terça-feira, 27 de dezembro de 2011




AFINAL, O QUE É ISSO?



Surge do nada.... Inesperadamente,
Não há como a sua existência controlar,
Não depende da nossa vontade,
Nem ao menos o podemos recusar.
Pode se dar com a pessoa certa,
Ou com a pessoa errada se dar,
Com alguém que, subitamente, sente o mesmo,
Ou com alguém que não sente absolutamente nada.
E de nada adianta contra ele lutar,
Porque depois que começamos a senti-lo,
A sua força de roldão nos vai, inexoravelmente, levar.
Colocando-nos também, frente a frente, com a consequência,
Quando pensamos que o podemos alterar.
Porque,  mesmo sendo sublime,
Uma dor profunda pode nos causar.
Mas é uma dor diferente,
Que da profundeza no nosso ser vai brotar.
Uma angústia, uma ansiedade,
Uma premente vontade de junto estar.
Ou então nos fazer sentir,
Um júbilo infinito, uma vontade de gritar!
Que é tão forte e é tão lindo,
Que nos dá, de tanta emoção, vontade de chorar
De alegria ou mesmo de tristeza,
Diga, por favor, o que tem tal beleza,
Para tal encantamento provocar?
E eu digo sem relutância,
Que é do AMOR que eu estou a falar!
(Nelson Gaspar)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Depois de um longo "exílio" eis-me aqui novamente. Muitas coisas aconteceram, o coração andou muito ocupado e a mente mais ainda. Agora volto a me acalmar, a olhar para baixo, porque até então meu olhar e meu pensamento tinham uma só direção. E encontrar, reencontrar, amigos... E voltar a pensar em poesia.

O amor ainda é possível


Nelson Gaspar

Um olhar suave, uma expressão plácida,
Uma voz de menina, sensível.
Antevejo dores passadas, receios futuros,
Mas resiste bravamente e luta,
Para seguir em frente...
Com sensibilidade extremamente apurada,
Procura esquecer o que a feriu.
Tenta lembrar só o que era bom
Porque somente assim será possível continuar...
Amigos tem muitos, sinceros,
Amores nem tanto, talvez, quem sabe....
Há um vazio que precisa ser preenchido,
Há uma ansiedade a ser saciada...
A esperança é a força que a move para a frente,
E lhe permite acreditar que o amor ainda é possível.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

“A classe dominante não tem interesse em mudar a educação”

O peso de seus argumentos em programas de televisão, a clareza de suas intervenções diante das autoridades e a capacidade inata de aglutinar as massas, converteram Camila Vallejo na líder mais visível deste movimento que já derrubou um ministro e jogou o governo de Sebastián Piñera nas cordas. Usando um jeans surrado, um lenço artesanal no pescoço, um piercing no nariz e esse olhar que esconde uma das mentes políticas mais brilhantes que apareceram no Chile nos últimos anos, Camila concedeu uma entrevista exclusiva a Christian Palma, correspondente da Carta Maior em Santiago do Chile. Christian Palma - Correspondente da Carta Maior em Santiago - @chripalma

Há três meses, Camila Vallejo, a carismática presidenta da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (Fech), podia tomar um metrô tranquilamente e caminhar sem chamar a atenção mais do que qualquer outra mulher chilena. Nesse tempo, os estudantes universitários e secundaristas iniciavam um movimento sem precedentes que inclui até hoje ocupações e greves nas escolas do país e diversas marchas pelas principais cidades chilenas pedindo fundamentalmente o fim do lucro no sistema educacional, mais qualidade nos conteúdos ministrados nas salas de aula e gratuidade completa na educação pública. Ela, com paciência, visitava os colégios explicando ponto por ponto as razões das reivindicações estudantis e parava para conversar com os jornalistas com calma. Foi em um desses eventos que a conheci. Usando um jeans surrado, um lenço artesanal no pescoço, um piercing no nariz e esse olhar que esconde uma das mentes políticas mais brilhantes que apareceram no Chile nos últimos anos, trocamos algumas palavras. A revolução estudantil se incendiou, os argumentos dos estudantes foram entendidos e valorizados pela cidadania e Camila Vallejo demonstrou que é muito mais do que um rosto bonito. O peso de seus argumentos em programas de televisão, a clareza de suas intervenções diante das autoridades e a capacidade inata de aglutinar as massas, converteram Camila na líder mais visível deste movimento que já derrubou um ministro e obrigou o governo de direita de Sebastián Piñera a oferecer três alternativas para destravar o conflito. Mas nenhuma delas satisfez os estudantes. Tamanha foi a pressão sobre o governo, que o próprio Piñera chamou os jovens para uma conversa neste sábado no palácio de La Moneda. Um dia antes deste convite que pode marcar o início do fim da crise, Camila Vallejo, achou um espaço em sua agenda e concedeu esta entrevista exclusiva à Carta Maior, recém chegada de Brasília, onde se reuniu com seus pares brasileiros. Ela reconhece que tem tempo apenas para comer. Considerando as dezenas de pedidos de entrevistas solicitadas por meios de comunicação chilenos e estrangeiros, interessados nesta jovem mulher, alguns minutos com ela são um luxo. Estrela das redes sociais – como boa parte de sua geração – convocou milhares por meio do Facebook e do Twitter, mas também foi ameaçada de morte ou insultada covardemente pela web. Tranquila, diz que está consciente dos riscos que isso significa, mas, mais importante ainda, sabe a tremenda responsabilidade que passa a ter com apenas 23 anos. Senhoras e senhores, com vocês Camila Antonia Amaranta Vallejo Dowling, a menina que jogou o governo de direita de Sebastian Piñera nas cordas. Saiba por que. - 

Você diz que as demandas estudantis não são um assunto de direita ou esquerda, mas sim de toda a sociedade chilena. Acredita que a cidadania entendeu isso?
Este movimento alcançou uma massividade e uma transversalidade que nunca tinham sido vistas desde o retorno à democracia (1990). Uma enorme parcela daqueles que, em um determinado momento, apoiaram Piñera, hoje se dá conta de que este não é um ataque direto à sua posição, mas sim a um modelo de educação que concebe a educação como um bem de mercado e não como um direito, e também a um sistema democrático que hoje, se reconhece , é muito estreito. O questionamento à conduta do governo, inclusive de cidadãos que pertencem a setores que, em um determinado momento, apoiaram o atual presidente, deixa evidente que existe o entendimento de que a luta que hoje travamos é pelo direito à educação e por uma mudança de sistema que beneficie toda a sociedade e o desenvolvimento do Chile. Ela não se limita a buscar benefícios para um setor político particular.  

O movimento se polarizou entre direita e esquerda. Isso é prejudicial?
Para entender esse conflito é preciso analisá-lo a partir de duas perspectivas. Por um lado, é preciso considerar que, junto à população, a problemática educacional se transversalizou de uma forma nunca vista, o que tem gerado um apoio massivo ao movimento vindo de diversos setores e atores ligados à educação. Por outro lado, temos um setor muito mais minoritário e ideológico representado pelas classes dominantes, que não estão interessadas em uma mudança na educação, tanto porque o atual sistema beneficia diretamente seus bolsos, como porque ele os mantêm em sua posição de privilegiados frente a uma população com fraca educação. A polarização de duas grandes alternativas educacionais é produto da postura intransigente desse setor. Ou seja, a polarização não se encontra no interior do movimento estudantil – que tem sabido priorizar a unidade atuando de forma conjunta -, mas sim representa uma enorme contradição entre as mudanças que a cidadania está exigindo hoje frente uma minoria conservadora cujos interesses são representados pelo Executivo. 

Qual a consistência deste movimento para resistir às artimanhas urdidas no espectro político da direita e também do governo? 
Hoje o movimento conta com uma série de fortalezas, tais como a amplitude que ultrapassa o meramente estudantil e o transforma em um movimento social; a unidade dos diferentes atores ligados ao mundo educacional, que após um longo processo conseguiram conjugar esforços em torno de pautas unificadas; a representatividade dos anseios da cidadania, na medida em que tem ocorrido processos democráticos por meio dos quais se definem as melhores estratégias a utilizar; e, finalmente, conta com a experiência histórica dos diferentes movimentos que nos precederam como o foi o movimento estudantil dos “pinguins” (estudantes secundaristas) de 2006. O movimento se vale de todas essas ferramentas para fazer frente às diferentes artimanhas que podem surgir tanto da articulação da direita como do governo, as quais, até aqui, temos sabido enfrentar. Atuação do governo Para entender um pouco mais o sistema educacional chileno e por que a direita não quer transformá-lo é preciso ter em mente que há três tipos de escolas de educação superior herdados da ditadura de Pinochet. Há os centros de formação técnica, os institutos profissionais e as universidades que se dividem em tradicionais, com aportes do Estado, e privadas. O ingresso nelas passa por uma prova de conhecimentos e, para os que não têm dinheiro, há um sistema de créditos outorgados pelo setor privado quase sem nenhuma regulação e com juros altíssimos. Em 2006, a presidenta Michelle Bachelet se complicou com a “Revolução dos Pinguins” que mobilizou só os estudantes secundaristas. Eles receberam promessas que não foram cumpridas e agora, com 80% da cidadania aprovando as mobilizações, o governo de Piñera recebeu os protestos na sua porta.

Qual sua avaliação sobre a atuação do governo no tema?
Não deu resposta às suas demandas, faz declarações infelizes saindo da boca do próprio presidente (“não há nada grátis na vida”, “as pedras nos levaram à ruptura da democracia”) e tenta dar um perfil violento às marchas (com infiltração de policiais). O governo não está escutando a cidadania, o que mostra que está disposto a seguir defendendo intransigentemente seu modelo educativo, inclusive assumindo o custo de omitir o que o povo tem demandado massivamente durante mais de três meses. Não contente com isso, tem explorado ao máximo as ferramentas com as quais conta o governo e a direita chilena – meios de comunicação, força policial e militar, respaldo dos grandes grupos econômicos – para deslegitimar o movimento, baseando-se na mentira por trás de estratégias populistas. A pressão social que este movimento conseguiu acumular obrigou Piñera a mostrar do que é feito este governo, quais são os limites democráticos que ele está disposto a cruzar e quem representa realmente, o que constitui um enorme desprestígio e desaprovação de sua gestão, o que já foi expresso nas últimas pesquisas que, historicamente, eles mesmos têm validado. O questionamento à incapacidade de manejar a demanda social por uma educação pública gratuita e de qualidade para todos alcança novos níveis na medida em que o grau de repressão ultrapassou qualquer limite de tolerância de um Estado de Direito. Durante esses meses de protesto, temos sido testemunhas de aberrantes abusos por parte do corpo policial, sob ordens do Executivo, através do Ministro do Interior e Segurança Pública, Rodrigo Hinzpeter, o que atingiu seu ápice com a morte de um estudante na semana passada. 

Qual sua opinião sobre o papel da Concertação (oposição) em tudo isso?
A Concertação desemprenhou um papel bastante oportunista tentando obter ganhos políticos com o que ocorre hoje no país. Neste sentido vemos hoje representantes dessa coletividade criticando o modelo educacional, como, por exemplo, o ex-presidente Ricardo Lagos que diz “que o modelo não já não aguenta mais”, esquecendo-se que foram eles mesmos que administraram e aprofundaram a mercantilização da educação e que, por outro lado, um importante setor dessa organização é formado por proprietários de colégios, por investidores no negócio da educação superior. Apesar disso, dado o nível de participação que a Concertação tem no Parlamento, corresponde a eles agora responder a altura de suas declarações em favor do movimento. Ou seja, devem assegurar que os projetos de lei que surgiram dessas mobilizações representem integralmente o que as demandas sociais estabeleceram e, por motivo nenhum, devem voltar a negociar pelas costas do movimento, como terminou ocorrendo com o processo da Revolução dos Pinguins de 2006.

Com a foice e o martelo no coração Camila Vallejo é filha de ex-militantes allendistas e referência das Juventudes Comunistas. Na atualidade, foi obrigada a congelar a tese para se formar em geografia. Ela não reconhece abertamente, mas tampouco descarta seguir uma carreira política.  

Já pensou em seguir sendo dirigente no futuro, ainda mais em um país carente de líderes jovens? Sobre o meu futuro, tenho dito que tenho um projeto pessoal de caráter acadêmico, ou seja, gostaria de terminar meu curso e seguir neste caminho. No entanto, concebo os cargos de representação como uma responsabilidade e de modo algum como um privilégio, pelo que, a priori, não posso dizer que não continuarei tendo cargos de representação popular.  

Alguns dirigentes estudantis internacionais olham com especial atenção para o Chile, depositam esperança neste movimento e estão atentos para que as conquistas não sejam perdidas. Como avalia essa tremenda responsabilidade?
Creio que a esperança de que as conquistas desse movimento não sejam perdidas, assim como a responsabilidade por elas é compartilhada pela totalidade dos envolvidos. Se é verdade que, às vezes, minha pessoa é transformada em ícone do movimento, temos claro que a sua construção é uma conquista que pertence a todos. Confio que temos feito as coisas corretamente, o que é demonstrado pelo incrível apoio cidadão que nos acompanha três meses depois de iniciada essa mobilização. Sob estas condições, se o governo não tiver suas demandas satisfeitas, isso será responsabilidade da intransigência do governo e da traição da cidadania por parte da direita chilena, o que não estamos dispostos a tolerar.  

O que te parece o modelo educacional de Lula (ProUni) que estabelece um mecanismo de bolsas de estudo para estudantes de universidades privadas com finalidade lucrativa, mas que está dirigido especialmente para estudantes de baixa renda e é financiado com isenções fiscais para esses estabelecimentos?
Para além do detalhe técnico das propostas, o que hoje estamos defendendo no Chile são ideias políticas muito concretas. E o fim do lucro na educação é uma das consignas que teve maior adesão da cidadania. A própria lei chilena de Educação criada na ditadura proíbe o fim do lucro em todas as universidades. O cumprimento dessa lei é um dever que esse governo descumpriu grosseiramente e que, após essa mobilização, não nos contentaremos com a continuidade dessa situação. É preciso avançar na direção da proibição do lucro em todo o sistema educacional, desde o pré-escolar a todos os setores de educação superior, assegurando sanções para aqueles que descumprirem esta lei e para aqueles que fizeram isso durante os últimos 30 anos.  

Qual sua impressão sobre o apoio dos trabalhadores às mobilizações estudantis e sobre a convocação de outra mobilização massiva para 8 de setembro?
O fato de os trabalhadores apoiarem as mobilizações é algo fundamental para cada processo histórico revolucionário, pois como sujeito histórico o trabalhador que hoje se encontra diretamente explorado pelo processo produtivo sobre o qual se sustenta nossa sociedade capitalista neoliberal. Se nós, jovens estudantes, somos chamados a gerar e fomentar as mudanças, temos que ter claro que estas devem se realizar junto aos trabalhadores, pois são eles, finalmente, o real motor da história.  

Você sofreu críticas e ataques maliciosos. Você disse que eles fazem parte do jogo, mas alguns ultrapassam todos os limites, como o de que é manipulada pelo Partido Comunista. O que diz sobre isso?
Efetivamente, eu sou militante das Juventudes Comunistas do Chile e isso é algo que nunca escondi, muito pelo contrário, é algo do que sinto muito orgulho, pois é uma grande escola que me permitiu crescer e desenvolver-me politicamente. Além disso, é de se esperar que, na atual situação, aqueles que não estão à altura do conflito busquem argumentos como estes para atacar, não somente a mim, mas também ao resto dos dirigentes. Mas o certo é que hoje eu represento não só os estudantes da Universidade do Chile, cuja Federação presido, mas também me toca ser a voz de todos os estudantes do Chile, enquanto porta-voz da Confederação de Estudantes do Chile (Confech) e a legitimidade que tanto os estudantes como a cidadania concederam a meu desempenho evidencia que essas acusações não passam de sujas estratégias desesperadas de quem, como disse anteriormente, não tem sido capaz de ganhar o debate.

Artigo transcrito do site de Carta Maior
Tradução: Katarina Peixoto

O jornalismo e a preservação de fontes

Foi uma semana crítica para a equipe do WikiLeaks. Em poucos dias, o mais famoso site de vazamentos foi hackeado, trocou farpas com grandes jornais, sofreu críticas globais sobre seus métodos, e ainda viu seu mentor – Julian Assange – na iminência de sofrer mais um processo, agora do governo australiano. Não bastasse isso, começam a despontar dois concorrentes no mercado de vazamentos: o OpenLeaks, do dissidente Daniel Domscheit-Berg, e a SafeHouse, do The Wall Street Journal. Apesar de viver sempre com a navalha na garganta, sentindo o cerco se fechar sobre seu projeto, Assange parece ter o sangue frio dos enxadristas. A semana foi difícil, mas isso não o impediu, por exemplo, de participar por teleconferência de um importante evento no Brasil sobre tecnologia – o InfoTrends – e disparar contra veículos de comunicação que há pouco tempo eram parceiros do WikiLeaks. Sempre é bom lembrar: Assange cumpre uma espécie de prisão domiciliar na Inglaterra, pois responde judicialmente a diversas acusações, entre as quais a de estupro. O estopim para o mais recente tiroteio foi a divulgação pelo Wikileaks de quase 134 mil documentos, dos quais alguns traziam as identidades das fontes, contrariando a rotina de vazamentos anteriores. O Departamento de Estado dos EUA reagiu, argumentando que a publicação colocava em risco as pessoas mencionadas e prejudicava operações de contraterrorismo.. O procurador-geral da Austrália, Robert McClelland, também se enfureceu, pois do lote de documentos, constavam os nomes de 23 australianos suspeitos de participação em grupos terroristas do Iêmen. Para McClelland, a informação “compromete a segurança nacional” de seu país. O WikiLeaks se defendeu das acusações, colocando a culpa no jornal britânico The Guardian, um de seus parceiros na mídia tradicional no que foi chamado de “o maior vazamento público de documentos da história”. Segundo Assange, o livro publicado em fevereiro pelos jornalistas David Leigh e Luke Harding revelava a senha para acessar documentos na íntegra, sem ocultação dos informantes. O jornal alegou que seus jornalistas haviam sido informados por Assange que a senha era temporária e seria trocada em poucos dias. Verdadeiro jogo de empurra… No primeiro dia de setembro, Assange voltou a atirar, descarregando agora também contra The New York Times, outro ex-colaborador. Segundo o mentor do WikiLeaks, os grandes conglomerados de mídia estão mais comprometidos com os governos de seus países do que com os interesses dos leitores. Na sequência, o WikiLeaks publicou o lote de 251 mil documentos da diplomacia norte-americana – aquele do maior vazamento do mundo – em versão não-criptografada, colocando mais gasolina na fogueira. Quatro de seus parceiros na imprensa – The Guardian, The New York Times, El País e Der Spiegel – trataram de condenar a ação, eximindo-se de qualquer responsabilidade. Ao que tudo indica, acabou o casamento entre o maior site de vazamentos e alguns dos mais influentes veículos de comunicação mundial. Azedou de vez a relação entre o resultado de uma nova cultura de tratamento da informação surgida com a internet e os meios midiáticos tradicionais. Mas é preciso entender alguns aspectos dessa novela. O primeiro é que o WikiLeaks não tem os mesmos compromissos que a imprensa ou órgãos governamentais. Não se pode esperar que opere com as mesmas preocupações de preservação de fontes. O WikiLeaks parece não manter esses compromissos, e – claro! – corre o risco de ser considerado “irresponsável” e “negligente”. Por outro lado, os cinco parceiros na mídia convencional sabiam que pouco poderiam confiar no site de Assange. Cresceram os olhos com o volume das informações exclusivas a que teriam acesso, e se arriscaram na joint-venture. A decisão não foi apressada; a costura da parceria demorou meses. Foram ingênuos? Difícil afirmar que alguém nesse episódio esteja isento de responsabilidades. O fato é que a sequência de capítulos traz à tona – para além de nomes e relatos – questionamentos sobre os limites e os compromissos que devem ter aqueles que detêm informações estratégicas. Pode-se pode colocar vidas em risco por conta da divulgação de dados? O que vale mais: o direito à vida ou o direito de ser informado? Quem define a preponderância de um sobre o outro? Quem deve garantir cada um desses direitos? A quem cabe zelar pela integridade dos informantes? De que forma sites como o WikiLeaks devem se orientar nesses casos? Os critérios jornalísticos valem para organizações não-jornalísticas? Na nova ecologia comunicacional, não existem apenas os dinossáuricos jornalistas e suas paquidérmicas organizações de informação. Outros animais midiáticos também compõem a fauna, e dividem os recursos e o território. Julian Assange e o WikiLeaks são espécimes recentes, sem catalogação ainda. Conviver com estranhos assim, num cenário em ebulição, é desafiador não apenas para quem trabalha nas redações ou no serviço diplomático. O público – de forma muito sábia e silenciosa – assiste à reacomodação das forças. (Transcrito do blog objETHOS - Artigo de Rogério Christofoletti Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS)

domingo, 10 de julho de 2011

Volta a postar, depois de um bom tempo ausente. Minha atenção tem sido desviada para outros assuntos, mais voltados para as coisas do coração. O tempo voa, e nada mais parece ter importância.... Mas eis que leio um artigo de Miguel do Rosário e não posso deixar de colocá=lo aqui, pois é de uma qualidade e de uma inspiração admiráveis.


Quem tem medo de Orson Welles?

Posted: 09 Jul 2011 04:11 PM PDT

Neste sábado frio, tomei o café da manhã bombardeado por manchetes globais sobre a nova denúncia do Procurador-Geral da República, Antônio Gurgel, contra o esquema do mensalão. E também por alguns desdobramentos da queda do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, cujas supostas estrepolias ainda não tive chance de abordar por aqui. Trata-se de uma excelente oportunidade para filosofar um pouco sobre aquele que possivelmente seja o mal mais antigo da civilização: a corrupção política.

Ao filosofar sobre o tema, porém, não pretendo com isso apelar para uma generalização conivente ou oportuna, apontando a escuridão do passado para acharmos as trevas de hoje menos sombrias. Ao contrário, gostaria de fazer uma abordagem que nos tornasse mais conscientes e mais indignados.

É um desafio.

Podemos começar por uma asserção corroborada tanto pelo senso comum quanto pela ciência política: o poder corrompe.

Não é uma afirmação moralista, embora seja uma avaliação, sim, bastante pessimista. A raíz do vocábulo "corromper" é forte: vem do latim "corrumpere", que significa "destruir, devastar, arruinar, disperdiçar". Mas também possui o significado de "alterar".

Poderíamos ainda fazer uma gracinha pós-moderna e separar a palavra com tracinho: o poder co-rompe.

O poder "rompe" a igualdade básica entre seres humanos. A democracia é uma ideologia linda, um contrato político sofisticado, mas jamais conseguirá superar este trauma de nascimento: brincávamos todos juntos, éramos irmãos, amigos, iguais; de repente, tem alguém mandando, outro obedecendo.

Mesmo numa democracia perfeita, em que há sufrágio universal realizado com lisura, o trauma permanece, pois evidentemente entram em jogo pesados interesses econômicos. Não foi apenas o povo que votou em Dilma Rousseff; sua campanha custou bilhões de reais. Empresários apostaram em deputados, prefeitos, governadores. Cabos eleitorais investiram mais do que sua força de trabalho; correram riscos pessoais, às vezes até risco de vida. Todos querem, mesmo que finjam o contrário, cobrar a conta por tanto esforço.

Muitos psicólogos estudam as transformações ou desvios psicológicos provocados pelo poder nas pessoas. O fenômeno é analisado também por todo artista interessado na psicologia humana, e qualquer pessoa, de maneira empírica e desinteressada, tem sua própria teoria sobre o tema.

De maneira geral, há um consenso negativo sobre as consequências do poder. E isso porque há um fundamento igualitário que nos une a todos. Cidadãos de todas as ideologias, todos os credos, sentem uma invencível irmandade ao se verem no mesmo botequim, longe do poder, reclamando ou defendendo seus líderes. Podem até brigar mortalmente, mas será sempre uma briga entre irmãos, um fratricídio.

Esta irmandade entre os iguais torna-se clara com o tempo. Se antes Céline era condenado por seu antissemitismo e simpatia pelos nazistas, hoje o perdoamos não apenas por ser um grande artista, intérprete das misérias e angústias do espírito humano, mas sobretudo por ser um dos nossos, um homem comum, confuso, pobre, perseguido, frágil. Nunca o perdoaríamos se tivesse sido um político, um chefe militar.

O poder é entendido, todavia, assim como a democracia e a existência do Estado, como um mal necessário.

Mas a origem da corrupção política nasce desta ruptura básica. A partir do momento em que eu tenho poder, sinto-me mais livre do que outros cidadãos, e essa liberdade contamina a minha visão de mundo. Minha liberdade política torna-se desenvoltura moral.

Nesse ponto, unem-se todas as ideologias em sua gritaria contra os perigos do poder.

Por ocasião do escândalo Palocci, houve gente que atacou o ministro com o argumento de que a esquerda não poderia se igualar à direita no quesito "pragmatismo político", querendo dizer que não poderia se deixar levar por uma suposta falta de ética presente organicamente na direita. Besteira. Falso moralismo. Aliás, o certo é criticarmos o "falso moralismo" e não o moralismo em si. O moralismo, o debate moral, é sempre necessário. Mas a corrupção política da direita só é maior porque ela se expôs por mais tempo ao poder. A partir do momento em que a esquerda se expõe ao mesmo sol, ela terá a pele bronzeada pela mesma radiação ultravioleta.

É preciso também que evitemos a injustiça de depreciar a nobre indignação moral do cidadão comum para com a roubalheira constante no alto escalão do poder como uma lamentável vulnerabilidade à manipulação midiática. O que acontece é justamente o contrário. A mídia manipula com astúcia (afinal este é seu principal trunfo) a desconfiança atávica do cidadão comum em relação aos donos do poder. Essa desconfiança, porém, é nobre. Pode-se dizer que ela é o fundamento da democracia, que é o regime político que melhor soube enfrentar os dilemas morais criados pela necessidade de nos organizarmos socialmente e com isso conferirmos poder a uns e não a outros.

Não é por outra razão que a sociedade, historicamente, tem sempre desprezo pelos bajuladores.

O grande barato dos comentaristas romanos, o que os tornou clássicos da literatura mundial, como Tácito e Suetônio, reside na liberdade crítica com que eles trataram os grandes nomes da política de sua época. Na obra de Suetônio, por exemplo, ao mesmo tempo em que Júlio César recebe inúmeros elogios por sua dedicação às agruras sociais do povo (César era do partido popular, a esquerda romana), dentre outras qualidades, é impiedosamente criticado por sua vaidade, cobiça, corrupção e outros defeitos terríveis.

Eles mesmo confessam, porém, que só puderam escrever com tal liberdade em função do seu distanciamento histórico e da relativa liberdade política de que ainda gozavam. Quando o totalitarismo passa a reger a vida romana, acabam-se as artes, a literatura, e a crítica política divertida, livre e saudável que havia germinado por séculos, tanto em Roma quanto na Grécia Antiga.

É por isso também que eu entendo e aprovo o esforço da blogosfera progressista em libertar-se da pecha de "chapa branca". Ela quer ser crítica, livre, nobre.

Daí voltamos ao tema da corrupção política, mais especificamente a do governo federal e seus aliados, seja nos ministérios, seja nos estados.

A sociedade não pode ser tolerante ou leniente: o combate à corrupção deve ser implacável. Se provarem que Lula praticou um ilícito, que o esquartejem na rua; se provarem que Dilma prevaricou, que a degolem em praça pública! Obviamente uso hipérboles: as condenações devem passar pelos ritos institucionais, com todo o direito à defesa. Quer dizer, aí reside o ponto principal. A sociedade precisa aprimorar as suas técnicas de combate à corrupção não apenas para melhor capturar os bandidos, mas também para proteger os inocentes. Quer dizer, ninguém é inocente. Um político no poder, só pelo fato de estar no poder, arrasta consigo uma espécie de maldição. Ao longo de sua vida, acumulou adversários, invejas, equívocos. Seria difícil pensar num político, mesmo o mais santo e generoso, que não tenha praticado um ato de prepotência ou injustiça em sua carreira.

O aprimoramento das instituições, porém, deve visar o endurecimento do combate à corrupção, mas também evitar o agravamento desse preconceito atávico, genético, do homem comum contra o político.

E aí entramos na seara dessa ligação polêmica, às vezes positiva, muitas vezes negativa, entre as instituições que combatem a corrupção (ministerio público, justiça, polícias) e imprensa.

É notório que vários escândalos concretos de corrupção nascem de denúncias feitas pela imprensa comercial. Tal fato não deriva de nenhuma qualidade moral intrínseca a uma empresa de mídia em particular, embora devamos admitir que a existência de uma imprensa de oposição incentiva os inimigos do governo a denunciarem seus podres. É neste sentido que a blogosfera não vê problemas no fato da grande mídia brasileira ser uma imprensa de oposição. Ao contrário, blogueiros como Eduardo Guimarães afirmam que se sentem mais seguros em ter governos do PT justamente por saberem que haverá sempre denúncias; em caso de governos do PSDB, não há confiança de que a imprensa será tão diligente - pelo menos esta nunca usou com muita energia seu arsenal quando FHC fez de tudo para aprovar a reeleição para si mesmo (sem ao menos consultar o povo, como fez Chávez), manipulou o câmbio e vendeu nossas estatais a preço de banana.

O problema é quando esta ânsia de prender o ladrão leva o denunciante a querer fazer justiça com as próprias mãos, com isso cometendo outro tipo de injustiça, às vezes até mais grave, politicamente, do que aquelas que denuncia. Montesquieu, em seu clássico O Espírito das Leis, lembra que o falso testemunho e a calúnia, por seu potencial devastador contra a democracia e contra o delicado espírito de confiança mútua do qual ela precisa para sobreviver, eram considerados crimes hediondos em Atenas e na Roma republicana.

Quando todos os cidadãos são livres para se manifestar politicamente, as vozes mais estridentes que se levantam no meio da ágora não são, necessariamente, aquelas dos mais honestos e bem intencionados. Desde que nasceu a democracia, todo tipo de oportunistas, cínicos e mentirosos viram a oportunidade de usar suas qualidades retórica para se dar bem sem muito esforço. Esses cupinchas da mídia surgiram, na verdade, há milhares de anos; não defendem a democracia por uma questão de princípios, mas porque são seus parasitas.

O que devemos fazer, portanto, na minha opinião, é apostar no fortalecimento das instituições de controle. Incentivar que sejam mais independentes e mais democráticas. Ao mesmo tempo, porém, temos que produzir uma cultura de respeito à defesa dos indivíduos, incluindo aí as autoridades políticas.

Quanto aos desvios éticos, eu acho que devem ser todos postos no papel. Não podemos nos expor a esse absurdo de condenarmos políticos com base na interpretação leiga e sempre preconceituosa do cidadão comum, para o qual todo político é um ladrão - e num sentido filósofico, todo político é um ladrão de nossa liberdade e do nosso sentido de igualdade.

Como fizeram com Palocci.

Pré-condenar um inocente é um crime tão grave ou pior do que roubar dinheiro público. O peculato devasta as contas do Estado, a pré-condenação solapa o Estado de Direito, ameaça a democracia e as liberdades individuais. O poder de condenar, enquanto um ato preponderantemente midiático, interessa somente à mídia. No tribunal midiático, não há nenhum rigor ou controle sobre os direitos sagrados da defesa. A mídia exibe um arremedo qualquer de defesa, em geral extremamente precário, e que, na maioria das vezes, é usado contra a própria vítima. Isso sem contar os inúmeros artifícios semióticos que a mídia tem a seu dispor para demonizar um desafeto: imagens, vídeos, charges, animações, programas de humor, entrevistas com personalidades da cultura, etc.

Tudo isso tem sido colocado, há tempos, nesta pesada conta que chamamos "liberdade de imprensa". É um assunto complexo e delicado, pois nenhum democrata verdadeiro quererá tolher o direito sacrossanto dos jornais de meterem o pau em quem lhes convir. A própria entrada da Justiça nessa seara tem sido tratada como indesejável, desagradando inclusive a blogosfera.

A tendência dos regimes políticos modernos, em todo mundo, todavia, será a regulamentação democrática da mídia. A partir do momento em que os grandes jornais, revistas e canais de TV, recebem enorme quantidade de verbas públicas, oriundas da publicidade oficial, é necessário que estes órgãos se submetam a um código de ética público e democrático. Se quinhentas pessoas escrevem uma carta reclamando de uma matéria, e duas a elogiam, não é correto que o jornal publique somente as duas últimas, ou mesmo apenas uma de cada. É preciso que haja equilíbrio, bom senso e justiça. À imprensa cabe informar, denunciar, criticar e dar espaço aos produtores de cultura. O dono do jornal e o colunista tem o direito de expor livremente suas ideias e visões de mundo. Mas é preciso dar um pouco mais de proteção também ao indivíduo e à sociedade, que muitas vezes se veem totalmente desamparados diante da ferocidade midiática. Isso se consegue através de: 1) uma regulamentação que assegure tanto a liberdade da imprensa quanto o direito de resposta do cidadão; 2) uma política educacional que estimule o cidadão a manter uma postura tão crítica em relação à mídia quanto ela já o é em relação aos governos.

Por fim, a propria sociedade civil, através de seus canais privados (literatura, blogosfera, cinema, teatro) deve construir valores, símbolos e filosofias, que sirvam como armas para que o cidadão saiba enfrentar não apenas os desmandos de seus governantes, mas também as prepotências dos barões da mídia. O cinema americano, seja feita a justiça, tem feito isso desde a década de 30, com os filmes de Frank Capra, culminando com a obra-prima de Orson Welles, Cidadão Kane. O primeiro grande filme moderno tem como assunto principal a emergência desse poder sem controle, anárquico e totalitário ao mesmo tempo, que é o surgimento dos oligopólios midiáticos. Welles foi perseguido por toda a grande imprensa da época, chamado de comunista para baixo, mas a força de sua arte fê-lo triunfar no final. Esperemos que, um dia, nossos cineastas e escritores tenham a mesma coragem de Welles para denunciar problemas ainda mais graves no Brasil, pois o Cidadão Kane, ao contrário de nossos barões de Limeira, jamais apoiou um golpe de Estado e a derrubada de um governo democrático... A história brasileira precisa ser recontada para que possamos entender melhor o presente. As liberdades individuais, embora hoje tenham virado assunto de salão das dondocas do Instituto Millenium, são hoje ameaçadas não pelo Estado, que é regulado pelo sufrágio e pela separação dos poderes, mas por uma mídia oligopolizada e mafiosa, que age ao arrepio das leis para julgar e condenar seus desafetos, interferindo perniciosamente no processo democrático.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Os canalhas da ALERJ, segundo Cidinha

Nunca cheguei a formar uma opinião mais aprofundada sobre a deputada Cidinha Campos mas, ao assistir o video abaixo, passei a admirá-la. Tudo o que ela diz é a pura verdade.

terça-feira, 29 de março de 2011

SE EM TODOS OS PAÍSES DA EUROPA A POPULAÇÃO REAGISSE ASSIM, OS BANQUEIROS IAM SE DAR MAL

Islândia, um país que pune os banqueiros responsáveis pela crise
A grande maioria da população ocidental sonha desde 2008 em dizer "não" aos bancos, mas ninguém se atreveu a fazê-lo. Ninguém, excepto os islandeses, que levaram a cabo uma revolução pacífica que conseguiu não só para derrubar um governo e elaborar uma nova Constituição, mas também enviar para a cadeia os responsáveis pela derrocada econômica do país. Crise financeira e econômica provocou uma reação pública sem precedentes, que mudou o rumo do país. O artigo é de Alejandra Abad.

Alejandra Abad - El Confidencial

Na semana passada, nove pessoas foram presas em Londres e em Reykjavik (capital da Islândia) pela sua responsabilidade no colapso financeiro da Islândia em 2008, uma profunda crise que levou a uma reação pública sem precedentes, que mudou o rumo do país.

Foi a revolução sem armas da Islândia, país que hospeda a democracia mais antiga do mundo (desde 930), e cujos cidadãos conseguiram mudar com base em manifestações e panelas. E porque é que o resto dos países ocidentais nem sequer ouviram falar disto?

A pressão da cidadania islandesa conseguiu não só derrubar um governo, mas também a elaboração de uma nova Constituição (em andamento) e colocar na cadeia os banqueiros responsáveis pela crise no país. Como se costuma dizer, se você pedir educadamente as coisas é muito mais fácil obtê-las.

Este processo revolucionário silencioso tem as suas origens em 2008, quando o governo islandês decidiu nacionalizar os três maiores bancos - Kaupthing, Landsbanki e Glitnir - cujos clientes eram principalmente britânicos, americanos e norte-americanos.

Depois da entrada do estado no capital a moeda oficial (coroa) caiu e a Bolsa suspendeu a sua atividade após uma queda de 76%. A Islândia foi à falência e para salvar a situação o Fundo Monetário Internacional (FMI) injectou 2.1 bilhões de dólares e os países nórdicos ajudaram com mais de 2.5 bilhões de euros.

As grandes pequenas vitórias das pessoas comuns
Enquanto os bancos e as autoridades locais e estrangeiras procuravam desesperadamente soluções econômicas, o povo islandês tomou as ruas, e com as suas persistentes manifestações diárias em frente ao parlamento em Reykjavik provocou a renúncia do primeiro-ministro conservador Geir H. Haarde e do governo em bloco.

Os cidadãos exigiram, além disso, a convocação de eleições antecipadas, e conseguiram. Em abril, foi eleito por um governo de coligação formada pela Aliança Social Democrata e Movimento Esquerda Verde, chefiado por uma nova primeira-ministra, Johanna Sigurdardottir.

Ao longo de 2009, a economia islandesa continuou em situação precária (fechou o ano com uma queda de 7% do PIB), mas, apesar disso, o Parlamento propôs pagar a dívida de 3.5 bilhões euros à Grã-Bretanha e Holanda, um montante a ser pago mensalmente pe as famílias islandesa durante 15 anos com juros de 5,5%.

A mudança trouxe a ira de volta dos islandeses, que voltaram para as ruas exigindo que, pelo menos, a decisão fosse submetida a referendo. Outra nova pequena grande vitória dos protestos de rua: em março de 2010 a votação foi realizada e o resultado foi que uma esmagadora de 93% da população se recusou a pagar a dívida, pelo menos nessas condições.

Isso levou os credores a repensar o negócio, oferecendo juros de 3% e pagamento a 37 anos. Mesmo se fosse suficiente, o atual presidente, ao ver que o Parlamento aprovou o acordo por uma margem estreita, decidiu no mês passado não o aprovar e chamar de volta os islandeses para votar num referendo, para que sejam eles a ter a última palavra.

Os banqueiros estão fugindo atemorizados
Voltando à situação tensa de 2010, enquanto os islandeses se recusaram a pagar uma dívida contraída pelos os tubarões financeiros sem os questionar, o governo de coligação lançou uma investigação para resolver juridicamente as responsabilidades legais da fatal crise econômica e já havia detido vários banqueiros e executivos de cúpula intimamente ligados às operações de risco.

Entretanto, a Interpol, tinha emitido um mandado internacional de captura contra o presidente do Parlamento, Sigurdur Einarsson. Esta situação levou os banqueiros e executivos, assustados, a deixar o país em massa.

Neste contexto de crise, elegeu-se uma Assembleia para elaborar uma nova Constituição que reflita as lições aprendidas e para substituir a atual, inspirada na Constituição dinamarquesa.

Para fazer isso, em vez de chamar especialistas e políticos, a Islândia decidiu apelar directamente ao povo, soberano, ao fim e ao cabo, das leis. Mais de 500 islandeses apresentaram-se como candidatos a participar neste exercício de democracia direta de redigir uma Constituição, dos quais foram eleitos 25 cidadãos sem filiação partidária, que incluem advogados, estudantes, jornalistas, agricultores, representantes sindicais.

Entre outros desenvolvimentos, esta Constituição é chamada a proteger, como nenhuma outra, a liberdade de informação e expressão, com a chamada Iniciativa Islandesa Moderna para os Meios de Comunicação, um projeto de lei que visa tornar o país um porto seguro para o jornalismo de investigação e liberdade de informação, onde se protejam as fontes, jornalistas e os provedores de internet que alojem órgãos de informação

Serão as pessoas, por uma vez, para decidirão sobre o futuro do país, enquanto os banqueiros e os políticos assistem (alguns da prisão) à transformação de uma nação, mas do lado de fora.

Tradução para o português: Vermelhos.net

Artigo transcrito do site de Carta Maior.