminho mais original, apostando em roteiros inteligentes, como o do inventivo O Exterminador do Futuro (1984), que mais tarde também viraria franquia. Hasta la vista, baby é 80 em estado bruto.
O gênero horror lançou duas franquias de sucesso. Sexta-Feira 13 teve oito partes filmadas nos anos 80. Mais interessante, mas não menos apelativo, o drama dos insones de A Hora do Pesadelo teve 5 sequências. Goste-se ou não, Freddy Krueger e Jason Voorhees fazem parte do escrete hollywoodiano da década. Acompanha-os a menininha mediúnica da menos bem-sucedida franquia Poltergeist - O Fenômeno (1982), com duas sequências, e o insuperável Chucky, de Brinquedo Assassino (1988).
Assim foram os anos 80. De um lado o doce e perseguido ET, do outro o frenético e persecutor Chucky. E, no meio dessa esquizofrenia toda, a gente.
Brasil Bye Bye Embrafilme
Em pleno processo de abertura, lenta e gradual, o cinema brasileiro viveu uma de suas décadas mais difíceis. Pode-se dizer que os anos 80 acompanharam a agonia e morte da Embrafilme, que sofreria a estocada final no início dos 90 com a canetada oficial do Presidente Collor, que extinguiu a estatal. Embora fosse alvo de críticas da classe cinematográfica, a Embrafilme não foi confrontada com alternativas concretas de produção, que só surgiriam em meados da década de 90, com a chamada retomada do cinema brasileiro.
A única transformação real que se pode notar no cinema brasileiro do período é o surgimento de um novo filão comercial. A pornochanchada sai definitivamente de plano, os filmes de conteúdo politico perdem espaço, embora o documentário ganhe, sobretudo a partir de Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, força. Jango (1984), de Sílvio Tendler, transforma-se no documentário de maior bilheteria da história do cinema brasileiro. Já na ficção, uma revisão da cultura popular, a base de muito humor, afirma Fernanda Torres como a estrela do cinema brasileiro da década. A Marvada Carne (1986) foi realizado entre o encontro poético de Walter Lima Jr com Humberto Mauro, Inocência (1983), e o verborrágico insight psicanalítico Eu Sei Que Vou te Amar (1986), de Arnaldo Jabor, que deu a Fernandinha o prêmio de melhor atriz em Cannes. Três filmes completamente diferentes, três desempenhos absolutamente distintos de uma atriz que projetava ali a diversidade temática que iria marcar o futuro do cinema brasileiro.
Ao lado de Fernanda Torres, lutando corpo a corpo em termos de presença e diversidade no cinema brasileiro: Carla Camurati. Além de estrear na direção com o curta A Mulher do Atirador de Facas (1984), Carla marcou presença em Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez (1984), último suspiro das inocentes pornochanchadas, Cidade Oculta (1986), de Chico Botelho, o mais pós-moderno dos filmes brasileiros do período, e o biográfico Eternamente Pagu (1988).
Mas o novo filão comercial do cinema brasileiro não tinha nada que ver com documentários, discussões existenciais, classicismo, pós-modernismo e comédia. O novo filão tinha como alvo o público adolescente, a geração que não estava nem aí para os milicos e queria mais era curtir a vida adoidado, sem grilos, com muita música, praia, sol e suco (a censura não permitia outros aditivos). Que o Havaí fosse aqui. E o resultado foi um cinema que já vinha com data de validade vencida.
Flertando com o videoclipe e a linguagem televisiva, os avós de Malhação foram pipocando nas telas. Tudo começou com Menino do Rio (1981) embalado pelo bordão do novato Lulu Santos, que se tornou uma espécie de hino da galera: "Garota eu vou pra Califórnia, viver a vida sobre as ondas, ou ser artista de cinema, o meu destino é ser star". Precisa dizer mais? Com a indústria fonográfica bombando, a explosiva combinação canção e imagem, LP e ingresso, gerou futos lucrativos enriquecendo seus stars. E vieram Garota Dourada (1984), Bete Balanço (1984) e Rock Estrela (1986). O terrível flagelo da AIDS iria acabar com a festa, tirando de cena expoentes dessa geração, como Lauro Corona e o cineasta Lael Rodrigues. Vistos hoje, esses filmes guardam pouco interesse. Nada mais datado. Porém servem como tratado arqueológico, fundamentais para conhecer os anos 80 no Brasil.
O que se pode dizer? Foi bom enquanto durou.



