quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Le Figaro: Como Lula transformou o Brasil

Reportagem que deveria ser lida por todos os brasileiros. Infelizmente não vai dar no JN. A tradução é do Miguel do Rosário, do blog Óleo do Diabo e transcrevo abaixo, para que fique registrado e possa ser lembrado, sempre que necessário.


Como Lula transformou o Brasil

Lamia Oualalou, nossa correspondente no Rio de Janeiro
Tradução: Miguel do Rosário, do blog Óleo do Diabo.

No outono próximo, se tudo der certo, Ricardo Mendonça irá rever seus parentes, em Itatuba, pequena cidade do estado da Paraíba, no Nordeste brasileiro. Já tem vários meses que o jovem economiza para pagar a viagem desde o Rio de Janeiro. "Eu não os vejo desde 2003; e mesmo com o telefone, é duro", suspira.

Ricardo tinha 18 anos quando deixou sua cidade, empurrado pelo instinto de sobrevivência e a promessa de abrigo feita por um tio instalado no Rio de Janeiro. "Eu venho de uma família muito pobre. Com meu irmão, trabalhava toda manhã na lavoura, para ajudar meus parentes. Depois do meio-dia, íamos à escola, de bicicleta, a 8 quilômetros de nossa casa", conta. No total, sua família obtinha uma renda mensal de 100 reais (45 euros). "A gente bebia água do rio, e ficava doente com frequência. Ficar, seria condenar-me", lembra-se.

No Rio de Janeiro, o adolescente encontrou um emprego de porteiro. Estimulado por seus professores, ele sonhava entrar na universidade. Para isso, seria necessario desembolsar 600 reais (270 euros) por mês, quantia inacessível. "Eu deixei pra lá, até que me falaram do Prouni. Eu tentei a sorte e recebi uma bolsa. Em três anos, terei diploma de direito!", exclama Ricardo. O programa, lançado em 2005 pelo governo federal, oferece bolsas parciais ou integrais aos estudantes pobres, desde que eles tenham formação escolar.

Para convencer as instituições privadas, que sempre esnobaram este segmento, o Estado lhes ofereceu exonerações fiscais. Em cinco anos, mais de 700 mil estudantes foram beneficiados pelo programa, mudando o aspecto da universidade. A medida criou uma bola de neve: percebendo que estes estudantes se integravam perfeitamente, mais universidades baixaram as mensalidades. Em novembro de 2009, quase 31% dos 5,9 milhões de inscritos na universidade vinham de famílias de baixa renda. A proporção dobrou em relação a 2002.

"Como meus parentes são analfabetos, no começo eles não compreenderam porque eu desejava estudar. Hoje eles choram de orgulho. Tudo isso, graças a Lula. É o primeiro a pensar que, mesmo se nascemos pobres, temos direito a uma chance. Antes dele, tudo estava predeterminado para nós", assevera Ricardo. "Para meus parentes também a vida se transformou. Eles tem direito a crédito de agricultura familiar, instalou-se água potável a cidade, e minha mãe conseguiu a sua aposentadoria", prossegue com ânimo exaltado.

Histórias como as de Ricardo contam-se aos milhões no Brasil. A três meses do fim de seu mandato, é um país transformado o que o presidente Luiz Inacio Lula da Silva entregará a seu sucessor. Quando ele chegou ao Planalto, o palácio presidencial de Brasília, era um país sem grandes esperanças que aceitou dar uma chance ao turbulento barbudo, onipresente na cena eleitoral desde o restabelecimento da democracia em 1985.

Em sua primeira eleição presidencial, em 1989, Lula foi bem colocado. O ex-sindicalista, que dirigiu as grandes greves dos anos 70 contra a ditadura e criou, em 1980, o Partido dos Trabalhadores (PT), prometia uma revolução. A elite e a televisão aterrorizaram a classe média assegurando que, em caso de uma vitória da esquerda, eles deveriam abrigar em suas casas os moradores de rua. Lula foi derrotado.

Em 1994, depois em 1998, foi a ânsia por estabilidade que deu dois mandatos consecutivos ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Seu líder, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, era o rosto por trás do "Plano Real", que criou uma nova moeda e deu fim ao pesadelo da inflação. "Eles conseguiram a estabilização da economia. Mas o PSDB não propôs mais nada aos mais pobres. Ao cabo de alguns anos, não era mais suficiente", analisa Marcus Figueiredo, politólogo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Foi com alto grau de impopularidade que Cardoso deixou o poder, em 2002. "Lula assumiu sua herança, com uma política monetária e econômica contrária ao que pregava. Mas, paralelamente, ele deu início a uma política social para ajudar os mais pobres, tanto no meio urbano quanto no rural", acrescenta o cientista

O chefe de Estado reagrupou algumas medidas sociais de seu predecessor e lhes deu uma dimensão até então inimaginável. O nome do programa resumia o objetivo final: "Fome Zero". A sua principal iniciativa, o "Bolsa Família", teve início em 2004, com alocação de recursos para as famílias mais pobres, exigindo apenas a presença na escola e acompanhamento médico das crianças. Variando de 22 a 220 reais (10 a 100 euros), segundo a renda e o número de crianças, o programa atinge hoje 12,6 milhões de famílias, o que corresponde a cerca de 50 milhões de brasileiros. O pequeno cartão amarelo permite às famílias melhorar suas refeições e ativou o comércio nas cidades mais pobres, em particular no Nordeste, onde a concentração de beneficiários do programa é mais elevada. As cidades também se beneficiaram do programa "segurança alimentar", que abastece creches e escolas, e disponibiliza alimentos para famílias pobres, assim como os "restaurantes populares", que oferecem refeições completas por um real (0,44 euro).

A origem dos alimentos é outra forma de aumentar a renda nas zonas rurais: para ter direito às subvenções públicas, é necessário comprar junto à agricultura familiar. Os pequenos agricultores recebem crédito para se equipar, beneficiam-se dos programas de irrigação e instalação de cisternas, assim como a chegada de luz elétrica para dez milhões de lares, com o plano "Luz para Todos". Ao decidir aumentar o salário mínimo acima da inflação, todos os anos (aumento de 54% de 2003 a 2010), o governo elevou a renda de 27 milhões de empregados e de 18,5 milhões de aposentados, cujas pensões são indexadas ao salário mínimo, que atinge hoje 520 reais (231 euros).

Pela primeira vez na história, o Brasil assiste hoje a uma redução contínua, e inédita, de suas desigualdades. Em dois mandatos, 24 milhões de brasileiros saíram da miséria, e outros 31 milhões ingressaram na classe média. Geograficamente, a redistribuição é explícita. "Todo o Brasil está em efervescência, mas no Nordeste se encontra um crescimento a taxas chinesas, de 10 a 12%", explica Marcus Figueiredo.

Os ataques ao assistencialismo falharam. "As políticas sociais são responsáveis por um terço da redução das desigualdades, o resto foi gerado pela alta gerada pela renda do trabalho", calcula Marcelo Neri, economista da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Para ele, os que atribuem a popularidade do chefe de Estado à sua imagem de "pai dos pobres", não captaram a amplitude das mudanças. "Lula não é o pai de ninguém: ele é a encarnação da ascensão social, a personificação do novo herói brasileiro, que é o trabalhador, com um contrato de trabalho, e direitos", insiste. Em sete anos, mais de 14 milhões de empregos formais foram criados, apesar de uma informalidade ainda alta. "O Brasil mudou de escala, nos anos 90, criavam-se 600 mil empregos por ano, hoje passamos a 1,4 milhão por ano, sob Lula", diz Marcelo Neri.

Ainda aí, o papel do Estado é central. Após ver suas prerrogativas questionadas nos anos 90, através de uma política fiscal rigorosa e privatizações, ele (o Estado) recuperou seu prestígio. As universidades públicas, fragilizadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso, que trabalhava com a privatização da educação, receberam recursos que lhes permitiram aumentar o número de professores e se expadirem. O segundo mandato de Lula foi dominado pelo "Programa de Aceleração do Crescimento", que investiu 262 bilhões de euros no desenvolvimento de infra-estrutura (portos, estradas, pontes, etc), casas populares, urbanização de favelas e, sobretudo, políticas energéticas.

"Se eu fosse escolher a cena que simboliza a mudança de paradigmas com Lula, seria a decisão de acabar com a aquisição no estrangeiro das plataformas de petróleo de uma empresa pública, a Petrobrás, e fazê-las no Brasil", declara Marcus Figueiredo. "Isso reativou a construção naval, moribunda e, além disso, é uma orientação ideológica de consequências enormes", diz.

Quando a Petrobrás revelou a existência, ao largo das costas brasileiras, de gigantescas reservas de petróleo - a mais importante descoberta em trinta anos nas Américas - Lula pediu a sua maioria parlamentar no Legislativo para acabar com o regime de concessão, mais generoso, segundo ele, com as multinacionais estrangeiras. A Petrobrás tornou-se uma empresa privilegiada, e os lucros obtidos serão revertidos para um Fundo soberano destinado a financiar a educação, a saúde e melhorar as condições de vida dos mais pobres.

Porque se o Brasil mudou muito, e rápido, ainda é um dos países mais desiguais do mundo. Com o boom dos últimos anos, as autoridades e os analistas não se renderam à complacência e a autocelebração. Mesmo se o número de lares com acesso à agua corrente cresceu 30% no curso do último decênio, 12 milhões de famílias ainda estão excluídas, enquanto 56% dos domicílios não tem acesso à rede de esgoto. A mortalidade infantil caiu, mas as condições atuais da saúde publica permanecem deploráveis. A universidade pública levantou a cabeça, mas o Brasil contava ainda com 14 milhões de analfabetos em 2008, e o ensino nas escolas, onde os professores recebem salários miseráveis, é um dos piores da América Latina. Malgrado algumas experiências interessantes na política de segurança, a violência continua a matar no Brasil mais de 40 mil pessoas por ano, uma cifra digna de um país em guerra.

Marcelo Neri é, todavia, otimista: os estudos mostram que, em vez de se refugiarem no consumo, os brasileiros, mesmo os mais pobres, investem antes em educação de seus filhos. "Antes, o sentimento de urgência era tal que cada um não pensava que no seu cotidiano. Hoje, a população está mais preocupada com os problemas coletivos como saúde, educação, infra-estrutura", diz Neri. Lembrando a famosa atribuída o general De Gaulle, segundo a qual o Brasil não seria um país sério, o economista conclui: "De Gaulle teve razão por um longo tempo. Mas as coisas mudaram. Estamos em vias de nos tornar um país sério".

# Escrito por Miguel do Rosário # Quarta-feira, Setembro 22, 2010

Uma brilhante análise de Nassif sobre o golpismo da mídia

Cenários de 1964 e 2010

Enviado por luisnassif, qua, 22/09/2010 - 14:09

É fascinante essa transição para os novos tempos. Permite testemunhar, em tempo real, a reedição de processos históricos dos quais só se sabia pela memória dos sobreviventes ou por relatos parciais.

Refiro-me ao processo de alimentação do golpismo.

Sou uma testemunha quase privilegiada da época porque muito jovem – em 1964 tinha 14 anos – e recebendo todo o influxo de informações de vários circuitos. De um lado, o udenismo avassalador – influência do meu avô materno. De outro, a posição liberal de meu pai. E, finalmente, os conflitos no Colégio Marista e nas Semanas do Estudante.

Em 1963, com treze anos, recebia informações através do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), de uma revista (da qual não me recordo o nome agora) que defendia o privativismo contra a sanha estatizante do governo. Qualquer episódio, por menos relevante que fosse, servia de álibi para manifestações da classe média contra...o governo.

Uma das mais celebradas foi a Marcha Com a Família, Por Deus e pela Liberdade, para protestar contra uma charge de Millor Fernandes no Cruzeiro, e uma outra na Última Hora de São Paulo, em que o chargista Arapuã comparava Nossa Senhora Aparecida a Pelé. Não tinha nenhuma relação com o governo Jango, mas serviu para manifestações por todo o país, contra as supostas intenções comunizantes do governo. Ou então as Marchas pelo Rearmamento Moral, com um tal de padre Peyton.
(Ontem, ao ver as manifestações indignadas de jornalistas e políticos, tentando relacionar a manifestação contra a mídia como um ato fascista comandado por Lula, baixou uma baita nostalgia e alívio de tempos que não voltam mais).

Da parte de Jango, havia um amadorismo à toda prova espelhado no famoso Comício da Central do Brasil – no qual o personagem mais incendiário foi o jovem presidente da UNE, José Serra. Ou seja, forneciam-se álibis para a ação golpista.

Vamos comparar a ações dos principais personagens de um período e outro.

Partidos sem perspectiva de poder

Em 1964, a UDN não tinha nenhuma perspectiva de poder. Era um partido de profissionais liberais e de fazendeiros paulistas, exercitando um discurso moralista, mas sem um projeto sequer de país. Fundamentalmente um partido paulista, isto é bem votado em São Paulo, embora sua bancada tivesse políticos de outros estados.

Nos anos 50, foi a principal responsável pelo monopólio do petróleo – a proposta original de Vargas era de criação da Petrobrás mas sem monopólio. Quando Carlos Lacerda assume a liderança política, torna-se privativista.

O discurso é eficiente quando investe contra o fisiologismo do modelo político brasileiro, a intermediação dos empréstimos do Banco do Brasil – curiosamente o mais ativo político nesse período era o pai do atual senador Tasso Jereissatti -, a irracionalidade da política econômica.

Mas, à falta de um discurso popular o que ganha consistência é o denuncismo exacerbado, com algumas denúncias corretas e a maioria amplamente manipulada, como maneira de alimentar uma indignação crescente que fizesse as pessoas deixarem de lado o caminho das eleições e apostar em decisões golpistas para atingir seus objetivos.

Nos anos 2010, o papel de Lacerda é assumido por Fernando Henrique Cardoso - que deve prosseguir nessa condição mesmo após as eleições. FHC tem dois discursos: um claramente golpista, alertando contra o perigo contra a democracia; e um professoral, onde tenta amenizar as críticas sob o manto falso da análise política. O primeiro é golpismo de político; o segundo é golpismo de acadêmico, com cobertura de análises sociológicas rasas.

Combina com Lacerda na falta de propostas claras sobre o futuro, na incapacidade de identificar os grandes fatores de transformação do país, as idéias mobilizantes. Queda, então, no denuncismo vazio.

José Serra é apenas o discípulo menor desse discurso, que deverá desaparecer após as eleições.

Papel da mídia

Não há rigorosamente nenhuma diferença entre os dois momentos. O estoque de armas da mídia é o mesmo.

No campo jornalístico, bombardeio incessante com denúncias diárias, visando criar um clima de exacerbação ampla na opinião pública. Alianças com a chamada sociedade civil, especialmente com setores jurídicos, visando dar alguma legitimidade aos golpes.

Nos anos 50, a UDN se valia da «banda de música», conjunto de parlamentares brilhantes, de formação jurídica, visando legitimar sua ação golpista. Em 1964 houve o pacto com organizações civis das cidades maiores. Nos anos 80 – último período de legitimação da mídia – os pactos com a chamada sociedade civil.

Em ambos os casos, tratava-se de um país pequeno, com sociedade civil incipiente, em que as organizações de esquerda tinham alguma penetração nos campos; e as de direita nas cidades. Hoje essa sociedade civil que amparou as melhores e as piores aventuras midiáticas, é apenas peça de museu.

Há mais diferenças. Nos anos 60 a televisão ainda não tinha a penetração de agora. Mas havia grande peso nas transmissões de rádio. A rádio Globo sempre teve papel importante na criação de climas propícios ao golpe. Nos anos 2010, a TV Globo atinge todo o país.

Em contraponto, nos anos 60 a opinião pública urbana era praticamente um eco da opinião pública carioca – a mais influente da época. A opinião pública paulista era restrita a São Paulo. Hoje em dia, há uma opinião pública muito mais disseminada, com os órgãos regionais pouco a pouco se libertando da influência ideológica da grande mídia.

O papel do empresariado

Em 1964 as disputas eram entre uma coalizão partidária de massa e partidos mais conservadores. Os conservadores se apresentavam como arautos da modernização – e, em certo sentido, foram modernizadores bastante consistente, especialmente no curto governo Castello Branco.

Hoje, qualquer visão mais moderna de país vê nos conspiradores a expressão mais acabada do anacronismo político. O pacto FHC - mídia representa o anacronismo amplo, inclusive indo de encontro às teses supostamente internacionalistas e modernizantes de FHC.

No fundo, todo esse alarido midiático se prende ao receio de que governo e Congresso abram o setor à competição estrangeira. Ou seja, é um setor que estimula o golpismo em defesa de interesses específicos, que passam pela não modernização capitalista do seu mercado de atuação.

Em 1964 havia uma pesada xenofobia no ar do lado dos aliados do governo. Em 2010, a xenofobia é do lado dos críticos que, por sua vez, apresentam um discurso supostamente internacionalista na retórica do dia a dia. À medida que esse jogo de interesses ficar mais claro, o paradoxo ficará mais explícito.

Em 1964, havia uma resistência ampla dos meios empresariais ao governo, especialmente devido aos processos de estatização conduzidos por Leonel Brizolla. Hoje as resistências se fundam exclusivamente no campo do preconceito, em geral dos escalões executivos, na medida em que os dois governos Lula desmontaram completamente esse receio, ao definir uma estratégia baseada na ampliação do leque de alianças econômicas.

O papel das casernas

Organizações como o Instituto Milenium assumiram claramente papel conspirador – da mesma maneira que o Ibad. Seu patrocínio a eventos com militares – ainda que de pijamas -, seu apoio ostensivo ao discurso mais golpista, em nada o diferencia das organizações conspiradoras dos anos 60.

A diferença é que o quadro militar é totalmente diferente daquele período.

Lá, havia o clima da guerra fria, o estilo carbonário de Leonel Brizolla (inevitável, após a tentativa de golpe de 1962), Forças Armadas estreitamente ligadas ao mundo político e empresarial do Rio de Janeiro.

É interessante observar os efeitos positivos da mudança da capital para Brasília.

Não sou defensor de Brasília. O Rio dos anos 50 juntava uma formidável massa crítica de políticos, pensadores, magistrados, cientistas. Mas era o ambiente adequado ao golpismo mais agudo.

Lembro-me de uma longa conversa com um dos mais proeminentes empresários brasileiros, figura de proa do mundo político-econômico dos anos 50, Queixava-se ele, em meados dos anos 90, que já não conhecia generais, almirantes, brigadeiros, que as Forças Armadas tinham se popularizado demais. No fundo, o círculo de influência saiu do Rio para Brasília, tirando o peso do mundo empresarial e político carioca e diluindo tentativas golpistas.

Imaginem Merval, Jabor, os Marinhos, convivendo no mesmo ambiente do Estado Maior das Forças Armadas, no velho Rio de Janeiro dos anos 60. Não sendo capital, seu acesso é a militares aposentados.

A abertura das informações

O ponto mais relevante é que hoje em dia as informações tendem a ser cada vez mais disseminadas, menos controladas.

FHC e Serra, junto com os centuriões da mídia, deixam plantadas sementes de ódio irracional, especialmente em São Paulo. Esse bombardeio midiático criou uma classe B fundamentalmente rancorosa, clima que deverá se exacerbar até as eleições.

A dúvida é sobre o pós-eleições.

Serra desaparecerá do mapa político. Do lado belicoso restarão FHC e os jornalistas que mais radicalizaram nesse período. Acabaram comprometendo fundamentalmente a imagem com a guerra contra Lula. De certo modo, ficarão prisioneiros desse jogo. Mas qual seu poder de fogo?

Usando os recursos dos planejadores estratégicos, haverá dois cenários daqui para frente:

Modernização continuada – nesse cenário, a economia continuará favorável, a modernização prosseguirá, haverá reforma política garantindo mais estabilidade ao futuro presidente e a transição para um novo regime cambial não será traumática. Nesse caso, completar-se-á a modernização do mercado de mídia, com a universalização da banda larga e a entrada de novos competidores. Surge uma oposição civilizada e o país entrará na rota da estabilidade política.

Retrocesso à guerra fria – nesse cenário, Dilma se enrola com a política econômica, a crise do câmbio tem desdobramentos mais graves, quebra-se a aura da modernização inclusiva. Aí haverá espaço para a reincidência do golpismo por parte dos mesmos atores.

Ou seja, só na hipótese do Brasil perder a expectativa de futuro e entrar na rota do atraso, esses grupos golpistas conseguirão algum espaço político. Sobreviverão apenas no atraso. A modernização institucional os carregará para o lixo da história.

A probabilidade maior é que terminem seus dias falando sozinhos. E meu vizinho FHC, ainda de posse plena de suas faculdades mentais, terá bom tempo ocioso para teorizar sobre a eficácia de se tentar reeditar 1964 em pleno 2010. Aí descobrirá que o Novo Renascimento - como ele denominava os tempos modernos - chegou para ficar.

# Escrito por Miguel do Rosário # Quinta-feira, Setembro 23, 2010

(Transcrito do Blog Óleo do Diabo)